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- The Care for The Common: A Political Notion of Care

Aimé Pissis chegou ao Brasil por volta de 1836 e excursionou cinco anos fazendo observações geológicas da foz do rio São Francisco, ao norte, até Paranaguá, ao sul, e do litoral até o rio São Francisco e rio Paraná, a oeste. Mesmo quando os Andes concentravam grande parte da atenção dos geólogos viajantes, principalmente depois dos relatos de Humboldt sobre sua viagem, por causa das enormes soerguimentos ali ocorridos e dos fenômenos vulcânicos, Pissis justificou seu interesse em estudar a geologia do Brasil por acreditar que a antiguidade de seus terrenos, expressa na regularidade e simplicidade de seu relevo, podia ser uma peça esclarecedora da geologia da América. Sustentava que nesses terrenos, onde “perturbações recentes” não alteraram completamente ou mesmo consideravelmente o relevo, era possível estudar os eventos anteriores pelos traços que ali ainda estavam impressos.

Em 1842 foi lido na Academia de Ciências de Paris seu trabalho intitulado Mémoire sur la

position géologique des terraines de la partie australe du Brésil, publicado em 1848. Na

introdução ele explicita a necessidade de reunir as observações relativas à composição dos terrenos e sua posição relativa com aquelas que dizem respeito às formas que caracterizam o relevo, o estudo das cadeias de montanhas, a direção das camadas e sua inclinação, para imprimir a clareza necessária à exposição. É então, apresentada no artigo, uma classificação para os terrenos geológicos percorridos e um estudo dos movimentos orogênicos identificados. Para completar a descrição acompanham um mapa paleogeográfico da área com os terrenos silurianos (de Transição), sete perfis geológicos e um esboço geológico da região aurífera de Minas Gerais. Quanto à classificação, vale observar o ponto de vista de Pissis, principalmente no que tange à classe das rochas xistosas do grupo primitivo, equivalente à Segunda Formação Primitiva de Eschwege, por se tratar de sua descrição das seqüências supracrustrais dobradas do Quadrilátero. Na descrição dos últimos terrenos da subdivisão, chamada apenas de “Estágio dos Gnaisses”13, aqueles compreendidos entre a Serra da Mantiqueira e o Paraná, Pissis conclui que estes se apresentam de tal forma alterados, que as rochas gnáissicas das províncias do Brasil central devem ser divididas em duas partes: a primeira entre a Serra da Mantiqueira e o mar e, a segunda, composta pelas rochas xistosas que se elevam a partir da vertente noroeste desta serra, fazendo assim da Serra da Mantiqueira um divisor geológico. Segundo Pissis, este segundo grupo, superior, se distingue do primeiro porque a rocha dominante não é o gnaisse, mas grandes camadas de quartzito e camadas menos freqüentes de xisto e de micaxisto e, sobretudo, pela

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abundância de minerais metalíferos dos quais existem apenas traços no grupo inferior. Passando então a descrever este conjunto de rochas com outro grupo, o primitivo xistoso, Pissis expõe que...

“estas rochas não formam uma superfície contínua, elas se apresentam em grandes faixas como uma cobertura sobre o gnaisse, e se estendem de NE para SO ocupando a parte superior das montanhas mais altas das províncias de Minas Gerais e São Paulo. Os xistos filadiformes dominantes nestas faixas estão associados ao quartzo xisto que ocupam a maior extensão, seguido pelos itabiritos e, enfim, pelos calcários.” (Pissis, 1848:375)

Explica em seguida que, com exceção do calcário que nunca é subordinado, se apresentando sempre em grandes camadas e na mesma posição estratigráfica, estas rochas podem se apresentar desta maneira, com grande potência e ocupando a mesma posição de qualquer ponto de observação, ou em camadas de pouca espessura subordinadas ao xisto. A partir deste modo de distribuição em diversas camadas, coloca Pissis que é possível identificar diferentes formações propondo uma coluna estratigráfica: os quartzitos inferiores que repousam imediatamente sobre o gnaisse que, em alguns pontos, atingem uma espessura de 800m, hoje Formação Moeda; recobertos pelos xistos inferiores que em algumas localidades são bastante friáveis e o ferro é substituído por um xisto branco pulverulento que abriga cristais de quartzo, topázios e euclásios, provavelmente Formação Batatal; em seguida uma outra camada de quartzito que se distingue da inferior por sua estrutura mais xistosa que lhe imprime uma estrutura laminar muito fina não passando nunca a granular, Grupo Piracicaba; depois o itabirito, dominantemente xistoso, de espessura variadíssima, com a jacutinga ocupando normalmente as partes inferiores desta formação que é a mais rica em ferro e em ouro abrigando as minas mais importantes, o Greenstone Belt Rio das Velhas; os calcários deste estágio são freqüentemente granulares mais raramente compactos e são encontrados entre os quartzitos médios e os itabiritos em alguns poucos pontos; os xistos superiores muito mais friáveis que os inferiores repousam imediatamente sobre os itabiritos e, por último, uma camada potente de quartzito cuja espessura varia de 400 a 500m aparecendo nos pontos mais elevados de Minas Gerais como o Itacolomi, a Serra do Caraça e o Morro do Itambé, Grupos Itacolomi e Caraça e Supergrupo Espinhaço. Na caracterização individual destas várias formações chama atenção o cuidado com a descrição de suas cores e, ao contrário, a quase ausência de informações sobre sua espacialização.

