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Vários estudiosos e pesquisas apontam um aumento da frequência, bem como um incremento na intensidade dos desastres naturais ocorridos nos últimos anos (FIGURA 15). As discussões científicas que permeiam os estudos relacionados às variações e/ou mudanças climáticas, sejam estas relacionadas ou não à interferência humana, ganharam um cenário de destaque nas últimas décadas, devido aos inúmeros impactos que podem ocasionar nas sociedades.

Figura 15 - Registro de desastres naturais por ano e acumulado por tipo de desastre

Fonte: GOERL; KOBIYAMA, 2013.

Muitos podem ser facilmente lembrados pelos danos causados, como: o desastre ocasionado pelo tsunami de 26 de dezembro de 2004, atingindo as nações da Indonésia, Sri Lanka e o sul da Índia, banhadas pelo Oceano Índico (MARCELINO, NUNES E KOBIYAMA, 2006); os desastres naturais ocorridos na China em 2008 que ocasionaram mais de 88.000 mortes, desaparecimentos e desabrigo de mais de 400 milhões de pessoas; em 2010 quando o Haiti teve a sua capital (Porto Príncipe) devastada por um terremoto de magnitude sete na Escala Richter, com mais de 200.000 mortes e inúmeros desabrigados (COBERTURA ..., 2010).

Os prejuízos humanos e financeiros são elevados (FIGURA 16). Em 11 de março de 2011, um terremoto de magnitude 8,9 na Escala Richter atingiu o Japão, provocando a morte de pelo menos 11 mil habitantes, além de um prejuízo econômico estimado em 334 bilhões de dólares (JAPÃO ..., 2011). No período entre 1993 e 1995, as enchentes do rio Reno provocaram um prejuízo de 2 bilhões de dólares para a Alemanha. Na Áustria, estima-se que o prejuízo foi de 3 bilhões de dólares, enquanto que na República Tcheca foi de 2 bilhões de dólares. Na China, um dos países mais afetados por enchentes, os prejuízos são vultosos. Somente entre os anos de 1991 e 1996, o país teve perdas estimadas em 40 bilhões de dólares para a economia, além de 7.328 mortes e inúmeros desabrigados (GUERRA, 2011).

Figura 16 - Prejuízos econômicos anuais e acumulados por tipo de desastre

Fonte: GOERL; KOBIYAMA, 2013.

Porém, vale destacar que os desastres naturais já ocorriam em tempos pretéritos, mesmo em períodos pré-históricos. Grandes secas, frio extremo, erupções vulcânicas, tsunamis e outros desastres já ocorriam em séculos anteriores. Porém, muitos dos danos provocados por estes eventos não foram registrados e catalogados.

Acredita-se, inclusive, que civilizações sucumbiram devido a um desastre de grandes proporções, como a Civilização Maia, que se desenvolveu na Península de Yucatán, atualmente território dos países de Honduras, Guatemala e México, que após um período de apogeu entre os séculos IV e X, foi extinta, segundo alguns estudiosos, devido a um longo período de seca e de esgotamento dos solos (CONTI, 2011).

No entanto, foi nas últimas décadas que os estudos referentes a desastres naturais ganharam forte repercussão, devido aos fortes impactos ocasionados por fenômenos cada vez mais extremos. Com um olhar mais acurado, fica perceptível que o incremento de registros de desastres naturais em todo o globo nas últimas décadas pode estar ligado a dois fatores: um aumento da vulnerabilidade da população e um maior registro e catalogação de eventos (antigamente não existiam mecanismos que atuavam no registro e identificação de desastres naturais).

Não se pode desconsiderar também o fato de que foi verificado um grande aumento da população mundial nas últimas décadas, ultrapassando a faixa de 7 bilhões de habitantes em 2011 (UNFPA, 2011) e, boa parte desta população passou a habitar, cada vez mais, áreas instáveis do ponto de vista físico-natural ou desprovidas de infraestrutura.

Para ratificar tal afirmativa, o relatório do United Nations Development Programme – UNDP (2004) destaca que 75% da população mundial habitam áreas que já foram afetadas ao menos uma vez por ciclones, secas, inundações ou terremotos no período entre 1980 e 2000 (BRAGA et. al, 2006).

O impacto se agrava ainda mais quando esta população apresenta uma vulnerabilidade do ponto de vista social, sofrendo um ônus desproporcional quando da ocorrência de um evento natural extremo.

Outros estudiosos, ainda que em menor número, acreditam que o principal propulsor dos grandes desastres naturais das últimas décadas são as mudanças globais, principalmente por meio de instabilidades atmosféricas que contribuem para um aumento na frequência e intensidade de tornados, furacões, vendavais etc.

Os desastres naturais se diferem quanto à origem, podendo ser de origem meteorológica (chuvas extremas que causam inundações e deslizamento, secas, temperaturas extremas e desastres produzidos por ventos, como ciclones, tornados, vendavais, etc.) ou de origem geológica (terremotos e vulcanismo) (CONTI, 2011).

