• No results found

RECOMMENDATIONS

Através da comparação de métodos para detecção de aulidos de lobos- guará em gravações feitas em ambiente natural, foi possível analisar as vantagens e desvantagens de cada um deles (Capítulo I). O método misto (XBAT + manual) encontrou 100% das vocalizações de interesse em quase metade do tempo do método manual e foi eleito o mais adequado para os objetivos propostos para Capítulo II.

O método desenvolvido no primeiro capítulo desse trabalho pode ser adaptado para pesquisas semelhantes, inclusive com outras espécies. O tempo economizado com métodos automáticos e mistos permite que os resultados dos estudos possam ser publicados mais rapidamente, além possibilitar a análise mais eficiente dos dados obtidos no monitoramento das espécies, de modo a tomar decisões referentes à sua conservação em um tempo mais curto.

Diversos métodos têm sido utilizados no estudo dos lobos-guará, todos com suas vantagens e limitações. Bestelmeyer (2000) realizou a observação direta de lobos-guará e a confecção de etogramas, obtendo importantes informações sobre o comportamento desses animais na natureza. No entanto, para isso era necessário um longo tempo de habituação dos lobos à presença humana para que eles pudessem exibir seu comportamento habitual. O fato desses animais serem noturnos também dificultou a visualização do que estavam fazendo em seu período de maior atividade.

A localização e as distâncias percorridas por esses animais têm sido monitoradas através da utilização de colares VHF (Very High Frequency), GPS (Global Positioning System) e satélite. Dentre esses o colar VHF tem custo mais baixo, porém há a necessidade de fazer a triangulação da posição do animal em campo, o que gera custos com o deslocamento e manutenção da

equipe no campo. Além disso, para uma espécie que se desloca bastante como o lobo o processo de triangulação além de difícil pode ser relativamente impreciso (de Melo et al. 2007). Os colares GPS, apesar do alto custo (quase dez vezes mais caro que o VHF), transmitem localizações mais precisas sem a necessidade triangulação. Apesar de eficientes em ambientes abertos, sua eficiência diminui com o aumento da densidade da vegetação (Coelho et al. 2007).

O uso de armadilhas fotográficas é um método promissor para estudos de presença/ausência e densidade do lobo-guará (Trolle et al. 2007). Com relação à utilização desse equipamento, Srbek-Araújo & Chiarello (2007) ressaltam a importância da realização de manutenção constante visando a remoção de fungos, pequenos animais e impurezas para que ele funcione corretamente. Além disso, são necessários longos períodos de amostragem para obtenção de um mínimo de informações, o que implica no alto gasto com baterias.

Além de cetáceos (ver referências no Capítulo II), com os quais já é amplamente utilizado, o Monitoramento Acústico Passivo tem sido recentemente testado para populações de diversos grupos animais, entre eles morcegos (Frick 2013), aves (Stuart et al. 2012, Digby et al. 2013, Buxton et al. 2013) e anfíbios (Williams et al. 2013). Até onde temos conhecimento, nosso estudo foi o primeiro a testar o uso de gravadores autônomos para o monitoramento da atividade vocal dos lobos-guará em ambiente natural.

A acústica passiva oferece um modo alternativo de monitoramento em situações onde a visualização da espécie em ambiente natural é difícil, como é o caso do lobo-guará. Os aulidos são adequados para esse método visto que sua alta amplitude permite que sejam detectados a longas distâncias. Outra vantagem é que os gravadores funcionam sob qualquer condição de

luminosidade (dia ou noite), sendo menos afetados pelas alterações climáticas (Marques et al. 2013). Além disso, a amostragem acústica pode permitir o monitoramento de diversos táxons e processos ambientais ao mesmo tempo, resultando em uma visão geral e integrada da dinâmica e funcionamento do ecossistema (Blumstein et al. 2011).

A eficiência de um programa de monitoramento baseado na detecção de vocalizações depende de um bom entendimento a respeito de como seus padrões de atividade vocal variam com a hora do dia, as estações do ano e as condições locais (Stuart et al. 2012). Os resultados relatados no Capítulo II somam conhecimento ao que já se sabe sobre a variação noturna do comportamento acústico do lobo-guará em ambiente natural. O pico de emissão de vocalizações de longa-distância nas primeiras horas da noite, quando esse animal também atinge seu pico de atividade (Bestelmeyer 2000), sugere importante função para esses chamados no início do período ativos dos lobos.

