Kapittel 6: Konklusjon
6.1 Forslag til videre forskning
No caderno de anotações, o nome de Zaratustra aparece no fragmento 11[195]131com o título “Meio dia e eternidade: indicações para uma nova vida” (Mittag und Ewigkeit. Fingerzeige zu einem neuen Leben)132, seguido logo após pela apresentação de um esboço para uma obra em quatro capítulos intitulado “Para o “esboço de uma nova forma de vida” (Zum „Entwurf einer neuen Art zu leben“) (11[197]).
“Para o “esboço de uma nova forma de vida”
LIVRO PRIMEIRO no estilo do primeiro movimento da nona sinfonia. Chaos sive natura: “da desumanizaçao da natureza”. Prometeo, acorrentado no Cáucaso. Escrito com a crueldade do Κ𝜌𝛼𝜏𝜊𝜍, “o poder”.
LIVRO SEGUNDO. Rápido-cético-mefistofélico. “Da incorporação das experiências.” Conhecimento= erro que se torna orgânico e organiza.
LIVRO TERCEIRO: O mais íntimo e o mais suspenso sobre o céu que jamais se escreveu: “da felicidade última do solitário” – isto é, aquele que passou da “pertença”ao mais alto grau de “posse de si”: o ego perfeito: somente então terá amor esse ego; nos primeiros degraus, quando ainda não se alcançou a solidão e o domínio de si mais elevado o que há é algo distinto do amor.
LIVRO QUARTO: Ditirâmbico-envolvente. “Annulus aeternitatis” [“O anel da eternidade”]. Desejo de viver tudo uma e outra vez eternamente.
A transformação incessante – tem que passar por muitos indivíduos em um lapso breve de tempo. A maneira é a luta incessante.
Sils-Maria 26 de Agosto de 1881
“apartar-se de todo belo e agradável, como um tirano que despreza o mundo”, disse J. Burckhardt no Palazzo Pitti)
Nesse esboço fica evidente não só o interesse de Nietzsche em articular as principaís questões trabalhadas no caderno de anotações, como também a preocupação do filósofo com a forma de comunicá-las. Em síntese, podemos dizer que essa obra trataria da articulação de temas cruciais que se encontram discutidos nesse caderno: a desumanização da natureza, a vida orgânica como erro, a emancipação do indivíduo dono de si, e, por fim, o eterno retorno133. Logo após esse
131 “Zaratustra, nascido no lago Urmi, ao cumprir os trinta anos abandonou seu lar, foi a província de Aria e escreveu, em dez anos
de solidão, o Zend-Avesta.” (KSA 9 11[195]. A compreensão nietzschiana da figura de Zaratustra é influenciada, em parte, pela leitura de Symbolik und Mytologie der alten Völker de Friedrich Creuzer, presente em sua biblioteca. Outra fonte é Eranische Alterthumskunde de Spiegel, que Nietzsche tomou emprestado da biblioteca da Basiléia em 1878-79. Creuzer apresenta a doutrina do Zorastro como a manifestação de um dualismo encarnado na figura dos deuses Ormuzd e Ahriman, o bem e o mal, que derivam de um princípio comum, Zervan ou o tempo infinito. Em seu curso de 1877 na Basiléia, Nietzsche se utiliza do obra de Creuzer, porém já tinha lido o Zend-Avesta traduzido por Spiegel. No século XIX a pesquisa sobre o Zend-Avesta e seu inspirador estava em voga, nesse sentido é bem provável que Nietzsche, como observa Hollinrake, tenha tido contato também com um dos marcos na história dos primeiros progressos na pesquisa zoroastriana, a obra Vendidad Sade de Hermann Brockhaus (Hollinrake, 1986). Brockhaus era cunhado de Wagner e foi em sua residência em Leipzig que em novembro de 1868, Nietzsche e o músico se conheceram pessoalmente.
132 Esse mesmo título “Meio-dia e eternidade” aparece entre as notas de Julho-Agosto de 1882 com o subtítulo: “Esboço de uma
filosofia heróica” (KSA 10 1[83]) (Mittag und Ewigkeit Entwurf einer heroischen Philosophie).
