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O geólogo e engenheiro de minas formado pela Academia de Minas do Império Áustro-Húngaro, em Schemnitz (atual Eslováquia), Virgil von Helmreichen, chegou ao Brasil em 1836 para trabalhar na Mina do Morro das Almas, localizada cerca de 5km a sudoeste do Pico de Itabirito, pertencente a companhia inglesa The Brasilian Company Ltda10. Trabalhou ainda nas minas vizinhas Cata Branca e Aredes desta mesma companhia. Prestou serviços também para a

Imperial Brazilian Mining Association nas minas de Gongo Soco, Antônio Pereira e Cata Preta e

em outras como a Morro Velho da St. John D’el Rey Mining Company. O trabalho em Gongo Soco está registrado num relatório, de dezembro 1840, preparado para a gerência local da mina e para os superiores da Imperial Brazilian Mining Association em Londres, no qual seu nome encabeça a lista de autores.

Os rendimentos financeiros de seu trabalho nas companhias de mineração, de estudo das mineralizações auríferas e viabilidade econômica de exploração, possibilitaram a realização de suas ambições científicas. Helmreichen fez viagens de pesquisas geológicas principalmente para estudo das regiões diamantíferas e auríferas do Brasil. Tinha planos de fazer uma grande seção geológica transcontinental Rio-Lima tendo iniciado a viagem de pesquisa em maio de 1846. Era para ser a primeira expedição a atravessar a América do sul no sentido E-W, mas além de ter sido antecedido por Castelnau não conseguiu realizá-la integralmente devido a um grave problema de saúde que o manteve em Assunção, no Paraguai, por dois anos. Desta viagem foi publicada uma “Crônica de uma viagem do Rio de Janeiro a Cuiabá” num periódico da Alemanha, em 1848.

Os estudos realizados sobre a geologia e a ocorrência de diamantes nas jazidas de Grão Mogol deram origem ao seu grande trabalho científico, “Sobre a ocorrência geognóstica dos diamantes e seus métodos de lavra na Serra de Grão Mogol na Província de Minas Gerais”, publicado em Viena em 1846. Apesar de não tratar a área de interesse específica dessa nossa pesquisa, merece registro nesse trabalho a descrição e representação gráfica de estratificação cruzada no itacolomito, por seu caráter “muito provavelmente” inédito conforme aponta Renger (in Helmreichen, 2002:71). Helmreichen relata como “um fenômeno bastante interessante”, o que evidencia ser novidade a observação deste tipo de ocorrência: várias camadas de itacolomito se encontrando em ângulos agudos. Na prancha onde estão retratadas as estratificações cruzadas

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“Os ingleses, logo após a independência do Brasil, perceberam as chances de fundar sociedades anônimas no país. Depois de levantar capital por meio de ações em Londres, adquiriram lavras promissoras, sobretudo em Minas Gerais”. Foram adquiridas por companhias inglesas as minas de Gongo Soco, Cata Preta, Antônio Pereira, Morro Velho, Cata Branca e ainda minas em Cocais, Brucutu e Cuiabá (Renger in: Helmreichen, 2002).

também se encontram registradas, pela primeira vez, as direções dos mergulhos das camadas com a simbologia que permanece até os dias atuais (Figura 4.16).

Sobre o resultado de suas pesquisas na região aurífera de Minas Gerais, hoje Quadrilátero, foi publicado um relatório de viagem, em Viena, no ano de 184711. Este relato foi organizado por seu amigo Hocheder, secretário da Imperial e Real Diretoria Central das Minas da Áustria, a partir de extratos das correspondências a ele enviadas por Helmreichen. Não há no texto considerações sobre a gênese ou idade das formações, o Relatório de Viagens em Minas Gerais se restringe, basicamente, a indicação dos locais visitados com descrição das formações rochosas. Entretanto, existem três perfis geológicos manuscritos no Museu da Academia de Ciências de Viena que cortam a Província de Minas Gerais passando por regiões auríferas e diamantíferas, a saber: Seção Geológica desde a aldeia dos botocudos de Jataí, no vale do Rio Jequitinhonha, até o Comércio do Rio Santo Antônio, no Sertão do Rio São Francisco passando pela Serra do Grão Mogol; Seção Geológica desde a barra do Rio Araçuaí, no Jequitinhonha até Lagoa Santa, passando por Diamantina e a Seção geológica desde o Rio de Janeiro até o Comércio do Rio Santo Antônio, no Sertão do São Francisco, com cerca de 100 léguas de comprimento, aproximadamente 600 km, que corta o Quadrilátero fazendo uma grande curva na

