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Recruiting workers from outside North Dakota

8. POLICY TESTING

8.1 Recruiting workers from outside North Dakota

Em meio à Mata Atlântica, a cerca de 24km ao norte do centro de Ubatuba, município do litoral norte do estado de São Paulo, está a comunidade caiçara do Puruba (ver mapa 3). Separada na década de 1970 pela BR-101, a comunidade dividiu-se em sertão e vila da praia.

A vila é cercada pelos rios Puruba7, que corre paralelo à praia, e o rio Quiririm; ambos se juntam para desaguar no mar (ver ilustração 1). O acesso dá-se a partir do km 34 da BR- 101, por uma estrada de terra (de 1,5 km) até o primeiro núcleo de casas (que tem em seu centro uma igreja católica fundada em 1913). A mais alguns metros localiza-se o segundo núcleo de casas (que tem como centralidade uma igreja pentecostal). O percurso que se inicia na rodovia e liga os dois núcleos é margeado por uma vegetação densa; a conservação é proveniente de leis ambientais, impostas pela sua proximidade com o Parque Estadual da Serra do Mar - núcleo Picinguaba e também por se tratar de uma área de restinga.

A configuração do espaço apresenta-se de maneira diferente de outras praias do município de Ubatuba. A vegetação densa evidencia a preocupação com as questões ambientais e, diferentemente de outras áreas do entorno, não existem condomínios8, sejam eles horizontais ou verticais. As casas têm estruturas pouco elaboradas, algumas ainda sem muros e portões, estão em ruas ou caminhos de terra e se apresentam, para os padrões urbanos, de forma desordenada. A energia elétrica chegou alguns anos após a concretização da rodovia e o telefone via satélite é uma realidade desde novembro de 2007.

Os moradores são, em sua maioria, provenientes de uma mesma família. Há cerca de 50 (cinquenta) residências, com aproximadamente 110 moradores, segundo o presidente da associação de bairro local. Algumas casas fechadas, pertencem a herdeiros que visitam esporadicamente o local ou alugam para turistas, segundo informações do presidente da Sociedade Amigos da Praia do Puruba (SAPRAPU). Alguns poucos estabeleceram-se ali depois de visitarem o local, na condição de turistas. A pesca é pouco utilizada como fonte de renda, mas tem um papel importante como fonte de alimento para o próprio sustento. Para Lopes (2004), é também uma forma de lazer utilizada por moradores locais e visitantes.

7 O rio Puruba destaca-se por ser o responsável pela maior bacia hidrográfica do município, com área de

16.606,00 ha, região mais preservada da costa norte de Ubatuba. (LUCHIARI, 1999)

8 Os condomínios estão muito presentes nas áreas à beira-mar da cidade. A valorização imobiliária dessas áreas

permitiu ao caiçara vender seus lotes à beira-mar e migrar para outras áreas menos valorizadas, em geral, nos chamados sertões. Em alguns casos, a migração foi forçada, e a falta de documentação da propriedade contribuiu com a expulsão da comunidade local.

Ilustração 2 - Croqui da Vila do Puruba

Fonte: Prefeitura Municipal de Ubatuba, aplicativo Corel Draw Autores: Morelli, Ricardo & MORELLI, Graziele A.S. / Julho de 2009

No caminho que liga a BR-101 à vila da praia está a Escola Municipal José Belarmino Sobrinho, que atende crianças do ensino fundamental. Dados da Prefeitura Municipal de Ubatuba e IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) estimam que 400 alunos sejam atendidos nessa escola. Há também um posto de saúde e recentemente foi instalada uma sede regional que tem função de sub-prefeitura. Todas as edificações e serviços que representam a prefeitura atendem a região norte do município, representada por 25 praias e seus respectivos bairros, chamados de sertão, e ainda 5 ilhas, com um total de 6.000 habitantes

Os moradores manifestam preocupação e indignação diante do atendimento de saúde, que consideram insuficiente para atender às diversas comunidades do entorno, provando a falta de infra-estrutura que o município oferece aos moradores locais.

Essas e outras manifestações demonstram como a comunidade percebe e compreende a transformação do seu modo de vida. O indivíduo deixa de ser apenas caiçara e passa a ter elementos e necessidades do modo de vida urbano.

A questão da terra caiçara como propriedade também sofreu mudanças, passando por um período em que era a única fonte de sobrevivência familiar como o plantio, a moradia e espaço de religiosidade, até o momento em que provocou a ilusão com a venda das terras para a especulação imobiliária. E, nos últimos anos, tem tomado um novo rumo, dentro de um contexto em que a conservação do patrimônio familiar e a conservação ambiental parecem ser a prioridade. Encontra-se nesse ponto a relação que o grupo social do Puruba tem com a família, com trabalho e com a natureza, portanto, com as suas territorialidades, que implicam nas relações de pertencimento, identidade e defesa do seu modo de vida no lugar vivido estabelecidas historicamente e representadas a partir de símbolos materiais e imateriais da cultura caiçara. Nesta perspectiva é importante destacar a importância do mar, do rio, das festas comunitárias e da gastronomia para o modo de vida caiçara. Para o caiçara do Puruba rio e mar são espaços da pesca, da comida, da fartura e da sobrevivência. A festa e a gastronomia representam o momento da sociabilidade do encontro, da confraternização, da vida e de manifestar as suas relações com o grupo, com a história, com as suas habilidades e saberes.