133Como vimos, já no primeiro esboço do pensamento do eterno retorno, Nietzsche dá sinais de que deseja escrever uma obra capaz
de expressar seu estado. “O que equilibrar: os distintos estados elevados que tenho tido, que sirvam de base aos diferentes capítulos e matérias – como regulador da expressão, exposição, pathos dominante em cada capítulo – e obter assim uma ilustração de meu ideal, como se disséssemos, por adição.” (11[141])
esboço nos deparamos com o fragmento 11[198] onde Nietzsche, discutindo a grande forma na arte, critica justamente a melodia infinita wagneriana e a música dramática. Como afirma o filósofo nesse fragmento, podemos desculpar Wagner por denegrir e negar a grande forma na arte, por não saber por si mesmo nada acerca dela. A melodia infinita é um “ferro de madeira” (ein hölzernes Eisen), “a forma acabada que não é forma”; a expressão da incapacidade wagneriana para a forma é um princípio derivado dessa incapacidade. Tendo Wagner como principal alvo, Nietzsche concebe a música dramática como uma música sem formas, fluente, como um gênero inferior.
Como destaca Hollinrake, entre a aparição desse esboço para uma obra em quatro capítulos, tendo como centro o “anel de eternidade”, e a efetivação desse projeto, transcorreram três anos e meio, um tempo maior do que Nietzsche levou para elaborar suas obras anteriores. Em sua análise do processo de gestação de Zaratustra, o autor de Nietzsche, Wagner and philosophy of pessimism argumenta que esse processo envolve uma discussão acerca da composição da tetralogia do Anel dos Nibelungos e, também, acerca da reação de Nietzsche à última obra wagneriana, o Parsifal. Hollinrake compreende Zaratustra como um manifesto antiwagneriano, sendo que, nesse sentido, uma obra em quatro partes se configuraria justamente como um paralelo inverso à tetralogia do Anel, contendo, porém, em sua quarta parte, uma paródia do Parsifal. Wagner demorou 26 anos, com interrupções, para concluir O Anel dos Nibelungos, sendo que, na época de sua amizade com Nietzsche, encontrava-se em pleno processo de elaboração do ato III de Siegfried. Como mostra Hollinrake, Nietzsche acompanhou pessoalmente essa elaboração e participou de suas discussões, passando a alimentar, assim, uma paixão especial por esse trecho da tetralogia wagneriana. Ao mesmo tempo em que o filósofo se deparava com o pensamento do eterno retorno e seus dilemas, o músico estava trabalhando em sua última peça134. Segundo Hollinrake, Parsifal afetou decisivamente a atitude de Nietzche para com Wagner, além de possuir “sérias implicações para os estudiosos de seu desenvolvimento intelectual, assim como, intrinsecamente, de seu pensamento.” (HOLLINRAKE, 1986, p. 149-50). Segundo o intérprete, é importante recordar que os próprios planos para Assim falava Zaratustra foram traçados sob o impacto do “tumultuoso
134 Nietzsche recebe um exemplar do texto de Parsifal em 3 de Janeiro de 1878 e em 25 de Abril, Wagner e Cosima recebem dois
exemplares de Humano, demasiado, humano, que o filósofo havia terminado em 10 de Janeiro. Nietzsche se refere a esse acontecimento em sua autobiografia Ecce Homo: “Quando finalmente me chegou às mãos o livro acabado – para o profundo espanto de um enfermo grave -, enviei dois exemplares para Bayreuth. Por um milagre de sentido no acaso, chegava-me simultanenamente um belo exemplar do texto do Parsifal, com dedicatória de Wagner a mim, “a meu caro amigo Friedrich Nietzsche, Richard Wagner, conselheiro eclesiástico”. – Esse cruzamento dos dois livros – a mim me pareceu ouvir nele um ruído ominoso. Não soava como se duas espadas se cruzassem?... De qualquer modo nós o sentimos assim: pois ambos silenciamos. – Por esse tempo apareceram as primeiras Folhas de Bayreuth: eu compreendi para o que havia chegado a hora. – Incrível! Wagner havia se tornado devoto...” (EH/EH, “Humano, demasiado, humano”, 5) A partitura de Parsifal é concluída em Palermo em 13 de Janeiro de 1882. Em 23 de Julho, vindo de Tautenburgo, Nietzsche visita Naumburgo e, através de Elizabeth, analisa a partitura vocal de Rubinstein do Parsifal, comparando o estilo de sua música com o de algumas de suas próprias composições mais antigas (Cf. carta a Gast de 25 de Julho de 1882). De 26 de Julho a 29 de Agosto de 1882, realiza-se o segundo Festival de Bayreuth, consistindo em 16 apresentações do Parsifal. No final de Agosto, são publicados os 4 livros de Gaia Ciência. Em 13 de fevereiro de 1883, logo após Nietzsche terminar a cópia da primeira parte de Assim falava Zaratustra, Wagner morre.
êxito da estréia de Parsifal” (idem, p. 150), o que atingiu fortemente os próprios sentimentos de Nietzsche135.
