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2 PERSPECTIVES ON CLIMATE AND DEVELOPMENT

2.3 Reflections on adaptation, vulnerability and development policy

A fotografia mais conhecida de um “fenômeno mediúnico” ocorrido no Brasil na primeira metade do século XX é a da famosa “levitação” do médium Carlos Mirabelli (1889-1951), na sede de um instituto de estudo psíquico em São Paulo. Mundialmente reproduzida na literatura específica, nessa imagem vemos Mirabelli vestindo uma calça escura, gravata e um guarda-pó branco, com os braços abertos em posição de êxtase, flutuando próximo ao teto do instituto paulistano. O médium, que só freqüentou a escola primária, tem em seu curriculum produções “estonteantes” no campo da “telepatia, levitação, escrita direta (casos raros descritos na literatura específica de escrita a lápis sem o contato de mãos visíveis), deslocamento de

objetos (sem ação direta de qualquer agente visível), raps,

62. Numa viagem à Belém do Pará, em novembro de 2006, pude encontrar o livro-álbum do maestro Bosio no velho casarão da União Espírita Paraense, sede de uma entida- de que comemorou naquele ano, cem anos de fundação no Brasil. Com a colaboração do Sr. Jonas Barbosa, ex-diretor da entidade, pude consultar aque- le livro onde estão descritas as experiências realizadas na casa da família Prado. Em folhas datilografadas, com tipos pre- tos e vermelhos, o livro traz uma série de fotografias origi- nais coladas em suas páginas, além de uma fotografia colada à capa dura. No entanto ao solicitar uma cópia desse livro no início de 2008, fui informa- do pela atual presidente da União Espírita que o livro havia “desaparecido”. Segundo a Sra. Najda Santos foram feitas “todas as buscas para a sua localização, sem sucesso”. Essa pequena tragédia representa o desaparecimento do mais vali- osos documento da história da Fotografia dos Espíritos no Brasil. Um caso grave de desca- so para com a preservação de um patrimônio histórico, que merecerida um posicionamento dos espíritas brasileiros quanto ao paradeiro desse que tam- bém é um patrimônio da his- tória do Espiritismo no Brasil. A médium Ana Prado, por meio de quem os “espíritos” se materiali- zavam em Belém do Pará.

materializações diversas (de “espíritos” e objetos) etc”. Além disso, conta-se que Mirabelli se notabilizou também por “uma fase artística”, sem qualquer conhecimento ou estudo de linguagens expressivas. “Espíritos afeitos às artes da pintura [o] influenciaram quase que diariamente. Produziram as mais lindas pinturas a óleo, a crayon e, também, aquarelas. Em dois meses [“os espíritos”] já haviam produzido uns 46 quadros. São retratos, grupos, paisagens, ramos de flores, pássaros [...]” (Palhano Jr., 1994: 65). Além da prática da pintura, por meio dessas “incorporações” Mirabelli também tocava diversos instrumentos, cantava em três diferentes vozes e provocava os movimentos de objetos ao seu redor, quebrando garrafas, imagens e transportando objetos de dentro da sala para o quintal (revista, 1987: 166). Dono de uma personalidade “multimídia” o médium transformava muitas das sessões de efeitos físicos [séances] em performances bizarras:

“Um dos mais estranhos fenômenos ocorreu quando ossos humanos choveram sobre os assistentes, terminando com a queda de uma vasta cabeleira. O esqueleto foi reconhecido como pertencente a uma senhora, cujos restos mortais aguardavam sepultamento. Hoje eles estão enterrados no ossário do cemitério da Quarta Parada, na Penha, em São Paulo”. (“Personalidades PSI. Carmine Mirabelli”. In O mundo do paranormal. São Paulo, Editora Três, 1987: 166. Também em Palhano Jr., 1994: 163).

Mirabelli nasceu em Botucatu, São Paulo. Filho de pai protestante e mãe católica, foi o rebento mais célebre de um total de vinte e oito filhos (Palhano Jr., 1994: 28). É considerado o “médium polimórfico” mais conhecido da história dos fenômenos mediúnicos no Brasil, por meio de quem uma variedade de fenômenos tomava forma à frente da assistência. “Mirabelli, segundo a observação de alguns, não [entrava] em transe cataléptico ou letárgico, mas profundo, isto é, com perda da consciência. Os fenômenos de ordem física, obtidos com sua energia, realizavam-se, geralmente, à plena luz, e mesmo de dia, dentro e fora de recinto fechado” (Palhano Jr., 1994: 41). Esse é um aspecto muito particular das fotografias que documentam os fenômenos produzidos por Mirabelli - a mesma particularidade encontrada nas fotografias do maestro Bosio: ambos dispensam a escuridão e o ambiente fechado dos gabinetes (cabinets) para a produção e o registro daquelas fenomenologias. Para eles as “manifestações” se davam a qualquer hora. Conta-se que na juventude Mirabelli trabalhou como funcionário de uma firma de calçados, mas “em virtude da violência dos fenômenos que ocorriam ao seu redor, foi obrigado a pedir sua demissão”. (O mundo do paranormal. 1987: 166).

