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CHAPTER VI: FINDINGS AND RECOMMENDATIONS

6.2 Recommendations of the study

Instabilidade, incertezas e riscos são as palavras que melhor descrevem o que é percorrer uma carreira atlética cujos objetivos são a superação de limites e a realização. Segundo o imaginário esportivo contemporâneo, um atleta que se pretende vencedor e que, para isso, precisa transcender os próprios limites, nunca estará isento das dificuldades, feridas, derrotas e baixas que inesperadamente podem lhe sobrevir (RUBIO, 2001).

Embora as pesquisas ainda não tenham capturado elementos que sustentam a afirmação de que o término da carreira atlética é um evento traumático, análises qualitativas sobre o tema sugeriram que as experiências forçosas de transição não são vivenciadas sem dificuldades e sofrimento (UNGERLEIDER, 1997; WEBB et al., 1998; BAILLIE & DANISH, 1992; DRAHOTA & EITZEN, 1998). As linhas que separam vitória e derrota, alto desempenho e lesão, continuidade e descontinuidade na carreira atlética, são tênues. Por isso é que a maioria dos casos são marcados por eventos abruptos e acidentes de percurso que levam o atleta a deixar este papel contra a própria vontade, forçosamente (FORTUNATO & MARCHANT, 1999).

institucionais ou que durante o término da carreira atlética não recebem qualquer auxílio para a transição, ilustram a racionalidade competitiva moderna sobre a qual os protagonistas estão submetidos. Em outras palavras, encerramentos inesperados e forçosos são inerentes a uma cultura esportiva contemporânea, sustentada pela hiperutilização e substituição constantes de atletas. Estes são alguns dos indicativos de instabilidade e vulnerabilidade que distinguem atletas da população não-atleta. O término da carreira atlética se anuncia desde o início do engajamento do atleta no esporte. Na maioria das vezes se apresenta como um risco e não como possibilidade. E embora esta realidade seja evidente, a maioria dos aspirantes e atletas continuam sendo estimulados a dedicarem-se apaixonada e segamente ao esporte, sob o pretexto de que só a dedicação exclusiva à carreira poderá levá-los ao êxito (RUBIO, 2001). Dessa forma, os atletas não encontram tempo hábil para tomarem as precauções adequadas frente às imprevisibilidades da carreira atlética e sua fase de transição (PRICE, MORRISON & ARNOLD, 2010).

Conceitualmente, defino término e transição de carreira forçosos como situação de alto nível de estresse resultantes de fatores de ordem externa ou interna que comprometem terminantemente a continuidade da carreira atlética, levando o atleta a se retirar deste papel contra a própria vontade. O atleta ou pós-atleta pode dispor de recursos externos de enfrentamento e adaptação à transição (dinheiro, assistência especializada) e ao mesmo tempo não querer passar pelo processo de saída, o que pode tornar sua transição para outro papel numa experiência emocional e socialmente mais difícil e, em alguns casos, inviável. Por outro lado, ele pode estar desejoso por se retirar do esporte, mas não dispor dos recursos externos de enfrentamento e adaptação à transição, o que torna essa experiência semelhantemente difícil e, por tanto, forçosa.

Término e transição de carreira forçosos também podem ocorrer como processo

de declínio, no qual o atleta e instituição esportiva adiam a decisão de saída; quando o término

é contrariado por retornos subsequentes do atleta à prática esportiva, ou quando ele é subutilizado e paulatinamente preterido em virtude da ascenção de outros atletas, até que seja definitivamente cortado ou decida, forçosamente, se retirar. Esse tipo de encerramento pode ser marcado por situações de humilhação e sentimento de abuso (SINCLAIR & ORLICK, 1993). O processo de declínio atinge o seu ponto crítico quando o atleta não consegue mais suportar as dores físicas ou emocionais causadas por lesões e outras experiências que viveu ao longo da carreira, ou quando aspectos fisiológicos relacionados à idade passam a impor limites ao seu desempenho (TAYLOR & OGILVIE, 1998; TINLEY, 2012; MARKUNAS, 2012.