A beleza cênica do local já foi cenário de filmes que retratam o descobrimento do Brasil e atrai visitantes de todos os tipos, sendo em sua maioria os que buscam um maior contato com a natureza. Apesar da exuberante beleza proporcionada pelo encontro do rio com o mar, e da aparente conservação da Mata Atlântica, alguns fatores, como a praia de tombo com areia grossa, o mar violento, os mosquitos e a falta de infra-estrutura turística9 inibem a visita dos que preferem os padrões de conforto dos grandes centros urbanos.

Contudo, o setor norte do município de Ubatuba, divisa com o Estado do Rio de Janeiro, ficou por décadas em um isolamento quase que total do mundo moderno (1950- 1970). Apenas após o projeto nacional no fim da década de 1970, com o objetivo de ligar o país de norte a sul, como já exposto, é que houve a mudança de cenário e de perspectiva para a região.

De certa forma, toda a região norte do município de Ubatuba, continua isolada, no que se refere às questões urbanas. Por exemplo, existem apenas 10 (dez) telefones públicos via

9As leis ambientais não permitem a construção e adequações para recepção de turistas na praia, como barracas de

satélite para atender um total de 25 praias, com seus respectivos bairros à beira-mar ou em meio da Mata Atlântica. O acesso ao transporte público é inadequado, se comparado aos padrões urbanos, que estabelecem uma distância de 500 metros do ponto de ônibus até a casa de um cidadão. A saúde pública e a educação passam pelo mesmo processo; são poucas as unidades de atendimento para a população que percorre longas distâncias para obter atendimento.

O transporte público é necessário para contemplar as novas necessidades, que incluem, além da saúde, o trabalho e os estudos. Os moradores dessa região, incluindo os moradores do Puruba, precisam se locomover para trabalhar em outras localidades. O mesmo acontece para aqueles que querem continuar os estudos em nível médio e superior. As escolas, que oferecem cursos, nesses níveis, localizam-se apenas na região central. Os pais com melhores condições financeiras, permitem momentaneamente que seus filhos morem temporariamente em áreas mais centrais, em casa de parentes, por exemplo.

Atualmente as necessidades são ampliadas, ultrapassam as fronteiras determinadas pelo bairro e começam a avançar para os bairros vizinhos, mas, principalmente, para a região central, onde estão as oportunidades de emprego, estudo e saúde.

A falta de comunicação via telefone dificulta e até impede contatos de trabalho, estudo, socorro médico, e também a denuncia de crimes ambientais que acontecem com frequência na região, o que incomoda os moradores locais.

A precariedade de serviços especializados de saúde leva os moradores a procurar esse tipo de serviço no centro da cidade. Seus métodos tradicionais e caseiros já não são suficientes para garantir a cura para determinadas doenças. O modo de vida foi alterado e, com isso, surgiram novas doenças, que são reflexo, também, da nova alimentação que iniciou- se na impossibilidade de plantar, da redução da atividade física diária, já que não podem mais trabalhar com a lavoura, e da implementação de alimentos industrializados, com propriedades nutricionais diferentes. As novas doenças também chegaram depois do intercâmbio com moradores de outras localidades; talvez já existissem, mas eram tratadas de forma diferente, com remédios caseiros. Hoje o caiçara vale-se dos diagnósticos de médicos e remédios de farmácia, conforme retrata o relato a seguir:

Agora a gente procura sempre o médico e o remédio da farmácia, antigamente a gente não tinha noção também você tinha uma gripe não sabia que tipo de gripe era, dava chá de laranja, chá de sabugueiro, hortelã.

Tinha o senhor que benzia e a pessoa sarava, até picada de cobra, mas minha avó demorou para chegar e morreu com 40 anos de picada de cobra.

Hoje em dia neto de caiçara não quer ver o filho com o pé no chão, o menino não pode beber da nossa água, é alérgico a borrachudo.

A gente não tinha informação sobre doença nenhuma, a gente comia carne de porco, carne do mato, qualquer tipo caça toucinho, torresmo, banha. Morria? Morria! Às vezes era do coração. Ninguém tinha medo de comer nada, hoje vai comer alguma coisa fala olha o colesterol, olha o coração.

A doença que afetava brabo era Sarampo , catapora era curado com resguardo e remédio caseiro e tinha as mulher mais antiga que todo mundo respeitava, ouvia, obedecia.

(Trabalho de campo 2008/2009)

O relato revela confiança nos remédios caseiros. Muitas doenças eram curadas apenas com chás e resguardo, sob orientação de benzedores e das mulheres mais velhas da comunidade, que até hoje são muito respeitadas e possuem uma valorização cultural importante.

A preocupação com doenças, como os índices altos de colesterol, é relacionada aos novos conhecimentos adquiridos depois do intercâmbio com mundo moderno. A quantidade de gordura saturada na alimentação diária é uma preocupação do caiçara do Puruba, mas o consumo de carne vermelha gordurosa não desaparece, apenas diminui, também por consequência das leis ambientais que proíbem o caiçara de caçar na Mata Atlântica.