O encontro entre Rosa, os cobradores “negros” e o “chatarrero paisa” aconte-
ceu durante uma longa conversa que tivemos numa sexta-feira. Ela autorizou a grava-
ção da entrevista, realizada na porta de sua casa. As interrupções foram inúmeras e,
por isso, o gravador ficou ligado a maior parte do tempo. O evento começa com a che-
gada dos cobradores que, depois de nos cumprimentar, ficam em silêncio; a reação de
Rosa é imediata. Em uma posição claramente defensiva, ela quebra o silêncio falando alto:
Rosa: El patrón sabe que yo soy puntual, ah entonces… lo que me falta es poquito. Tienen que esperar entonces que haiga plata. Yo no le debo es poquito.
Yo no le debo a él mucha plata. Mucha pena me da mijo [sinto muito meu filho], pero le digo pues que no hay tanta gente que les pague tan puntual,
que se assentaram em territórios de difícil acesso, como as florestas do Chocó e do Darién. Os locais específicos que passaram a ocupar foram as margens dos rios (Losonczy 2006 [1997]) e as áreas próximas aos postos de alfândega, como foi o caso de Turbo, povoado por populações provenientes das áreas próximas a Cartagena, mas também de outras populações negras vindas do Atrato (Uribe 1992b). Isso ocorreu a partir da segunda metade do século XIX, durante o auge extrativista. De fato, fala-se que, com a abolição da escravatura, por volta de 1851, se consolidou uma espécie de movimento colonizador negro. Porém, em 1809, a faixa oeste do golfo até o delta do rio Atrato começou a fazer parte da província independente de Cartagena, o que em parte explica os fluxos de migração entre os dois portos, embora ainda não existisse oficialmente o atual Turbo, fundado em 1847 a partir de um posto de alfândega criado em 1840.
pregúntele al otro patrón. … [silêncio]
Rosa: Vengan el lunes, vengan el lunes. Dejen esa angurria [insistência voraz] que ustedes mantienen… tenían que ser morenos. Por eso es que con mi raza
mía no trato porque son muy alcanzaos… lo que les debo es poquito [risos] el lunes ahí les termino de pagar. Es que así es… yo sé cómo es el moreno. Soy
morena, soy chocoana [gritando].
Cobrador negro 1: Moreno es un apellido!! [falando alto]
Rosa: Negro como sea, que yo soy negra… y quien quita que yo he caminado más que ustedes… es poquito lo que yo les debo [sem gritar, falando baixo].
Saben por qué no les terminé de pagar? Porque eso me llegó el papel de la luz [conta da luz]. Por eso. Yo les pago el lunes. El lunes les guardo su plata,
el lunes les cancelo porque yo no les debo plata bastante… él estuvo la semana pasada por acá, sí, porque él deja mucha mercancía por acá… [referindo-se
ao “chatarrero paisa”]
Cobrador negro 2: Tranquila, tranquila…
Rosa: Ya no les cojo más culebras [crédito ou dívidas], pa´ que sepan… men- tiras que sí les cojo…
[Olhando na minha direção, falando baixo]
Mentiras, no les cojo, yo me quedo con mis paisas [Eu fico com meus “paisas”].
Mi raza mía son muy alcanzaos… es que el jefe de ellos es antioqueño muy querido y él sabe que cuando yo puedo, yo le pago. Él es organizado…
[Meia hora depois chega o “cacharrero paisa”…]
Rosa: Oiga, usted es el del espejo?
Cacharrero: Sí, pero me imagino que ya vino el morenito…
guei com eles]. Yo les di 2000 pesos, 1000 pesos porque no tenía… yo sí tenía plata para pagarles, usted sabe que yo soy puntual, pero les dije: Yo a ustedes
no les vuelvo a coger más nada… me quedo con el otro cacharrero. Entonces, por ir a pagar la luz no salimos de esa cuentica, pero mañana que venga el
hijo mío, ahí salimos…
Cacharrero: Por qué alegó? [“Porque brigou?” falando tranquilamente]
Rosa: Porque ellos vinieron a cobrarme otra vez. Yo les dije: No, mi patrón anda viniendo aquí… Patricia [filha de Rosa] cuánto es que yo le debo? Ellos
no me dieron un papel, no me dieron papelito. Yo ya le debo poquito
Cacharrero: ¿Qué le digo yo? Él le está cobrando el espejo…
Rosa: ¿Apenas el espejo?