Além da famosa fotografia da levitação do médium em São

“Entidade materializada diante do médium”, em fotografias sem data. “Foi também captada a sua sombra, mostrando que, de fato, havia um corpo sólido e opaco ali” (Evocação dos Espíritos, Mistérios do Desconhecido, págs. 118-119)

Paulo, o livro de Palhano Jr. reproduz diversas fotografias de materializações de “espíritos”, além de duas outras imagens pouco convencionais, do ponto de vista do enquadramento do tema, como a da “materialização do espírito do escultor Petrucelli” (Palhano Jr., foto 34, pág. 123) e de um raro “espírito” de um negro, cuja aparição

parece assustar o próprio médium (Palhano Jr., foto 21, pág. 75).63Em

sua grande maioria, as reproduções são de imagens fora de foco; com manchas químicas de revelação e tomadas tremidas; sendo que em todas elas as legendas funcionam como verdadeiras “traduções” do contexto fantástico, no qual o médium parece ter vivido.

Em 1919, pela iniciativa de “vários cavalheiros de destaque

social e nas ciências” foi fundada a Academia de Estudos Psíquicos

Cesar Lombroso, em São Paulo, onde o médium era submetido à investigações, sobre os “fenômenos devidamente controlados e as ocorrências lançadas em atas” (Palhano Jr., 1994: 50). Dez anos depois, a Academia arregimentava em seus quadros acadêmicos, engenheiros, advogados, jornalistas, médicos, dentistas, industriais, jornalistas, militares e profissionais liberais. Por meio das atas de reuniões é possível identificar a freqüência dos diversos representantes sociais naqueles trabalhos de “experimentação” conduzidos pelo médium. Em 1929 os trabalhos na academia paulista “sofreram uma paralisação considerável” por motivo de saúde de Mirabelli. Em data não registrada (o livro não apresenta uma organização cronológica evidente), o médium abre uma nova academia na cidade litorânea de Santos, onde os mais estranhos e macabros fenômenos de materialização foram descritos (Palhano Jr., 1994: 80-83). Mais tarde, em 1934 Mirabelli estará atuante na nova

sede da Academia Brasileira de Metapsíquica, na rua Voluntários da

Pátria, 270, no Rio de Janeiro, onde várias das imagens reproduzidas nesta tese foram realizadas. Em seu livro Palhano Jr. faz um breve comentário sobre as “fotografias transcendentais” dos feitos de Mirabelli, em sua maioria creditadas a um certo Thadeu de Medeiros, “um ilustre funcionário da Saúde Pública”:

“Na questão das fotografias transcendentais, duas possi- bilidades se apresentaram para os investigadores: na primeira, os Espíritos estavam realmente materializados, todos os viam e os controladores podiam fotografá-los à vontade, fosse de dia ou à noite; na segunda, apenas o médium, pela vidência, conseguia ver as entidades. Nesses casos, ele dava a direção para o pesquisador-fotógrafo e a chapa era sensibilizada, embora ninguém, note-se bem, ninguém, a não ser o médium, visse os Espíritos” (Palhano Jr., 1994: 207. Grifo meu)

Muitas vezes considerado o Houdini64 brasileiro, a Mirabelli

também se atribui o conhecimento de certos truques de mágica, como o de se livrar das correntes que o imobilizariam; no entanto isso

63. As fotografias extraídas do livro de Palhano Jr. nos ofere- cem um conjunto de imagens que pode ser considerado o mais complexo dessa coleção. As fotografias dos fenômenos do médium Mirabelli foram, até agora, reunidas apenas neste livro, com imagens de grande interesse, porém sem maiores referências às datas dos origi- nais ou das cópias usadas na edição do livro. Isso revela o quanto ainda temos de pesqui- sa de base por fazer para uma historiografia consistente desse fenômeno no Brasil.

64. Harry Houdini (1874-1926) é considerado um dos maiores mágicos do início do séc. XX. Após o falecimento de sua mãe, ele procura contato com ela por meio das sessões espíritas, mas acaba descobrindo uma série de farsas, em tudo inferiores aos seus truques mais banais. Ele escreve um livro em 1924 intitulado “Houdini: a magician among the spirits”, onde de- nuncia muitas das práticas embusteiras das séances, entre elas os truques usados na produção das “fotografias espí- ritas” (Amsterdan: Fredonia Books, [1924] 2002: 117-137). No capítulo sobre a “Spirit photography”, Houdini reconta a história iniciada com Mumler, descreve os fatos envolvendo o francês Buguet e enumera uma série de eventos até o ano de 1923, quando ele oferecia 5000 dóla- res para quem apresentasse uma simples evidência de uma fotografia espírita “original”.

é apenas citado superficialmente pelos autores que escreveram sobre ele e em nenhum momento encontramos descrições desses truques - com exceção de uma análise recente, publicada por um site, da famosa fotografia da levitação do médium em São Paulo, que procura evidenciar sinais de retoque sob seus pés, como também na sombra projetada ao fundo.

3.6 AS MANIFESTAÇÕES DO “PADRE ZABEU”