A maior emissão dos aulidos durante a estação reprodutiva (Dietz 1984, Sábato 2011) reflete a maior importância dessas vocalizações nesse período do ano. No entanto, o único trabalho relatando o padrão anual de emissão dessas vocalizações em ambiente natural foi o de Dietz (1984), o qual não mencionou o uso de gravadores em sua coleta de dados. Dessa forma, há a necessidade de um estudo mais aprofundado e sistematizado da variação sazonal da emissão de aulidos para buscar entender melhor sua função e importância para a espécie.

Quanto às condições ambientais, apesar de já termos observado a influência da velocidade do vento na emissão e detecção das vocalizações, um estudo compreendendo o ano todo também poderia permitir a análise das possíveis variações causadas por outras variáveis ambientais quando as

diferenças meteorológicas são mais acentuadas (estação seca x estação chuvosa, por exemplo). Uma vez que obtivermos as informações que faltam sobre os padrões de emissão de aulidos desse animal e as influências ambientais, poderemos desenvolver um programa de monitoramento acústico eficiente para essa espécie.

Nossos achados do Capítulo II apresentam suporte para ambas as funções propostas para os aulidos na literatura: 1) territorial, de manutenção do espaçamento entre indivíduos (Kleiman 1972) e 2) comunicação dentro dos territórios entre os membros do par reprodutivo, principalmente na época de acasalamento (Dietz 1984) e na presença dos filhotes (Emmons 2012). Um estudo espacial buscando a identificação dos locais de maior emissão desses chamados, se nas bordas dos territórios ou ao longo das áreas de vida, por exemplo, poderia ajudar a elucidar como os lobos utilizam essas vocalizações. O maior número de vocalizações próximo às fronteiras sugere uma função mais territorial, enquanto o maior número de aulidos ao longo do território sugere interação entre o par reprodutivo. O uso de colar GPS poderia ser integrado ao monitoramento acústico para avaliar a variação espacial da atividade vocal.

De modo geral, entender como os animais dentro de uma população se comunicam e o que eles estão comunicando gera conhecimento que pode ser aplicado à conservação (Terry et al. 2005). A individualidade vocal, por exemplo, permite que os indivíduos sejam reconhecidos e diferenciados dos demais somente através de variáveis acústicas de seus chamados. Uma vez que as características específicas de suas vocalizações sejam conhecidas, é possível o monitoramento dos membros da população e a contagem de indivíduos somente através das gravações feitas no local de estudo.

Estudos com individualidade vocal vêm sendo feitos com várias espécies, inclusive muitos canídeos, como o cão-selvagem asiático Cuon alpinus (Durbin 1998), a raposa-orelhuda Vulpes velox (Darden et al. 2003), o cão-selvagem africano Lycaon pictus (Hartwig 2005) e o lobo-cinzento Canis lupus lycaon (Root-Gutteridge et al. 2014). Levando em consideração a sugestão de Brady (1981) sobre a identidade vocal presente nos aulidos, Sábato (2011) apresentou um método de discriminação individual para lobos- guará em cativeiro com base nessas vocalizações, o qual classificou corretamente 80,6% dos chamados. O teste desse método ou sua adequação para ambiente natural representa um desafio que pode possibilitar o desenvolvimento de uma nova ferramenta para monitoramento das populações desse animal.

De modo geral, ainda há muito a ser estudado e entendido a respeito da comunicação acústica desses animais e o surgimento de novas tecnologias de aquisição e processamento dos sons aumenta cada vez mais as possibilidades de realização de trabalhos com esse intuito. Uma vez que tivermos o conhecimento necessário, acredito que a bioacústica possa ser uma importante aliada na conservação do lobo-guará.

REFERÊNCIAS

Bestelmeyer, S. V. 2000. Solitary, reproductive, and parental behavior of maned wolves (Chrysocyon brachyurus). Tese de doutorado, Colorado State University.

Bestelmeyer, S. V. & Westbrook, C. 1998. Maned wolf (Chrysocyon brachyurus) predation on pampas deer (Ozotoceros bezoarticus) in Central Brazil. Mammalia, 62, 591-595.

Blumstein, D. T., Mennill, D. J., Clemins, P., Girod, L., Yao, K., Patricelli, G., Deppe, J. L., Krakauer, A. H., Clark, C., Cortopassi, K. A., Hanser, S. F., McCowan, B., Ali, A. M. & Kirschel, A. N. G. 2011. Acoustic monitoring in terrestrial environments using microphone arrays: applications, technological considerations and prospectus. Journal of Applied Ecology, 48, 758-767.

Brady, C. A. 1981. The vocal repertoires of the bush dog (Speothos venaticus), crab-eating fox (Cerdocyon thous), and maned wolf (Chrysocyon brachyurus). Animal Behaviour, 29, 649-669.