Cacharrero: Y las sillitas de las muchachas…
Rosa: Ah! las sillitas de las muchachas. Es que me deben plata. El lunes le pago… porque del espejo le debo poquito…
Cacharrero: Entonces lo que necesite lo pide el lunes…
Rosa: Yo no, yo no padre… yo no les fio a esos muchachos… a esos muchachos no, esos muchachos no me gustan. Por eso les dije, yo no trato con negros. Yo soy negra, pero no me gusta tratar con los de mi raza…
Cacharrero: No, no… Yo le cobro, yo le cobro, lo que me vaya a dejar…
Rosa: Bueno eso sí, porque no me gustan esos pelaos… el lunes viene que yo misma le entrego su plata… el lunes terminamos esa cuenta…
Cacharrero: Para traerle, qué?
Rosa: Después yo le digo. Si trae alguna cosa, yo le compro… oyó? Pero yo a esos negros no. Yo les dije: Él me viene a visitar para que ustedes sepan…
Cacharrero: Ah bueno. No, lo que pasa es que yo estoy abriendo otra cartera [lista de crédito], la otra la cogieron ellos… y yo tengo la que estoy abriendo.
Si quiere páguele a él y seguimos usted y yo!!
Rosa é uma mulher negra, de origem chocoana, de 70 anos, que migrou de Chocó ainda
adolescente; viveu em Panamá e quando retornou a Urabá, na década de 1970, trabalhou nas
plantações bananeiras como cozinheira e fazendo outros serviços “de homem”– em suas palavras.
É dona de uma parentela grande, com sete filhos e mais de duas dúzias de netos. Ela ainda quer
voltar ao rio Atrato. Disse que um de seus maiores sonhos é criar um par de porcos que poderia
vender no Natal para, desse modo, comprar a passagem da panga (bote) que a levaria à sua
terra, ao seu rio – melhor dizendo. Depois de ter ouvido esse fragmento de sua história, chamou
a minha atenção a rejeição e a desconfiança demonstrada em relação aos cobradores negros.
Na visão de Rosa, eles já não são “chocoanos”. Isto explica porque para ela é indife-
rente usar as categorias “moreno” ou “negro” e legítimo falar com agressividade. A despeito
disto, quando o “cacharrero paisa” apareceu, ela mudou o tom de voz, adotando uma postura
mais conciliadora – como aconteceu no debate entre Flor e Lady. O “cacharrero” perguntou
o motivo da discussão e ela respondeu que foi a insistência deles na cobrança, apesar de ela
ter exposto seus argumentos: o pagamento da conta da luz e a ausência do filho, que assumiu
o papel de homem provedor após o assassinato de seu marido em mãos dos paramilitares.
Os jovens cobradores subestimaram ou ignoraram, na visão de Rosa, um valor primor-
dial do mundo ribeirinho: a solidariedade. Este valor permite, até mesmo, prolongar e adiar as
jovens de Apartadó, pois a locadora da casa se torna uma amiga da protagonista, embora ela con-
tinuamente fique devendo o aluguel. Os cobradores deixaram de ser “negros” porque, para Rosa, é
inadmissível que eles estejam desempenhando esse papel. Para manifestar seu profundo incômo-
do, ela chamou os garotos de “alcanzaos” e “angurrientos” [insistentes e famintos] e afirmou não
querer tratar com as pessoas de sua “raça”. A escolha desta categoria –“raça”– parece deixar claro
que não é a questão que os vincula, sendo a solidariedade e a rede de parentesco revitalizada os
norteadores de uma identificação positiva. Por outro lado, levando em consideração as diretrizes
de gênero com relação ao mundo negro em sua matriz ribeirinha, são as mulheres que devem co-
brar e pedir aos homens provedores, e não ao contrário, como de fato ocorreu nessa transação32.
Rosa demonstrou que preferia negociar e tratar com o “cacharrero paisa” e falou sobre
a cordialidade dele e dos “paisas” de modo geral. Destacou que ele é atencioso [“querido”],
até o ponto de considerar seus encontros como visitas, sendo que estas poderiam ser vistas
como operações de troca viabilizadas pela cobrança de parcelas diárias. Ainda que a dívida
32 As mulheres negras de origem chocoana enxergam a cobrança – de dinheiro, comida, roupa e outras mercadorias – ao marido como um aspecto constitutivo da relação, pois elas se encarregam sozinhas da criação dos filhos, além de constituírem o laço entre parentes. Uma vez ouvi o seguinte comentário: “Es que aquí las muchachas no tienen novio [namorado], tienen maridito”. Em Turbo, com sua dinâmica de porto fluvial e marítimo, o dinheiro que deixam as “vueltas” – envíos de cocaína além-mar – em muitos casos permite que um homem tenha “mulher”, “novia” – namorada – e várias “amigas” – amantes. Um pastor evangélico, cujo testemunho é considerado valioso, pois foi guerrilheiro, paramilitar e participou em embarques de cocaína, afirmou haver tido mais de sete mulheres simultaneamente, sendo que com todas elas teve filhos; isto, no auge de sua vida criminal.
