As limitações na abordagem e aplicação dos conteúdos de ergonomia, bem como as condições de trabalho na situação de foco (quanto aos contrantes, custos humanos e pressão temporal e por produtividade) mostraram-se significativas em aspectos importantes:
• Havia a disciplina de ergonomia, entretanto seus conteúdos priorizavam abordagens sobre os aspectos físicos do posto de trabalho (interface aluno-gabinete), e de biossegurança; a abordagem sobre ritmo de trabalho, sobrecarga de trabalho, dimensionamento de produtividade e seus impactos sobre a atividade dos alunos carecia de melhor reformulação de conteúdos.
• As condições inadequadas de muitos equipamentos dos gabinetes odontológicos da clínica-escola do estágio supervisionado não favoreciam a aplicação dos princípios de ergonomia padronizados pela ISO/FDI e aprendidos na disciplina de ergonomia, dificultando a prática, pelos alunos, dos conceitos teóricos assimilados.
• A produtividade a ser atingida pela dupla de alunos na situação de foco era elaborada por cada professor de cada disciplina e, nem sempre, havia a discussão entre professores se esta produtividade poderia ser realmente alcançada pelos alunos considerando a quantidade somada de todas estas tarefas e as muitas condições adversas existentes para o cumprimento destas tarefas.
• Ao se observar os alunos em atividade (observação direta, filmagens e fotos) e ao analisar seus depoimentos colhidos nas ações conversacionais, a percepção do clima organizacional era de que, ao realizarem a tarefa, os alunos o faziam expressando muito cansaço e ansiedade; a sensação de pressão de tempo e de cobrança pelos professores relatada pelos alunos ocorria com maior intensidade que a observada entre os alunos da situação de referência externa. Na situação de foco a rigidez hierárquica pareceu mais presente e parecia haver menor flexibilidade quanto aos canais de comunicação entre alunos e professores, ao se comparar com as relações mais simétricas presentes na situação de referência externa. Os professores consideravam que a atitude de colaboração, entre os alunos de se emprestar instrumental esterilizado
sobressalente aos colegas, por exemplo, feria às normas de produção (o que estava previsto em manual e deveria ser obedecido).
Considerando o modelo sociotécnico de situação de trabalho apresentado por Vidal et al. (2002), os fatores externos, relativos à organização do trabalho (objetivos a alcançar, exigências da tarefa e condições de execução) e relativos às tecnologias (meios de trabalho) aos quais os alunos estão submetidos em sua atividade de trabalho nos estágios supervisionados das clínicas-escola da situação de referência externa e situação de foco, atuam com impactos diferentes nas duas universidades pesquisadas. Na situação de foco a maior intensidade com que os fatores externos atuam de modo desfavorável à atividade de produção dos alunos é clara. Em relação à organização do trabalho, o ritmo de trabalho, a meta de produtividade exigida e estabelecida, e as inadequadas condições ambientais e infra- estruturais da clínica-escola limitam e condicionam a atividade e o desempenho de trabalho dos alunos, gerando riscos potencialmente maiores e de diversa natureza à sua saúde ocupacional. Em se tratando dos fatores externos relativos às tecnologias, na situação de foco, o fato de haver a disciplina de ergonomia, mesmo com alguns conteúdos essenciais sendo parcialmente abordados, parece conferir um contraponto positivo às limitações de muitos dos demais meios e tecnologias existentes.
A aplicação dos conhecimentos sobre os princípios de ergonomia aprendidos na disciplina de ergonomia a ser adotados pelos alunos na clínica-escola esbarra, entretanto, nas muitas e adversas condições críticas de trabalho (ambientais, de equipamentos, organizacionais); o que termina por imprimir variabilidades e regulações de maior impacto na atividade destes alunos, em maior quantidade e intensidade que àquelas percebidas na situação de referência externa. Os riscos potencialmente maiores à saúde ocupacional dos alunos da clínica-escola da situação de foco em relação aos alunos da situação de referência externa podem ser confirmados quando se observam os resultados encontrados ao se analisar os diagramas de Corlett de percepção de dor e desconforto relatada pelos alunos. A presença de maiores índices de dor e desconforto em determinados segmentos corporais, com intensidades bastante e intolerável entre os alunos da situação de foco, quando comparados ao não relato de dor de intensidade intolerável e à menor distribuição de dor e desconforto de bastante intensidade entre os alunos da situação de referência externa, confirmam o impacto
negativo à saúde dos estudantes de uma atividade realizada em condições críticas de carga de trabalho.