Nietzsche publicou Assim Falava Zaratustra em partes. A primeira parte apareceu em meados de 1883, constando de um prólogo e 22 discursos. No fim do ano, foi publicada a segunda parte e, em 1884, a terceira. Em 1887, Nietzsche publica as três partes juntas num só volume. A obra assumiu a forma como conhecemos hoje somente em 1891, quando Peter Gast publicou a quarta parte. Nas correspondências da época podemos observar aspectos importantes da gestação de Assim Falava Zaratustra. Numa carta a Gast de fevereiro de 1883, Nietzsche se refere a uma obra bem pequena que está escrevendo, com cerca de 100 páginas, que, porém, considera ser o seu melhor livro136. Esse livro é intitulado Assim Falava Zaratustra: um livro para todos e para ninguém, sendo que o material ao qual se refere na carta é o que conhecemos como primeira parte de sua narrativa. Diz Nietzsche ao seu prezado amigo: “Com este livro penetro em um novo círculo; de agora em diante é certo que serei classificado na Alemanha entre os loucos. Trata-se de
uma espécie estranha de “sermões morais””. Segundo Marco Brusotti, não há nenhuma indicação
de que quando Nietzsche publicou o primeiro Zaratustra já tivesse em mente o percurso como um todo, nem de que receberia ao menos uma continuação137. O primeiro Zaratustra foi publicado como um texto independente e fechado em si mesmo. O intérprete destaca ainda que o eterno retorno não é mencionado nessa primeira parte e que a “decisão literária” de comunicar esse pensamento nesse livro somente ocorreu depois do primeiro Zaratustra, sendo que é a partir de então que se torna o cerne da própria obra. Segundo Brusotti, esta tese permite questionar a caracterização nietzschiana do eterno retorno como concepção básica de Zaratustra, conforme apresentada no relato de Ecce Homo, e a ideia de que desde o início o filósofo concebera a figura de seu personagem com a tarefa de comunicar esse pensamento, vinculando-o ao eterno retorno já no esboço “Meio-dia e Eternidade/Indicações para uma nova vida” (KSA 9 11[195-197]). Diante do fato de Nietzsche ter planejado o primeiro Zaratustra como um livro independente, e tendo em vista que o eterno retorno não é mencionado nesse texto, Brusotti argumenta: “Nietzsche parece ter desistido da comunicação do eterno retorno neste escrito e apenas posteriormente retornado ao seu plano original, mas não sem submetê-lo a mudanças radicaís.” (BRUSOTTI, 2012, p. 152- 153). Para o pesquisador, a não comunicação do eterno retorno no primeiro Zaratustra significa
135 Cf. carta a Elizabeth de 30 de Janeiro de 1882 136 Carta a Gast de 1 de Fevereiro de 1883. 137 Cf. BRUSOTTI, 2012.
que Nietzsche, conforme ele mesmo reconhece138, fracassou na tentativa de afirmar esse pensamento e que este somente se tornará suportável a ele mediante a criação.
Se a visão do eterno retorno surge como um agravante, então é necessária a perspectiva da máxima potência criadora, a perspectiva do ideal do Além-Homem. É somente através da “visão do Além-do-homem que afirma a vida” que Nietzsche pode ao menos “suportar” a visão do eterno retorno. (BRUSOTTI, 2012, p. 153)
Conforme vimos, a ideia de que afirmar a repetição da vida somente é possível mediante a criação já está indicada no fragmento 11 [165] do caderno de anotações, no qual o filósofo defende que a doutrina do eterno retorno deve ser apresentada ao final do desdobrar temporal da vida. O que é novo, porém, é a substituição de uma atitude que incita a conformação da vida como obra de arte pela ideia do Além do Homem, que para Brussoti modifica e substitui, por ora, a afirmação imanente da vida em todas as suas partes, assim como a intenção de intensificar maximamente o instante presente, por um estágio intermediário em que o eterno retorno passa a ser suportado graças a essa perspectiva “quase transcendente” (idem, p.154). De uma doutrina que deve ser afirmada, o eterno retorno se transforma numa doutrina que somente pode ser suportada através da criação do Além do homem, isto é, que somente pode ser afirmada se protelada, remetida a um futuro. Segundo o intérprete, uma das consequências da crise de Nietzsche no período de elaboração do primeiro Zaratustra é que ele separa, temporariamente, o que antes fora pensado conjuntamente, seu personagem e o eterno retorno; o filósofo deliberadamente oculta essa relação originária. Além disso, o Além do Homem é apresentado sem receber nenhum contorno definido, seu personagem inicialmente somente convoca a ver nele o “sentido da terra” e não aquele que torna suportável o retorno.