Estas experiências podem ocorrer com atletas que permanecem obstinadamente na carreira, negando a hora de sairem de cena, seja em virtude do temor acerca do que virá, da construção de uma identidade restrita à figura do atleta ou da vida pública mais vivida em detrimento da vida privada (LALLY, 2007; TINLEY, 2012). Rubio (2001: 179) identificou na dimensão imaginária do esporte contemporâneo uma fase de negação do término da carreira atlética que se assemelha à negação do retorno da jornada mitológica do herói:

Assim como para o herói que viveu a experiência do chamado e da aventura retornar consiste em aceitar o real, depois de ter passado por uma experiência da visão da completeza, que traz satisfação à alma, as alegrias e tristezas passageiras, as banalidades e ruidosas obscenidades da vida; para o atleta, deixar o cenário competitivo é se adequar a um mundo cotidiano do qual há muito ele se afastou e se desacostumou a pertencer.

Nessa obra a autora estabeleceu uma comparação entre a trajetória do atleta e a jornada do herói, sugerindo que o término da carreira atlética corresponderia à última etapa do fechamento de um ciclo da aventura heroica, a priori recusada devido à saída de uma condição significativa rumo às incertezas que a vida comum reserva. Semelhantemente, o atleta estaria sujeito a um período de desencantamento e subsequente relutância em relação ao retorno para a vida cotidiana e o anonimato.

Outros exemplos de encerramentos e transições forçosos nos remetem ao papel do contexto social nestes processos. Sinclair & Orlick (1993) analisaram experiências de pós- atletas olímpicos canadenses e identificaram que muitos desses atletas se sentiram usados, ignorados, esquecidos e descartados quando diante do término da carreira atlética e da certeza de que não seriam reconhecidos social e financeiramente pelo serviço que prestaram. Semelhantemente, Ungerleider (1997) identificou em um grupo de pós-atletas olímpicos norte-americanos implicações negativas e dificuldades de enfrentamento da transição de carreira após terem passado por uma experiência inesperada de encerramento de um ciclo olímpico que antecipou a saída do esporte. Nesse caso especificamente, parte dos atletas estudados foi impedida de participar dos Jogos Olímpicos de Moscou em 1980 devido ao boicote determinado pelo então presidente Jimmy Carter. Essa situação teria frustrando as últimas chances que o grupo estudado tinha de participar dos Jogos.

Em última análise, a carreira atlética é um espaço de tempo em que expectativas de realização ganham maior preponderância do que a percepção e preocupação sobre a sua brevidade e instabilidade. Isso faz com que os atletas de alto rendimento se tornem uma espécie de grupo de risco, sensível não só aos períodos terminais, mas ao mundo que os espera

(BAILLIE & DANISH, 1992). Quando o auto-conceito é unicamente ancorado ao papel de atleta as rupturas se tornam mais difíceis (WEBB et al., 1998), pois os outros papéis sobre os quais seria possível ressignifica-lo não foram devidamente construídos. Por isso, quando se retira do papel de atleta, o indivíduo pode sentir que perdeuparte importante de si mesmo, associando esta experiência à incapacidade de desempenhar e se realizar em outros papéis e esferas da vida (PERSON & PETITPAS, 1990; WEBB et al., 1998; LALLY, 2007; PRICE, MORRISON & ARNOLD, 2010).

A questão dos encerramentos e transições de carreira forçosos ainda depende de analises mais profundas, bem como da avaliação do impacto dos programas de transição que foram desenvolvidos no mundo ao longo dos últimos 20 anos. O que é possível concluir sobre esta questão, a princípio, é que os atletas que encerram suas carreiras por causa de lesões ou por qualquer outro aspecto que contraria suas aspirações de tempo e realização no esporte enfrentam maiores dificuldades de passarem pela transição, se comparados àqueles que realizaram suas metas e tiveram carreiras mais longevas (SINCLAIR & ORLICK, 1993; WEBB et al., 1998; PRICE, MORRISON & ARNOLD, 2010).