A Licenciatura em Educação do Campo da UnB é parte da história da luta dos Movimentos Sociais do Campo, a qual é pautada pela transformação da realidade social. Assim, as concepções e pressupostos que fundamentam esse curso partem da premissa de que não há como pensar uma proposta educativa/formativa desvinculada de um projeto de sociedade e de nação. A concepção de formação docente nesse curso está atrelada ao modelo de desenvolvimento de campo e sociedade defendido pelo movimento da Educação do Campo.
Conforme Gramsci (1982), uma transformação na sociedade pela classe trabalhadora não depende unicamente de sua inserção na luta pelas transformações econômicas, mas de sua organização cultural, do nível de consciência de classe que implica numa preparação política da classe popular que, segundo Gramsci, é atributo não só de alguns, mas da coletividade.
Com base nos referenciais já apresentados, pode-se perguntar: As atividades de IOE e IOC protagonizadas pelos estudantes do Itaúna da segunda turma da LEdoC estão conseguindo produzir contra-hegemonia no “chão da escola” e da comunidade? De que forma? O que dizem os educandos(as) da 2ª Turma da LEdoC sobre a prática da IOE e IOC?
Gramsci está convencido de que para se tornar classe dirigente, para triunfar naquela estratégia mais complexa de longo alcance, o proletariado não pode se limitar a produção econômica, mas deve também exercer sua direção político-cultural sobre o conjunto das forças sociais que, por esta ou por aquela razão, desse ou daquele modo, se opõem ao capitalismo. E, para poder fazê-lo, a classe operária tem de conhecer o efetivo território nacional sobre o qual atua, tem de conhecer e dominar os mecanismos da reprodução global da formação econômico-social que pretende transformar (COUTINHO, 1985 apud SANTOS, 2000, p.19).
Nesse sentido, Gramsci defendia uma educação que atendesse a especificidade, visando a elevação cultural da classe trabalhadora governada. Para esse autor, a dominação da base econômica não é suficiente para alcançar uma transformação social, é necessário elevar a dimensão político-cultural dos sujeitos excluídos da sociedade de classes.
Nessa direção caminha a LEdoC da UnB construindo a formação dos estudantes, futuros educadores e educadoras do campo, ancorada nos referenciais teóricos do “paradigma da complexidade, trazendo-os para a questão do conhecimento e da formação humana” (UnB, PPP, 2009, p.12). Esse paradigma propõe o rompimento da abordagem mecânica, limitada, fechada em si mesma, e se alicerça num pensamento que indaga a verdade do conhecimento produzido na humanidade e o próprio processo de produção desse conhecimento. Propõe um conhecimento que nos ajude a desenvolver uma compreensão do mundo, da natureza e do humano numa perspectiva de totalidade.
Fazendo uso das palavras de Gilvan Santos, da canção Construtores do Futuro: Eu quero uma escola do campo onde o saber não seja limitado, que a gente possa ver o todo e possa compreender os lados [...]. A lógica cantada por Gilvan é a lógica da desfragmentação do conhecimento, a perspectiva desejante do rompimento de fronteiras entre os diversos saberes, a emergência da desnaturalização da forma disciplinar histórica da organização curricular das escolas e, sobretudo, da Universidade. Nesse sentido, a proposta de formação da LEdoC da UnB, conforme consta no projeto do curso, se assenta nos pressupostos da multi, inter e transdisciplinaridade.
[...] o modelo disciplinar integra historicamente a lógica do modo de produção da ciência próprio do modo de produção capitalista (modelo positivista de pensar o conhecimento, a ciência) que é caracterizado pelo isolamento e fragmentação: isolam-se recortes e se constituem campos epistemológicos para produzir a ciência. Mas, em determinado estágio, este isolamento é questionado pela realidade (que não é assim despedaçada), cujos problemas, cada vez mais complexos, exigem a desfragmentação (CALDART, 2010, p.141).
Na continuidade desse raciocínio, é importante destacar que perceber a complexidade da realidade em um dado momento histórico significa entender que as coisas não são isoladas umas das outras. Que a vida não é fragmentada, que ela é movida pelas contradições do real, de tal modo que os processos de produção de conhecimento devem se dar numa relação solidária entre os diversos saberes.