Bueno, A. A. & Motta-Junior, J. C. 2009. Feeding habits of the maned wolf, Chrysocyon brachyurus (Carnivora: Canidae), in southeast Brazil. Studies on Neotropical Fauna and Environment, 44, 67-75.

Buxton, R. T., Major, H. L., Jones, I. L. & Williams, J. C. 2013. Examining patterns in nocturnal seabird activity and recovery across the Western Aleutian Islands, Alaska, using automated acoustic recording. The Auk, 130, 331-341. Carvalho, C. T. D. & Vasconcellos, L. E. 1995. Disease, food and reproduction of the maned wolf: Chrysocyon Brachyurus (Illiger) (Carnivora, Canidae) in southeast Brazil. Revista Brasileira de Zoologia, 12, 627-640. Coelho, C. M., de Melo, L. F. B., Sábato, M. A. L., Magni, E. M. V., Hirsch, A. & Young, R. J. 2008. Habitat use by wild maned wolves (Chrysocyon brachyurus) in a transition zone environment. Journal of Mammalogy, 89, 97-104.

Coelho, C. M., de Melo, L. F. B., Sábato, M. A. L., Rizel, D. N. & Young, R. J. 2007. A note on the use of GPS collars to monitor wild maned wolves

Chrysocyon brachyurus (Illiger 1815) (Mammalia, Canidae). Applied Animal Behaviour Science, 105, 259-264.

Darden, S. K., Dabelsteen, T. & Pedersen, S. B. 2003. A potential tool for swift fox (Vulpes velox) conservation: individuality of long-range barking sequences. Journal of Mammalogy, 84, 1417-1427.

De Melo, L. F. B., Sábato, L., Vaz Magni, E. M., Young, R. J. & Coelho, C. M. 2007. Secret lives of maned wolves (Chrysocyon brachyurus Illiger 1815): as revealed by GPS tracking collars. Journal of Zoology, 271, 27-36. De Melo, L. F. B., Sábato, M. A. L., Vaz Magni, E. M., Young, R. J. & Coelho, C. M. 2009. First observations of nest attendance behavior by wild maned wolves, Chrysocyon brachyurus. Zoo biology, 28, 69-74.

Dietz, J. M. 1984. Ecology and social organization of the maned wolf. Smithsonian Contributions to Zoology, 392, 1-51.

Dietz, J. M. 1985. Chrysocyon brachyurus. Mammalian species, 234, 1-4. Emmons, L. H. 2012. The maned wolves of Noel Kempff Mercado National Park. Smithsonian Contributions to Zoology, 639, 1-150.

Digby, A., Towsey, M., Bell, B. D. & Teal, P. D. 2013. A practical comparison of manual and autonomous methods for acoustic monitoring. Methods in Ecology and Evolution, 4, 675-683.

Durbin, L. S. 1998. Individuality in the whistle call of the asiatic wild dog Cuon alpinus. Bioacoustics, 9, 197-206

Fox, M. W. 1975. Evolution of social behaviour in canids. In: The Wild Canids (Org. por M. W. Fox.), pp. 429-460. Van Nostrand Reinhold, New York.

Frick, W. F. 2013. Acoustic monitoring of bats, considerations of options for long-term monitoring. Therya, 4, 69-78.

Hartwig, S. 2005. Individual acoustic identification as a non-invasive conservation tool: an approach to the conservation of the african wild dog Lycaon pictus (Temminck, 1820). Bioacoustics, 15, 35-50.

IBAMA. 2008. Plano de Ação para a conservação do lobo guará: análise da viabilidade populacional e do habitat. Org.: Paula, R. C., P. Medice, & R. G. Morato. PHVA. Brasília: IBAMA.

IUCN. 2015. IUCN Red List of Threatened Species. Version 2014.3. <www.iucnredlist.org>. Acesso em 17 de abril de 2015.

Jácomo, A. T. A., Kashivakura, C. K., Ferro, C., Furtado, M. M., Astete, S. P., Tôrres, N. M., Sollmann, L.S. & Silveira, L. 2009. Home range and spatial organization of maned wolves in the Brazilian grasslands. Journal of Mammalogy, 90, 150-157.

Kleiman, D. G. 1972. Social behavior of the maned wolf (Chrysocyon brachyurus) and bush dog (Speothos venaticus): a study in contrast. Journal of Mammalogy, 53, 791-806.

Marques, T. A., Thomas, L., Martin, S. W., Mellinger, D. K., Ward, J. A., Moretti, D. J., Harris, D. & Tyack, P. L. 2013. Estimating animal population density using passive acoustics. Biological Reviews, 88, 287-309.

Mazzolli, M. 2009. Mountain lion Puma concolor attacks on a maned wolf Chrysocyon brachyurus and a domestic dog in a forestry system. Mastozoología neotropical, 16, 465-470.