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Publicado nos Beriche über die Mithhheilungen von Freunden der Naturwissenchaften in Wien (ed. W. Haidinger), n. 10, p-137-151, fev. 1847.

Figura 4.16 - Detalhe em planta das estratificações cruzadas do Itacolomito

(Helmreichen, 1846, ed. 2002) Pode se observar também a simbologia indicando a direção do mergulho das camadas.

região de Caeté e Sabará para depois seguir para Itabira. A Figura 4.17 apresenta os trajetos de Helmreichen com destaque para o trecho percorrido no Quadrilátero.

A representação do Quadrilátero no perfil geológico de Helmreichen inicia, de sul para norte, com os granitos do Arraial do Redondo (Alto Maranhão) e Congonhas, seguindo para o xisto argiloso talcífero intercalado com formações ferríferas, itacolomito e itabirito, na região do Pires (Figura 4.18).

Figura 4.17 - Mapa mostrando os trajetos de Helmreichen que deram origem aos perfis geológicos (Helmreichen, 1846, ed. 2002) No detalhe o percurso na área do atual Quadrilátero Ferrífero do perfil que tem origem no Rio de Janeiro e segue até o rio Santo Antônio no sertão do São Francisco, passando por Congonhas, Gongo Soco, Caeté, Sabará, fazendo então uma grande curva até Itabira.

Pela legenda (Figura 4.19) observa-se que Helmreichen incluiu todas as formações do Quadrilátero num grupo que denominou genericamente de Grupo dos Gnaisses. Estas formações se sucedem na continuidade do traçado através do Quadrilátero (Figura 4.20).

A carta de 10 de agosto de 1842, escrita no Rio de Janeiro por Helmreichen, dá notícia de suas pesquisas nas formações ferríferas desde a Vila do Príncipe (Serro), passando por Candonga, Itabira do Mato Dentro até Lagoa Santa e da construção exatamente deste perfil das formações do Itacolomito e da formação dos talco-xistos e xistos argilosos com os gnaisses delimitantes a leste e oeste.

Figura 4.18 - Trecho do Perfil geológico entre o Rio de Janeiro e o comércio no Rio Santo Antônio no sertão do São Francisco quando o traçado entra na atual área do Quadrilátero Ferrífero pelo sul, próximo ao município de Congonhas (Helmreichen, 1846)

131 Figura 4.19 - Parte da legenda do Perfil geológico entre o Rio de Janeiro e um comércio no Rio Santo Antônio no sertão do São Francisco referente ás formações da atual área do Quadrilátero Ferrífero (Helmreichen, 1846)

Observa-se que Helmreichen incluiu todas as formações do Quadrilátero num grupo que denominou genericamente de Grupo dos Gnaisses formado por repetidas intercalações de granito-gnaisse e gnaisse-granito, massas de quartzo e rochas anfibolíticas contendo subordinadamente: massas de calcário cristalino predominando ora o branco ora o granular cinza; intercalações de rochas cloríticas (pedra-panela ou pedra-sabão) e faixas de xisto argiloso talcífero com intercalações de itacolomito, especularita xisto quartzoso, especularita xisto argiloso e calcário.

