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4 FIELD STUDY AREA

4.6 Development interventions

TEMPO SEM OBJETO

O movimento associado à arte telecomunicativa no Brasil no início dos anos 80, pode ser visto como coincidindo com a implantação do sistema videotexto em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, onde num curto espaço de tempo foram organizadas

diversas exposições em torno desse sistema8. Estas atividades de

certa forma colaboraram para a criação de alguns núcleos de pesquisa em arte e tecnologia em São Paulo, até então inexistentes

no país9. Depois da minha primeira experiência com o videotexto,

apresentada no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, em 198210,

onde apresentei uma pequena série de "jogos” inspirados em

videogames11, teve início uma fase de pesquisas com os sistemas

(eletrônicos) de telecomunicação que se estendeu até 1988. Um dos trabalhos da época, que considero um dos mais importantes na minha produção, foi o intitulado “Clones - uma rede simultânea de rádio, televisão e videotexto”12. Essa foi uma das primeiras tentativas, no

contexto das experiências com telecomunicações e artes no Brasil, de formação de uma “rede intermídia”, onde três diferentes sistemas telecomunicativos se integravam na criação de uma obra única e híbrida.

"Clones", palavra que em grego significa “múltiplo”, se

10. Art pelo Telefone - Video- texto, curadoria de Julio Plaza, com Carmela Gross, Julio Plaza, Leon Ferrari, Lenora de Barros, Mario Ramiro, Omar Khouri, Paulo Leminsky, Régis Bonvi- cino e Roberto Sandoval. Museu da Imagem e do Som, dezembro de 1982.

6. “Arte Xerox Brasil”, idem nota 14.

7. Kac, Eduardo. "FAAP mostra os usos da tecnologia em arte," Folha de São Paulo (São Paulo, 13/11/1985), pg. 40.

8. Art pelo Telefone : Videotex- to, Museu da Imagem e do Som, São Paulo, 1982. “Núcleo I” da XVII Bienal Internacional de São Paulo”, 1983. Clones - uma rede simultânea de rádio, tele- visão e videotexto, Museu da Imagem e do Som, 1983. Arte e Tecnologia, Museu de Arte Contemporânea da USP, São Paulo, 1984. Brasil high-tech, Centro Empresarial do Rio de Janeiro, 1986.

9. “Núcleo de Arte e Tecno- logia” (NAT) em São Paulo (1983-1985), criado por Mario Ramiro, o arquiteto José Garcia e o Prof. Fredrich Litto, com o apoio do CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa, Brasília) e ABAA (Associação Brasileira de Apoio Acadêmico). “Instituto de Pesquisa em Arte e Tecno- logia” (com Carlos Fadon, Milton Sogabe, Paulo Laurentiz, Wilson Sukorski, entre outros).

11. Um desses “jogos”, mostrava a imagem de um avião perse- guido por uma mira, que final- mente o encontrava e o des- truía, numa clara referência aos vídeo games da época. A imagem final desse trabalho era a de uma nuvem de fumaça que se dispersava no ar; algo semelhante ocorria num outro trabalho, apresentado na mes- ma ocasião, que mostrava a imagem de um cigarro num cinzeiro, queimando lenta- mente. Nessa série de imagens a passagem do tempo era não só enfatizada pelo desprendi-

baseava na recepção simultânea e sincrônica de um objeto repre- sentado em três diferentes meios, caracterizando três representações distintas de um mesmo referente. Para a apresentação desse trabalho foi criada uma instalação com terminais de videotexto, aparelhos de televisão, rádio e alto falantes, numa sala circular do Museu da Imagem e do Som. Em nove terminais de videotexto, ligados a nove diferentes linhas telefônicas, o objeto representado havia sido reduzido a um elemento gráfico plano (uma barra horizontal vermelha), deslocando-se na superfície da tela. Em dois outros monitores convencionais de TV a mesma barra horizon- tal, recebida pela transmissão ao vivo de uma emissora de televisão, se deslocava na profundidade da tela do vídeo, afastando-se de sua superfície, ao mesmo tempo que perdia seus contornos geométricos rígidos. Já a “tradução” sonora desse objeto (uma barra horizontal) nos colocava um problema: como sonorizar uma imagem geométrica e transmiti-la pelo rádio? Para isso foi necessário recorrer à um princípio instituído pelo artista Marcel . Num dos seus trabalhos intitulado "3 Stoppages Etalon" (1913/1914), Duchamp declara que "uma linha horizontal de um metro de comprimento, deixada cair a um metro de altura, deforma-se ao seu gosto, criando uma nova

imagem da unidade do comprimento”13. Seguindo este princípio

deixamos cair ao solo uma barra de ferro de um metro de comprimento, com um centímetro de diâmetro, a um metro de altura. O ruído do choque dessa barra contra o chão foi gravado e manipulado por um velho sintetizador analógico. Assim foi represen- tada a sonoridade da imagem visível nos terminais de videotexto e nos aparelhos de tv. A peça,

com duração de 4 minutos,

enfocava o tema do

surgimento de uma forma, seus desdobramentos ao longo do tempo e do espaço e a sua transformação em pura energia. Em certos momentos a sincronicidade entre as imagens da tv, do

videotexto e o som,

acentuava ainda mais a idéia de simultaneidade, de um acontecimento onde várias coisas, que formavam uma só, se interpenetravam no tempo e tomavam forma à nossa frente

mento da fumaça na atmosfera ("...uma ampulheta que escorre para cima", segundo G. Bache- lard), mas também pelo acúmu- lo de cinzas (o corpo em fase de desmaterialização).

12. “Clones, uma rede de rádio, televisão e videotexto”, de Mario Ramiro, juntamente com o arquiteto José Garcia, foi um evento transmitido no dia 26 de novembro de 1983 pela radio e televisão Cultura de São Paulo, como parte de uma instalação montada no Museu da Imagem e do Som de São Paulo. A insta- lação era composta por nove monitores de tv, conectados a nove diferentes linhas do siste- ma videotexto, distribuído pela empresa telefônica estatal Telesp, além de 2 monitores de TV para recepção do programa transmitido pela ”Fabrica do Som” da TV Cultura, canal 2 e um aparelho de rádio para a recepção do programa sonoro, produzido pelo músico Conrado Silva e transmitido pela rádio Cultura FM. Esse trabalho oferecia, teoricamente, a pos- sibilidade para o telespectador, que em casa tivesse um apa- relho de tv e um terminal video- texto, montar a sua própria instalação, podendo ainda ligar o rádio em sincronia com a rede. Algo improvável, porém possível. Um texto que procura- va conceituar esse trabalho, intitulado “O labirinto da repro- dução”, foi também publicado pela Folha de São Paulo, Folhetim, n. 361, (São Paulo, 18/12/83) Págs. 6-7. Ver tam- bém artigo de Marcelo Leite, "Arte por computador, entre duas gerações," Iris-foto, n. 378, (São Paulo, 1985: 69-71. 13. “3 Standard Stops = canned chance (1914). A idéia da fabri- cação: um fio de um metro de comprimento, deixado cair a um metro de altura, deforma-se ao seu gosto, criando uma nova unidade do metro”. in “Marcel Duchamp”, Edited by Pontus Hulten (London: Thames and Hudson, 1993: 32-33.

“Clones”, imagem da transmis- são pela TV Cultura, 1983.