No Brasil não costumam ocorrer fenômenos naturais como terremotos e vulcanismo ou, pelo menos, não existe uma tendência natural para que tais fenômenos ocorram. Porém, isso não quer dizer que o Brasil seja pouco afetado por desastres naturais. Os desastres naturais que mais ocorrem no Brasil são de natureza meteorológica. Os mais comuns são as enchentes, a seca (ou estiagem), os deslizamentos de terra e a erosão, que causam inúmeras perdas humanas e materiais no país todos os anos (MAFFRA; MAZZOLA, 2007).

“Segundo a base de dados internacional sobre desastres da Universidade Católica de

Louvain, Bélgica, entre 2000 e 2007 mais de 1,5 milhões de pessoas foram afetadas por algum tipo de desastre natural no Brasil. Os dados também mostram que, para este mesmo período, ocorreram no país cerca de 36 grandes episódios de enchentes, secas, deslizamentos de terra e o prejuízo econômico gerado por esses eventos é

estimado em mais de US$ 2,5 bilhões” (MAFFRA; MAZZOLA, 2007, p.10).

Estes fenômenos naturais severos que ocorrem no Brasil são fortemente influenciados por características regionais como o solo, rocha, relevo, vegetação, condições meteorológicas etc. No entanto, vale lembrar que estes fenômenos naturais só são caracterizados como desastre natural quando atingem uma determinada área povoada, provocando danos materiais e humanos.

Observando esta conjuntura dos desastres naturais no Brasil, fica evidente que a ação do homem acaba interferindo e potencializando os impactos provenientes de ameaças naturais, uma vez que este se apropria de determinados espaços e os modifica a ponto de torná-los mais vulneráveis aos impactos de um evento extremo, contribuindo para um incremento dos desastres naturais no país.

Alguns desastres mais recentes no Brasil tiveram grande repercussão devido aos impactos ocasionados, como os deslizamentos de terra em Santa Catarina no segundo semestre de 2008, o qual provocou mortes e desabrigo de vários habitantes; as fortes inundações no Estado do Ceará no ano de 2009, causando fortes impactos e deixando inúmeros municípios em situação de emergência (MONTEIRO, 2011); inundações em Alagoas e Pernambuco em junho de 2010; as chuvas e os deslizamentos de terra que afetaram quatro cidades da região serrana do Rio de Janeiro (Petrópolis, Sumidouro, Nova Friburgo, Teresópolis e Bom Jardim) e mataram mais de 900 pessoas (FREITAS; XIMENES, 2012); Em 2012, as chuvas de verão no estado de Minas Gerais deixaram 12 mortos e 99 cidades em estado de emergência (JB, 2012).

Fica perceptível que os desastres naturais que mais ocorrem no Brasil estão atrelados à chuva, seja pela ocorrência ou não desta, ocasionando inundações, deslizamentos ou estiagens.

Geralmente as chuvas tornam-se potencialmente desastrosas quando ocorrem precipitações em grande quantidade e em um curto período de tempo, conhecidas como chuvas torrenciais ou eventos extremos. Em contrapartida, existem áreas no território brasileiro que são bastante afetadas pela ausência de chuva em determinados períodos, principalmente nas áreas delimitadas pelo clima tropical semiárido, o qual abrange grande

parte do Nordeste brasileiro, na área de depressão sertaneja, avançando sobre o norte de Minas Gerais. Nestas áreas, a pluviosidade é baixa, em torno de 500 mm anuais. A chuva, além de escassa é irregular e a estação seca pode durar até 11 meses. As temperaturas são elevadas, geralmente superiores à 25°C. Além disso, outros fatores regionais também podem influenciar neste tipo climático, como o subafloramento de rochas impermeáveis (dificulta a infiltração da água no solo e aumenta a evaporação), a disposição do relevo (que barra os ventos úmidos vindos do oceano), dentre outros (TORRES; MACHADO, 2011).

Já nas áreas de clima tropical chuvoso, com precipitações médias entre 1.500 mm e 2.000 mm anuais ou pouco mais (TORRES; MACHADO, 2011), e que localizam-se na fachada oriental dos continentes, verifica-se constantemente a ocorrência de eventos extremos de chuva.

No Brasil, a área de influência deste tipo climático abrange grande parte da costa brasileira. Como as principais concentrações urbanas estão localizadas no litoral ou próximo deste, é justamente nessas áreas onde é registrada a grande maioria dos desastres naturais associados a eventos de chuvas extremas. Afinal, como já foi dito, as áreas densamente ocupadas e urbanizadas acabam se tornando o palco ideal para a ocorrência de inundações urbanas e deslizamento de encostas.

As inundações, que também podem ser denominadas popularmente como enchentes, são compreendidas como o aumento do nível dos rios além da sua vazão normal, ocorrendo o transbordamento de suas águas sobre as áreas próximas aos rios (KOBIYAMA ET. AL, 2006).