Em uma carta ao seu editor Schmeitzner de fevereiro de 1883, onde informa sobre a composição de Zaratustra, um pequeno volume de aproximadamente cem páginas, indagando-o se deve lhe enviar o texto, Nietzsche diz: “Se trata de uma “composição poética”, ou de um quinto “evangelho”, ou talvez seja algo para o qual não existe ainda uma definição: é minha obra comparativamente mais séria e também mais alegre, e acessível a qualquer um”139. Em outra carta
a Gast de abril de 1883, na qual Nietzsche reconhece sua ignorância com relação à música, questiona acerca da categoria na qual Zaratustra poderia se enquadrar: “Em que categoria entraria realmente este Zaratustra? Quase diria que pertence às “sinfonias”. O certo é que com este trabalho entrei em outro mundo – o “espírito livre” está satisfeito. Ou não? ”140. O amigo, no
138 “Eu não quero a vida uma vez mais. Como eu a tenho suportado? Criando. O que me faz tolerar seu semblante? A visão do além-
homem que afirma a vida. Tentei eu mesmo afirmá-la – ah!” (KSA 10 4[81]
139 Carta a Schmeitzner de 13 de Fevereiro de 1883 140 Carta a Gast de 13 de Abril de 1883
entanto, responde: “Em que categoria entra seu livro? Acredito que no das Sagradas Escrituras”141.
Como podemos observar nas correspondências da época de elaboração de Zaratustra, Nietzsche tinha dificuldade em categorizar essa sua obra dentro de um determinado estilo.
Em julho de 1883, Nietzsche anuncia a Gast que Zaratustra terá uma segunda e terceira parte, anuncia também que o lema da segunda parte se encontra no trecho final da primeira parte: “- e somente quando todos vós me tiverdes renegado eu retornarei a vós. E em verdade, com outros olhos, irmãos, buscarei eu então os que perdi; com outro amor eu então vos amarei” (Za/ZA, “Da virtude dadivosa”)142. Continuando, ao falar sobre esse lema, o filósofo diz que “dele derivam
harmonias e modulações distintas daquelas da primeira parte, mas falar nesses termos a um músico é quase indecoroso”. Nietzsche também afirma que Zaratustra terá uma terceira parte que receberá o título “Meio-dia e eternidade”. Em outra carta enviada ao amigo, na época em que elaborava a terceira parte, Nietzsche declara: “Acabo de encontrar o primeiro esboço dos pensamentos que tenho articulado no livro; abaixo está escrito: “Começo de agosto de 1881, em Sils-Maria, a seis mil pés de altura sobre o mar, muito mais alto sobre todas as coisas humanas””143. Nietzsche se refere aqui ao esboço que recebe o título de “Eterno Retorno do Igual”
no caderno de anotações M III 1. Segundo Marco Brusotti, devemos levar em consideração que ao longo desse percurso, das anotações de 1881 até Assim Falava Zaratustra, o pensamento do eterno retorno se altera. Doutrinas como a do Além do Homem e Vontade de Poder que aparecem no interior da narrativa dramática de Zaratustra, e com as quais o eterno retorno estabelecerá um nexo, não existem no momento em que este pensamento emerge. Além disso, o intérprete argumenta que, se num momento inicial a doutrina do eterno retorno deve ser entendida contra o pano de fundo da filosofia nietzschiana anterior, posteriormente, quando o filósófo renuncia à paixão do conhecimento enquanto forma de vida, outrora associada a esse pensamento, essa doutrina também sofre modificações.
Depois de concluir a terceira parte, o filósofo anuncia, nos primeiros meses de 1884, que Zaratustra está completamente terminado. Para seu editor Schmeitzner, Nietzsche diz: “Esta terceira parte do meu drama (melhor seria defini-lo como o finale de minha sinfonia) tem uma extensão igual (segundo um cálculo bastante preciso) à segunda, isto é, mais ou menos cem páginas, talvez menos que mais.”144. Ao fim de janeiro e começo de fevereiro, comunica também a
conclusão de sua estimada obra a Overbeck145, à sua mãe146, a Gast147 e a Rohde148. Em uma carta
141 Gast responde a Nietzsche em carta datada de 6 de Abril de 1883 142 Carta a Gast de 13 de Julho de 1883
143 Carta a Gast de 3 de Setembro de 1883 144 Carta a Schmeitzner de 18 de Janeiro de 1884 145 Carta a Overbeck de 25 de Janeiro de 1884
146 Carta a Franziska Nietzsche de Janeiro-Feverereiro de 1884 147 Carta a Gast de 1 de Fevereiro de 1884
do início de fevereiro endereçada a Overbeck, Nietzsche declara que quando “no finale entender o que se propõe realmente expressar a sinfonia em seu conjunto (com muita arte e passo a passo, tal como se constrói, por exemplo, uma torre), - também tú, meu velho e fiel amigo, sentirás envolvido por um espanto e um horror sem remédio.”149. Em uma carta a Gast de março de 1884,
Nietzsche questiona o amigo se o final de sua sinfonia o satisfez, dizendo que esse finale volta a se enlaçar com o início da primeira parte. Diz o filósofo que é “um circulus, pois, e esperemos que não um circulus vitiosus”150
.