Nessa perspectiva, entende-se que a formação dos educandos(as) na LEdoC se organiza por área de conhecimento não simplesmente para fazer o novo, mas no intuito de buscar ligação entre os diversos campos da ciência, na medida que se estabelece o diálogo entre os “saberes da vida”, os modos de produção de sobrevivência e existência dos povos do campo e os conhecimentos científicos. Nessa dinâmica, possibilita o rompimento da linearidade dos processos escolares construídos ao longo da história. Significa construir outra possibilidade de produção de conhecimentos mais ligada à vida dos sujeitos que os produzem.
Rodrigues (2010), refletindo sobre a organização curricular por área de conhecimento na LEdoC 1ª turma, atesta que a interdisciplinaridade é central para a constituição de um currículo que visa a formação por áreas do conhecimento. Nesse contexto, as estratégias de ações baseadas nos pressupostos teórico-conceituais da multi, inter e transdisciplinaridade, às vezes acontecendo em separados e, às vezes em conjuntos, articulados entre si, permitem uma formação mais integrada com a vida e com a realidade concreta. Por outro lado, entende-se que esses pressupostos articulados com as categorias contradição e totalidade ampliam o processo de compreensão da realidade; aqui, em especial, a realidade dos homens e mulheres do campo.
Vale ressaltar que a presença da categoria contradição é real no processo de formação dos educadores e educadoras do campo na LEdoC, haja vista que ser formado na lógica tradicional e atuar nesse curso é uma contradição, mas, para Aroeira (docente da LEdoC), “é romper com certezas, romper com ou então confirmar certeza de que a forma que você achava que foi formado não era a certa. Você tem outra prática, é você se reprogramar”, se desafiar e estar disposto a reconhecer que existem demandas diferenciadas colocadas nesse processo de formação tanto para o docente, quanto para o educando(a) em relação a outros cursos de formação docente existentes nas Universidades, a exemplo da organicidade do trabalho pedagógico e do trabalho coletivo dentro do referido curso na perspectiva de formar sujeitos coletivos.
O sujeito coletivo (GOHN, 2008) é entendido como aquele que tem a capacidade de interferir nos processos sociais e criar laços de pertencimentos com seus pares. Para Gohn (2008, p.114), “o sujeito é aquele que resiste às ideologias que querem adequá-lo ao mundo ou à comunidade”.
Gohn (2008), ao citar reflexões de Touraine (1994), destaca que, para esse autor, a concepção de sujeito não se contrapõe à de indivíduo, mas ela é uma interpretação muito particular dele e que, na construção do indivíduo como ator, é impossível separar indivíduo de sua situação social. Nesse sentido, “os indivíduos só transformam em
sujeitos por meio do reconhecimento do outro, um sujeito que trabalha, a sua maneira, para combinar uma memória cultural com um projeto instrumental” (TOURAINE,1994 apud GOHN, 2008, p. 115).
Nesse contexto, a pluralidade na composição dos sujeitos coletivos do Assentamento Itaúna, além de evidenciar a natureza de contradições próprias da dinâmica social da comunidade, é necessária para o entendimento direto do desenvolvimento das atividades de Inserção colocadas em prática pelos educandos(as) da LEdoC, pois a diversidade na constituição dos sujeitos coletivos se repete com os sujeitos da escola. A iniciativa de instituir sujeitos coletivos dentro da comunidade configura-se como construção de estratégia contra-hegemônica na perspectiva que contribui para o rompimento da visão hegemônica das formas de lutas e organização na sociedade capitalista.
Entende-se que o sujeito coletivo se constitui no “processo de interação com outros sujeitos, em instituições privadas e públicas, estatais ou não. Sujeitos coletivos expressam demandas de diferentes naturezas, têm capacidade de interlocução com a sociedade, civil e política” (GOHN, 2008, p.113).
Os sujeitos organizados coletivamente têm a possibilidade de articular ações contra-hegemônicas no sentido de desencadear processos na perspectiva da formação dos “intelectuais orgânicos” de Gramsci (1982), capazes de protagonizar mudanças políticas e culturais na sociedade da qual eles fazem parte.