132 Figura 4.20 – Trecho do Perfil geológico entre o Rio de Janeiro e um comércio no Rio Santo Antônio no sertão do São Francisco. (Helmreichen, 1846)

De Sul para o Norte, partindo de Tejuco, lugarejo pouco ao norte e Congonhas cuja denominação já desapareceu na toponímia local, aparece o granito do Baçao (rosa) e o Rio das Velhas, continuando surge o xisto argiloso com talco (amarelo) e intercalações de itacolumito (laranja), em seguida uma camada de itabirito quartzoso (lilas), tudo mergulhando para Norte (flanco sul do sinclinal de Gandarela), as faixas verdes representam itabirito argiloso; virando o mergulho para S aparece o flanco N do sinclinal (Gongo Soco), terminando no granito do Domo de Caeté (rosa).

O trecho entre Tejuco e Caeté inclui a representação inédita de uma estrutura dobrada no Quadrilátero: a dobra hoje conhecida como Sinclinal de Gandarela12.

Entretanto, nessa mesma correspondência citada há outra informação que tem grande valor para este trabalho. Relata Hocheder que, além redigir as suas últimas observações de viagem e completar um perfil geológico de mais de 100 léguas acompanhado de uma coleção de amostras, bem como fazer exercícios práticos em observações astronômicas, Helmreichen pretende terminar o mapa geológico do distrito das minas de ouro em Lagoa Santa quando da visita a Dr. Lund. Não há dúvida então que era objetivo de Helmreichen gerar um mapa geológico da região do Quadrilátero.

De fato existe no acervo da academia de Ciências de Viena, um mapa com hidrografia, vilas, caminhos e principais elevações, na escala 1:250.000, abrangendo a área delimitada pelos rios Doce e Piranga, a leste, o rio Paraopeba, a oeste, e no sentido norte-sul os limites são respectivamente as cidades de Sabará e Queluz (Conselheiro Lafaiete). Há traços demarcando a distribuição espacial das formações ferríferas, são linhas duplas em vermelho fraco que remetem imediatamente ao atual Grupo Itabira do Supergrupo Minas, o que sem dúvida é pertinente porque ele certamente identificou os itabiritos da Formação Cauê e da base da Formação Gandarela. A área do Complexo granito-gnáissico do Bação está delimitada pelo traçado do contato com impressionante precisão, assim com há traços que marcam os contatos dos corpos de granito do Complexo Belo Horizonte, Caeté, Bonfim e Santa Bárbara. Helmreichen ainda demarcou a localização de minas de ouro e fábricas de ferro. Este esboço, se terminado, seria o primeiro mapa geológico do Quadrilátero Ferrífero (Figura 4.21).

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Foi exatamente este termo “Sinclinal” (etimologicamente sin = mesmo e klinein = mergulhar, inclinar) que Charles Lyell usou em seu famoso Principles of Geology para descrever as dobras cujos flancos mergulham no mesmo sentido. Segundo o próprio Lyell este termo teria sido primeiramente usado pelo grande geólogo britânico Adam Sedgwick (1785-1873). No Glossário de termos geológicos, preparado para que os leigos pudessem entender seu texto, Lyell define também o eixo anticlinal: "Se uma colina ou um vale é composto por camadas, que nos dois lados mergulham em direções opostas, a linha imaginária para a qual ambas convergem, se chama eixo anticlinal. Em uma fileira de casas, com telhados inclinados para o sul e para o norte, as ardósias [do telhado] representariam as camadas inclinadas mergulhando para o sul e para o norte, e a cumeeira seria um eixo anticlinal de direção leste oeste." Em uma sucessão estratigráfica normal (onde não houve inversão das camadas), numa forma anticlinal, as camadas mais antigas ocupam o núcleo da dobra. Se esta sucessão normal estiver dobrada em sinclinal as camadas mais jovens é que estarão no núcleo.

Figura 4.21 - Esboço geológico do Quadrilátero Ferrífero elaborado por Helmreichen, ca. 1842 (Academia de Ciências de Viena)