A Defesa Civil também apresenta conceito similar e propõe classificações das inundações em função da magnitude (excepcionais, de grande magnitude, normais/regulares, pequena magnitude) e em função da evolução (enchentes ou inundações graduais, enxurradas ou inundações bruscas, alagamentos, inundações litorâneas) (CASTRO, 2009). Geralmente, são as inundações bruscas que ocasionam desastres naturais de grandes proporções, provocando, em alguns casos, decretos de Situação de Emergência e necessitando de apoio externo. Porém, em alguns casos as inundações graduais estão sendo registradas como bruscas e vice-versa, devido a dificuldade de identificação do fenômeno em campo e à ambiguidade das definições existentes (KOBIYAMA et. al., 2006).

Kobiyama et. al. (2006) e Sausen et. al. (2013) questionam a utilização dos termos enchente e inundação como sinônimos. A inundação só ocorre quando há o transbordamento das águas do rio sobre as áreas próximas a ele. Quando o rio fica bastante cheio, porém sem

ocorrer o transbordamento das águas, tem-se a enchente. Já os alagamentos ocorrem em determinados pontos da cidade devido a problemas de drenagem urbana, geralmente deficiente (FIGURA 17).

Figura 17 - Desenho esquemático que representa a diferença entre inundação, enchente e alagamento

Fonte: http://www.defesacivil.to.gov.br

Nas últimas décadas, diversas cidades brasileiras vêm sendo acometidas por eventos de chuvas extremas que causam inundações, principalmente nos grandes centros urbanos brasileiros, onde coexistem diversos problemas que potencializam tais fenômenos como a impermeabilização do solo, a drenagem urbana ineficiente, a forte pressão sobre o solo (devido ao adensamento urbano) e a vulnerabilidade de muitas comunidades.

Quando estes eventos de chuva extrema ocorrem em áreas de encosta íngremes, também provocam deslizamentos de terra. Quando os deslizamentos afetam taludes artificiais produzidos pelo homem em encostas densamente ocupadas, podem provocar perdas humanas e materiais de elevadas proporções. Tais fenômenos são muito comuns no Brasil, principalmente nas áreas serranas das regiões Sudeste e Sul.

Os registros de inundações e deslizamentos no Brasil e os efeitos associados a estes surpreendem. Alguns se destacam devido à magnitude do evento e os danos materiais e humanos ocasionados.

No dia 18 de maio de 1989 em Salvador-BA, uma chuva de 83,5 mm, num período de 24 horas, provocou inundações e desabamentos, deixando 67 mortos, além de inúmeros feridos e desabrigados (CONTI, 2011).

Entre dezembro de 1995 e abril de 1996, chuvas de verão atingiram várias cidades brasileiras, entre elas São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Florianópolis, Curitiba,

Salvador e Recife, causando enchentes de grandes proporções e vitimando vários habitantes, além de perdas econômicas e materiais onerosas (GUERRA, 2011).

Em novembro de 2008, fortes chuvas atingiram o Estado de Santa Catarina e que acabaram por deflagrar deslizamentos de encostas e inundações de elevadas proporções (FIGURA 18). A Defesa Civil registrou 12.027 desalojados e desabrigados, 135 óbitos e dois desaparecidos (GUERRA, 2011).

Figura 18 - Presidente do Brasil na época (Lula) sobrevoando as áreas alagadas de Santa Catarina em novembro de 2008

Fonte: g1.globo.com

Na cidade do Rio de Janeiro, em abril de 2010, um grande acumulado de chuva ocasionou 223 mortes e deixou 40 mil pessoas desabrigadas. Em Niterói (RJ), na noite de 7 de abril do mesmo ano, um evento extremo de chuva foi registrado e nesse mesmo dia a Defesa Civil divulgou o incrível número de 168 mortes relacionadas aos impactos do evento, além de centenas de desabrigados (CONTI, 2011).

Entre os dias 10 e 14 de Janeiro de 2011, a região serrana que abrange os municípios de Petrópolis, Nova Friburgo e Teresópolis também foram castigadas por fortes chuvas que desabrigaram cerca de 12.000 habitantes, além de provocar mortes estimadas em quase 1.000 habitantes, figurando como um dos maiores desastres naturais do país (FIGURA 19). Certamente, o relevo da região, juntamente com a densa urbanização, contribuíram consideravelmente para agravar os efeitos provenientes do elevado acumulado de chuva verificado neste intervalo de tempo (CONTI, 2011).

Figura 19 - Bombeiros, Defesa Civil e populares trabalhando de forma conjunta no resgate de habitantes na região serrana de Teresópolis, em janeiro de 2011

Fonte: g1.globo.com.

Através destes exemplos, fica perceptível que os Estados localizados na porção sudeste e meridional do Brasil, geralmente são os mais afetados por inundações de grandes proporções e, certamente, são nas áreas mais urbanizadas onde estes desastres naturais ocorrem com maior frequência.