MMA. 2003. Ministério do Meio Ambiente (Brasília, BR). Lista Nacional das Espécies da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção.

<http://www.meioambiente.es.gov.br/download/NovaListaFaunaAmeacaMM A2003.pdf> Acesso em 17 de abril de 2013.

Motta‐Junior, J. C., Talamoni, S. A., Lombardi, J. A. & Simokomaki, K. 1996. Diet of the maned wolf, Chrysocyon brachyurus, in central Brazil. Journal of Zoology, 240, 277-284.

Myers, N., Mittermeier, R. A., Mittermeier, C. G., Da Fonseca, G. A. & Kent, J. 2000. Biodiversity hotspots for conservation priorities. Nature, 403, 853-858.

Petak, I. 2010. Patterns of carnivores’ communication and potential significance for domestic dogs. Periodicum biologorum, 112, 127-132.

Queirolo, D., Moreira, J. R., Soler, L., Emmons, L. H., Rodrigues, F. H., Pautasso, A. A., Cartes, J. L. & Salvatori, V. 2011. Historical and current range of the Near Threatened maned wolf Chrysocyon brachyurus in South America. Oryx, 45, 296-303.

Queirolo, D. & Motta-Junior, J. C. 2007. Prey availability and diet of maned wolf in Serra da Canastra National Park, southeastern Brazil. Acta Theriologica, 52, 391-402.

Rodden, M., Rodrigues, F & Bestelmeyer, S. 2004. Maned wolf (Chrysocyon brachyurus). In: Canids: Foxes, Wolves, Jackals and Dogs. Status Survey and Conservation Action Plan (Org. por C. Sillero-Zubiri, M. Hoffmann e D. W. Macdonald). Pp. 38-44. IUCN/SSC Canid Specialist Group. Gland, Switzerland e Cambridge, UK.

Rodrigues, F. H. G. 2002. Biologia e conservação do lobo-guará na Estação Ecológica de Águas Emendadas, DF. Tese de doutorado, Universidade Estadual de Campinas.

Rodrigues, F. H., Hass, A., Lacerda, A. C., Grando, R. L. S. C., Bagno, M. A., Bezerra, A. M. & Silva, W. R. 2007. Feeding habits of the maned wolf (Chrysocyon brachyurus) in the Brazilian Cerrado. Mastozoología Neotropical, 14, 37-51.

Root-Gutteridge, H., Bencsik, M., Chebli, M., Gentle, L. K., Terrell-Nield, C., Bourit, A. & Yarnell, R. W. 2014. Identifying individual wild Eastern grey wolves (Canis lupus lycaon) using fundamental frequency and amplitude of howls. Bioacoustics, 23, 55-66.

Sábato, M. A. L., de Melo, L. F. B., Magni, E. M. V., Young, R. J. & Coelho, C. M. 2006. A note on the effect of the full moon on the activity of wild maned wolves, Chrysocyon brachyurus. Behavioural processes, 73, 228- 230.

Sábato, V. 2011. Aspectos do comportamento acústico do lobo-guará Chrysocyon brachyurus (Illiger 1815). Dissertação de Mestrado, Universidade Federal de Minas Gerais.

Santos, E. F., Setz, E. Z. & Gobbi, N. 2003. Diet of the maned wolf (Chrysocyon brachyurus) and its role in seed dispersal on a cattle ranch in Brazil. Journal of Zoology, 260, 203-208.

Srbek-Araujo, A. C. & Chiarello, A. G. 2007. Armadilhas fotográficas na amostragem de mamíferos: considerações metodológicas e comparação de equipamentos. Revista Brasileira de Zoologia, 24, 647-656.

Stuart, A., Newman, M., Struik, P. & Martin, I. 2012. Development of a non-intrusive method for investigating the calling patterns of Rufous Scrub- birds. The Whistler, 6, 24-34.

Terry, A. M., Peake, T. M. & McGregor, P. K. 2005. The role of vocal individuality in conservation. Frontiers in Zoology, 2, 10.

Trolle, M., Noss, A. J., Lima, E. D. S. & Dalponte, J. C. 2007. Camera-trap studies of maned wolf density in the Cerrado and the Pantanal of Brazil. Biodiversity and Conservation, 16, 1197-1204.

Veado, B. V. 1997. Parental behaviour in maned wolf Chrysocyon brachyurus at Belo Horizonte Zoo. International Zoo Yearbook, 35, 279-286.

Williams, P. J., Engbrecht, N. J., Robb, J. R., Terrell, V. C. & Lannoo, M. J. 2013. Surveying a threatened amphibian species through a narrow detection window. Copeia, 2013.3, 552-561.