Como colocou Orville Derby14 a classificação de Pissis para os terrenos brasileiros “difere da de Eschwege em algumas particularidades sem, contudo, ser mais acertada”. No Quadrilátero esta observação pode ser exemplificada pela identificação e inclusão de calcários no grupo dos xistos

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Derby O.A. 1895. As investigações geológicas do Brasil. Revista Brasileira II, Rio de janeiro, maio 1895, 9o. fasc. 1-5. In: Oliveira e Leonardos, 1943.

primitivos, ao passo que na divisão de Eschwege os calcários pertencem apenas aos terrenos de Transição. A divisão apresentada na coluna estratigráfica proposta não se reflete no seu “Esboço geológico da região aurífera de Minas Gerais”, na verdade um mapa geológico do Quadrilátero (Figura 4.22).

Figura 4.22 - Esquisse Geognosique du Terrain Aurifere de Minas Geraes (Pissis, 1848) Pissis define 5 divisões para os terrenos do Quadrilátero: gnaisse, talcos, quartzitos, itabiritos, calcários. O último item da legenda não foi preenchido, não há cor e no lugar do nome existe um ponto de interrogação.

O mapa abrange todo o Quadrilátero, desde a Serra de Ouro Branco (Serra de Deus te Livre) ao sul, até Caeté e Sabará e a Serra da Piedade ao norte, a leste ultrapassa a Serra do Caraça e, a oeste, é delimitado pela Serra do Curral, incluindo assim tanto o Pico do Itacolomi como o de Itabirito. Apesar das visíveis distorções geográficas na representação das principais estruturas do QF e da classificação dos terrenos que não apresenta evolução com relação às anteriores, merece destaque a sinalização dos mergulhos pioneiramente representados (Figura 4.23).

Também de interesse para este trabalho é o perfil geológico com cerca de 12 km que detalha o acamamento entre o Pico do Itacolomi ao sul, até a Serra de Antônio Pereira, ao norte, passando pelo Ribeirão do Carmo, Ouro Preto, Serra da Cachoeira. Nesta representação Pissis apresenta a divisão das rochas xistosas em sete formações conforme proposto em sua coluna estratigráfica. Assim como Helmreichen, Pissis apresenta em seu perfil geológico, claramente, as estruturas dobradas no QF, o que significa um avanço considerável sobre a seção apresentada por Eschwege em 1811. A repetição das camadas com inversão do mergulho, de sul para norte, depois do leito do Rio das Velhas caracteriza nitidamente o Anticlinal de Mariana (Figura 4.24).

Figura 4.23 – Detalhe da representação dos mergulhos das camadas na região de Ouro Preto no Esquisse Geognosique du Terrain Aurifere de Minas Geraes (Pissis, 1848)

139 Figura 4.24 - Coupe du sud au Nord depuis le pic de I’Itacolomi jusqu’á Antônio Pereira (Pissis, 1848)

Na apresentação do acamamento das formações entre Ouro Preto e o Rio Gualaxo está perfeitamente caracterizado o Anticlinal de Mariana: as camadas sobrepostas de xisto, quartzito e itabirito mergulhando para o sul na Serra da Cachoeira (flanco sul do anticlinal) se repetem com inversão do mergulho, para norte depois do Rio das Velhas, na Serra de Antônio Pereira (flanco norte do anticlinal).

Na segunda parte da Memória, Pissis trata dos movimentos orogênicos ocorridos na parte austral do Brasil. Pode-se dizer que reconhece parte ou a “essência” do que é hoje definido como Cráton São Francisco15.

“... se se procura remontar às épocas mais recuadas do tempo geológico, se vê inicialmente as rochas cristalinas que se mostram na parte austral do Brasil formadas antes da existência dos terrenos silurianos, uma ilha bastante considerável cuja forma era aquela de uma elipse alongada tendo seu eixo maior na direção NE a SO e que se estendia entre 16o e 17o de latitude austral [110 km].” (Pissis, 1848:411)

Segundo Pissis, o relevo desta “ilha” era então marcado por cadeias de montanhas paralelas ao seu grande eixo, análogo àquele que se apresenta hoje entre as serras do Mar e da Mantiqueira, cujos soerguimentos pareciam “se relacionar às primeiras revoluções do globo”. Depois vieram os grandes deslocamentos segundo a linha oeste-leste que imprimiram a essas primeiras cadeias de montanhas dos terrenos primitivos uma movimentação que, na impossibilidade de mudar sua direção, retrabalharam suas linhas de cumeada dando-lhes uma inclinação geral de sul para norte, “enquanto que, nos intervalos que lhes separam, formaram novas montanhas dirigidas de leste a oeste”. Assim se configurou a maioria das altas cadeias de montanhas da Província de Minas Gerais, porque “de fato, o maciço central da província de Minas Gerais já existia”. Da última movimentação por ele identificada, no fim do período terciário, não reconheceu traços nesta região apenas no litoral e sul da Bahia.

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Porção continental que restou estável a partir de uma grande placa litosférica neoproterozóica que passou por processos de subducção e colisão (Alkmim et al., 1993).