seja uma constante no cotidiano dessas populações, agravada pela experiência violenta e pelo
paradigma da perda, a vontade de fazer o pagamento é um ato, entre livre e obrigatório, res-
saltado na fala de Rosa com relação ao vendedor “paisa”. É, no final das contas, um reconhe-
cimento da supremacia econômica dos “paisas”, do poder decorrente disso e da eficácia do
estereótipo construído a esse respeito. Por esta razão, ela destaca a cordialidade, mas também
o fato de ser “organizado”. Não é em vão que, logo que os cobradores chegam sem sequer
descer da moto, Rosa fala do “patrón” [patrão] referindo-se, justamente, ao “cacharreiro paisa”.
Nos percursos diários pelos povoados de Urabá presenciei, inúmeras vezes, a cobrança
dos “gota a gota” e dos “cacharreros”. Quando os cobradores eram “chilapos” e “negros” – ou
sua postura tinha traços mais salientes vinculados a alguma dessas categorias –, o diálogo era
dispensado. Eles mostravam o recibo ou o cartão, a pessoa entregava o dinheiro ou pedia para
voltar depois – e não havia mais troca de palavras. Com os “paisas” era diferente; as perguntas
e até as brincadeiras vinham à tona. Eis porque Rosa fala em visitas e não em cobranças. O
medo das implicações da falta de pagamento era obscurecido pela cordialidade, mas a cobrança
por outros meios continuava sendo ativada pelo agente dono do capital, o agente “organizado”.
No evento em questão, o vendedor “paisa” exerce um fascínio em Rosa. Vemos que ela
aceita a proposta de fechar o crédito com os jovens negros – que administram seu próprio grupo
de clientes – para abrir um crédito com o “cacharrero paisa”, que aproveitou a ocasião para lembrar
que ela não tinha pagado as cadeirinhas das netas. Além disso, animou-a a fazer um novo pedido,
aceitou com aparente tranquilidade perpetuar a dívida. Perpetuar a dívida é consolidar uma relação
com tendência à assimetria, uma assimetria da qual Flor abusou durante a discussão com Lady.
Durante o trabalho de campo em Urabá tive a sorte de manter diálogos telefônicos com
alguns amigos fora de Urabá, amigos com as mesmas preocupações com relação aos efeitos da guerra
na Colômbia e suas degradações decorrentes. Foi Darío Barberena33 que caracterizou os “paisas”
como sendo “cordialmente interesseiros”. Em nosso diálogo foram lembradas várias situações, das
mais comuns no cotidiano de Antioquia às mais graves, até mesmo ancoradas no conflito armado
que desembocou no extermínio e deslocamento de grandes populações. Uma situação corriquei-
ra, por exemplo, é o que ocorre com os taxistas de Medellín e com os atendentes dos caixas dos
supermercados quando falam “con mucho gusto”34 antes da pessoa que fez a compra ou usufruiu
o serviço dizer “Gracias”. Aparentemente não é um ato agressivo, mas a inversão desse diálogo, a
meu ver, demonstra a importância da devolução imediata ou, melhor, da necessidade de ratificar a
33 Formando em Economia, Darío Barberena atuou até o início de 2011 como coordenador do projeto “Legión del Afecto”, o qual vincula, a projetos artísticos e de criação, jovens de regiões e zonas vulneráveis ao recrutamento por parte de diferentes grupos armados e gangues. Barberena tem sido assessor presidencial em diferentes épocas, assim como também foi conselheiro em alguns processos de paz e em projetos de reformulação do mundo rural colombiano na década de 1980. Durante o trabalho de campo, Darío foi um dos meus melhores interlocutores “externos”. Ele acompanhou, à distância, minhas reflexões, encontros e desencontros em Urabá. Suas ligações interurbanas, que renderam longas conversações, além de nossos encontros em Bogotá, ajudaram a delinear boa parte de meus argumentos.
anti-perda, a constatação de um negócio bem-sucedido. Este aspecto contrasta com o paradigma
da perda, instalado em épocas desoladoras na região de Urabá e perpetuado até os dias de hoje.