Se nesse contexto Nietzsche considera a obra terminada, mais tarde, em novembro de 1884, anuncia à sua irmã que Zaratustra terá uma quarta parte151. Segundo o filósofo, é necessário dar a seu filho uma “bonita morte”, pois, caso contrário, seu estimado personagem não lhe daria paz. A partir de então, Nietzsche demonstra que objetiva apresentar um novo ciclo de Zaratustra, que se iniciaria com a quarta parte e ganharia continuidade numa futura V e VI partes, o que não veio a ocorrer. O primeiro a quem anuncia a conclusão da quarta parte é Carl von Gersdorff, com quem não se comunicava a anos, pedindo-lhe uma quantia de dinheiro para financiar a edição de 20 exemplares. Diz Nietzsche:
Há uma quarta (última) parte de Zaratustra, uma espécie de sublime finale que não está de nenhuma maneira destinada ao público (a palavra “público” me soa, referida a todo meu Zaratustra, mais ou menos como “casa de putas” e “mulher pública” – Perdão!). Mas esta parte deve e tem que ser impressa agora: 20 exemplares, para serem distribuídos a mim e a meus amigos, e com o maior grau de discrição152.
Nietzsche também anuncia a existência da quarta parte a seu reverenciado amigo Peter Gast, mencionando, inclusive, seu título, “Meio-dia e eternidade”, e o nome de sua primeira parte, “A tentação de Zaratustra”. Diz o filósofo: “Entre nós: há algo novo, como “fruto” desse inverno, mas não tenho editor, e sobretudo não tenho nenhum desejo de ver novas coisas impressas”. Na continuidade da carta, Nietzsche afirma que talvez a quarta parte seja “impossível de imprimir: uma “blasfêmia contra Deus”, composta com o humor de um palhaço.”. No entanto, o filósofo complementa dizendo que aqueles que lhe forem bons, que lhe lisonjearem com “música köselitziana”, poderão ler este texto muito privado153. Depois de algumas tentativas frustradas de
encontrar um editor, Nietzsche decide publicar a quarta parte por sua própria conta. A impressão é feita no início de maio de 1885 e é paga com os dividendos oriundos do processo movido contra seu antigo editor Schmeitzner154. Em uma carta enviada a Overbeck, neste contexto, Nietzsche
148 Carta a Erwin Rodhe de 22 de Fevereiro de 1884 149 Carta a Overbeck de 6 de Fevereiro de 1884 150 Carta a Gast de 30 de Março de 1884 151 Carta à Elizabeth de 15 de Novembro de 1884 152 Carta a Gersdorff de 29 de Janeiro de 1885 153 Carta a Gast de 14 de Fevereiro de 1885 154 Cf. carta a Overbeck de 7 de Maio de 1885
afirma que a quarta parte foi pensada como um “finale”, mas acrescenta: “O título que lhe escrevi ao princípio era uma “condescendência” com os editores, que não querem em absoluto editar uma “quarta parte” se não tem as três anteriores”155. O título a que faz referência na carta é o mesmo
que comunicara a Gast anteriormente156. Em julho de 1885, numa carta a Paul Heinrich Widemann, onde lhe comunica o envio da quarta parte, afirma que esta representa o final de sua sinfonia, um final ousado para manter oculto157.
Como se sabe, a quarta parte de Zaratustra envolve uma série de debates entre os comentadores da obra acerca de sua relação com as outras três partes, tendo em vista que contém, entre outros, aspectos estilísticos claramente destoantes. Neste debate é necessário levar em consideração também, como podemos observar através da correspondência de Nietzsche nesse período, o conflito com seu editor Schmeitzner que o obrigou a procurar novos editores para a continuidade de Assim Falava Zaratustra. Além de vivenciar um quadro de falência, Schmeitzner