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2. Marco teórico

2.3. Redes sociales y educación

A educação popular, idealizada e sistematizada por Paulo Freire, enfatiza o diálogo e o respeito ao saber do povo, numa visão emancipadora da construção do conhecimento. Ela busca trabalhar pedagogicamente o homem e os grupos envolvidos no processo de participação popular, fomentando formas coletivas de aprendizado e investigação, de modo a promover o crescimento da capacidade de análise crítica sobre a realidade e o aperfeiçoamento das estratégias de luta e enfrentamento (VASCONCELOS, 2003).

A constatação de que ninguém está sozinho no mundo implica no “direito e dever que eu tenho de respeitar em ti o direito de você também ‘ dizer a sua palavra’. Isto significa dizer, então, que eu preciso também saber ouvir”. Para os que estão com a população, partilhando de suas lutas, é indispensável essa prática, sendo um exercício cotidiano. Ao educador popular cabe falar “com o povo”, para possibilitar a efetiva troca de conhecimentos, enquanto que o educador autoritário fala “ao povo”, apenas transmitindo o seu conhecimento (FREIRE, 1982).

Diante da importância do saber ouvir, a educação popular prioriza, em seu método, tomar como ponto de partida do processo pedagógico o saber anterior das classes populares. O investimento na criação de espaços de elaboração das perplexidades e angústias advindas do contato intercultural e a denúncia de situações em que a diferença de poder entre os grupos e pessoas envolvidas transforme as trocas culturais em imposição são também atribuições do educador popular (VASCONCELOS, 2003).

Diferente do que muitos imaginam esse saber do povo não é resultado do apoderamento de saberes científicos anteriores, que levados às diferentes classes, foram então empobrecidos. Houve um primeiro saber de todos, que se tornou “sábio e erudito”, centralizado e associado a diferentes instâncias do poder, e que, por oposição, estabeleceu o “popular”, difuso, no interior da vida subalterna da sociedade (BRANDÃO, 1997).

Para Adorno (1995), a educação não seria a modelagem de pessoas, pois não se pode modelar o outro a partir do seu exterior, também não seria a mera transmissão de conhecimentos, mas a produção de uma consciência verdadeira, o que teria uma grande importância política, a partir da emancipação do indivíduo.

A educação popular parte do princípio que em uma sociedade de classes a educação não se apresenta de forma neutra e se coloca como campo de disputa pela hegemonia política. Assim, ela propõe a organização da massa trabalhadora, numa perspectiva emancipatória, e tem estreita ligação com os movimentos populares (SILVA, 2007). Movimentos estes entendidos como “esforços coletivos de pessoas social e politicamente subordinadas para mudar suas condições de vida” (EPSTEIN, 1995).

Para Gohn (1995.p. 44), nos Movimentos sociais,

“As ações desenvolvem um processo social e político-cultural que cria uma identidade coletiva ao movimento, a partir de interesses em comum. Esta identidade decorre da força do princípio da solidariedade e é construída a partir da base referencial de valores culturais e políticos compartilhados pelo grupo.“

Dentre esses movimentos, existem aqueles da saúde que, diante das carências do setor, centram suas ações, principalmente, na definição de um conceito global de saúde, na garantia de igualdade no acesso aos serviços sanitários e na exigência da participação comunitária (RIBEIRO, 1989).

Esse conceito de saúde busca o rompimento com a dimensão biopsicológica, na medida em que entende que a doença, fato intimamente ligado ao indivíduo, raramente é um caso isolado, visto que processos semelhantes verificam-se em outras pessoas e é expressão de dificuldades sociais em suas vidas (STOTZ, 2007).

Em relação à igualdade no acesso aos serviços, sendo este universal e gratuito, entende-se ser responsabilidade do Estado garantir “saúde para todos”. Já a participação comunitária, baseia- se na interpretação da realidade e na exigência do fazer ser ouvido, tendo como finalidade a resolução de problemas próprios da comunidade (RIBEIRO, 1989).

Um exemplo da união dos movimentos de saúde e da educação popular é o MOPS, originado na Zona Leste de São Paulo, em 1979 sob a influência de setores progressistas da Igreja Católica, tendo como primeira bandeira a reivindicação por mais postos de saúde (JORGE, 2007). O MOPS está em Sergipe desde 1989 e tem como objetivos articular os grupos de base na luta por uma saúde pública de qualidade, o resgate e a valorização das práticas culturais e populares, dentre elas a Fitoterapia.

O MOPS partilha algumas de suas ações com a Universidade Federal de Sergipe, entre elas está um Curso de Extensão em Fitoterapia, coordenado pelo movimento e que conta com a colaboração de docentes da universidade. Os participantes, em sua maioria, são pessoas do povo, que já possuem um rico conhecimento prévio, comumente baseado em suas experiências, sobre indicações e contra-indicações, técnicas de cultivo e manejo das ervas.

Esse conhecimento é então compartilhado e recebe as contribuições do campo da ciência. Mesmo sem ter o respaldo científico, muitas das práticas relatadas não perdem seu status, dada a importância atribuída aos saberes aprendidos no dia-a-dia.

Por todo o país são muitas as parcerias entre movimentos sociais e instituições de ensino. Na perspectiva da educação popular, esse contato seria enriquecido caso existisse uma política nacional de incentivo à produção descentralizada de materiais educativos construídos de forma participativa e de valorização e difusão das iniciativas educativas na lógica da problematização coletiva (VASCONCELOS, 2004).

Embora a educação popular adentre a universidade mais comumente através da extensão universitária, numa via de mão-dupla entre academia e comunidade, faz-se importante a sua incorporação ao ensino. Na relação professor-aluno, o processo educativo se tornaria mais humanizado e se teria a esperança de que os estudantes se tornassem mais preparados para se identificar com as lutas do povo, e dessa forma participar da construção de melhorias nas condições de vida das pessoas.

Para Paulo Freire (1982), as pessoas devem ser pacientes impacientes nos processos educativos, ou seja, não deve perder a crítica, impor a palavra e o poder de reinvenção para não cair reféns das vozes e dos poderes dominantes. E é justamente a Educação Popular que possibilita essa tomada de atitude.