A sobrecarga de trabalho resulta das exigências sobre o indivíduo no decorrer de sua atividade de trabalho que pesam sobre o desempenho. Uma atividade normal, com tarefa bem dimensionada e coerente com as capacidades e limitações da pessoa não implica em sobrecarga de trabalho. Quando, entretanto, as demandas do sistema estão acima da capacidade de desempenho possível da pessoa ocorre a situação de sobrecarga e se torna necessária a atuação da ergonomia (VIDAL, 2003).
CAPACIDADE DE DESEMPENHO POSSÍVEL
Situação normal sem sobrecarga de trabalho
DEMANDAS DO SISTEMA
Ocorrência de situação de sobrecarga
Atuação da Ergonomia
Figura 21 - A sobrecarga de trabalho numa perspectiva dinâmica Fonte: (VIDAL, 2003)
A princípio, a sobrecarga de trabalho existente entre alunos da situação de foco apresentou-se maior que a encontrada entre alunos da situação de referência externa. Na situação de foco notou-se maior custo humano ao se perceber que as demandas do sistema estiveram acima da capacidade de desempenho possível entre a maioria dos alunos; isto é claro, particularmente, quando se refere à meta de produtividade em uma das disciplinas do estágio, onde apenas uma dupla de alunos conseguiu atingir a meta estabelecida. Comprova- se neste sentido, a necessidade de atuação e intervenção ergonômica na situação de foco onde se mostrou evidente a ocorrência de situação de sobrecarga de trabalho.
CAPÍTULO V
5 RESULTADOS E PROPOSIÇÕES
Voltando o olhar para algumas questões de pesquisa desta dissertação, que indaga os porquês de não se evidenciar a práxis dos princípios de ergonomia em clínicas-escola e consultórios odontológicos, apesar de haver conhecimentos de prevenção e gerenciamento de riscos biomecânicos a serem seguidos pelos profissionais de saúde em odontologia, a análise ergonômica do trabalho realizada entre os estudantes da clínica integrada evidenciou fatores intervenientes encontrados nas situações de trabalho da clínica-escola que geram impacto direto no processo produtivo de bens e serviços de saúde em odontologia, no qual o centro desse processo se constitui a atividade do odontólogo, e desse modo, nas limitações que envolvem esta atividade, que foram chamados determinantes dos riscos à saúde ocupacional (com foco nos determinantes cognitivos, organizacionais e físicos).
A Análise Ergonômica do Trabalho (AET) indicou que alunos, professores e equipe auxiliar estão submetidos a condições desfavoráveis de trabalho nas Clínicas-Escola de Odontologia nas universidades pesquisadas, onde dor e desconforto estão presentes.
Os resultados obtidos confirmam as problematizações apresentadas:
• Os postos de trabalho nas Clínicas Escola de Odontologia pesquisadas apresentam contrantes posturais aos estudantes de odontologia, tendo a situação de foco apresentado maiores sobrecargas de trabalho e maiores custos humanos em relação à situação de referência externa.
• Os determinantes das posturas corporais sofridas pelos estudantes de odontologia durante sua prática de estágio supervisionado na clínica integrada de odontologia (clínica-escola) podem ser apontados utilizando-se a metodologia de Análise Ergonômica do Trabalho (AET).
Quanto ao objeto de discussão sobre o fato de posturas corporais inadequadas na clínica-escola odontológica influenciarem os alunos que tenderiam a reproduzir estas posturas não-neutras em seus futuros ambientes profissionais, esta questão precisaria - para ser confirmada - de um estudo longitudinal, acompanhando por um período significativo, a atividade laboral desses profissionais em seu mundo do trabalho, após ter deixado os bancos escolares. Muito embora o cenário atual do mundo do trabalho do odontólogo, com sua crescente prevalência de doenças ocupacionais, continue a sugerir esta proposição.