Eis o pano de fundo que permite o contraste entre as posturas de Rosa e o “cacharrero”, ou, sen-
do mais ousada, até mesmo a oposição entre Turbo e Apartadó, inicialmente colocada por Flor.
Em Urabá, a propagação das “prepago”, nome inspirado nos cartões para carregar crédito
em celulares que não têm plano, é um termo usado para indicar mulheres jovens que cobram
tarifas específicas de acordo à modalidade sexual oferecida. É possível que a proliferação osten-
tosa das “prepago” seja um efeito da mudança nos conceitos de família35 e masculinidade no
mundo “paisa” a partir da crise da indústria antioquenha na década de 1970 e o subsequente
auge do narcotráfico, com suas infiltrações nos grupos paramilitares. Poder-se-ia dizer que é
um fenômeno transversal aos modos de exercer e exprimir o poder em Urabá, demonstrando
certas continuidades: a supervalorização do negócio e do dinheiro, por meio da qual é conce-
dida pouca ou nenhuma transcendência às metas que não tenham um propósito pecuniário
e, de novo, a anti-perda, como a constatação de um negócio bem-sucedido. Em várias dis-
35 No modelo de família “paisa” anterior aos influxos do narcotráfico, a infidelidade masculina era ocasional e quase sempre com prostitutas. Esse tipo de comportamento afiançou a divisão entre a mãe, administradora econômica e moral do mundo doméstico, cuja imagem podia ser sobreposta à da virgem Maria, e a prostituta, seu oposto complementar, depositária das paixões carnais do homem. A partir do ponto de vista do homem, esse comportamento não era objeto de uma rejeição social enquanto fosse mantido em segredo e não comprometesse o patrimônio, a propriedade e o negócio. Na visão de Lady, ainda é possível distinguirl o cuidado que o homem “paisa” tem com relação à descendência, sobretudo, pelo vínculo entre descendência e herança.
cussões entre adolescentes é possível ouvir a seguinte resposta frente à acusação de ser uma
“prepago”: “Puta usted que lo hace gratis, yo por lo menos cobro. Usted ni siquiera tiene precio”.
Até a década de 1960, os membros das famílias “paisas” tradicionais agiam sob o pressupos-
to de que somente os brancos deviam ter acesso ao dinheiro por sua capacidade de trabalho, afinco
e imaginação, qualidades que não eram reconhecidas no “negro”, que podia ser qualquer um com a
cor da pele menos clara, e pobre (Arango 1988). No entanto, a pele mais escura, traço que se somava
ao fato de não demonstrar uma ascendência antioquenha, vinculada a alguma região ou município,
fazia com que fosse comentado abertamente: “Qué buenos tiempos cuando los negros eran negros”36.
Na via dessa reflexão, vale a pena notar que Antioquia é um caso excepcional no senti-
do de não ter abrigado aristocracias escravistas e terratenentes durante a Colônia e na nascente
república. Aliás, foi em Antioquia que se propôs a manumissão de escravos no século XIX. De
modo geral, o empresário mineiro – alicerce da história do povo antioquenho – não conside-
rava rentável ter escravos, e sim, trabalhadores assalariados, principalmente pelas características
36 Uribe e Álvarez (1988) definem três alicerces históricos do povo antioquenho: a estrutura parental consolidada mediante processos de mediação como o “blanqueado”, a sociedade de negócios e o localismo. Convém assinalar uma continuidade dessas tendências abrangentes nas relações entre “antioquenhos” e outras populações, apesar de que a citação faz referência ao período colonial: “Al respecto Manuel Uribe Ángel escribe, a comienzos de la década de 1880: En los tiempos anteriores, desdeñaban de un modo pertinaz el contraer vínculos legítimos con las otras dos razas, consideradas por ellos como inferiores; mas no era tanto el escrúpulo que no entrasen en comercio clandestino con ellas, para matizar colores y borrar las jerarquias” (Uribe e Álvarez 1998: 20- 21).
de seus empreendimentos: pequenas empresas transumantes. Por isso, a lei da Liberdade de
Partos (o equivalente, no Brasil, à Lei do Ventre Livre) foi uma das estratégias para confor-
mar relações trabalhistas mais ajustadas ao tipo de mineração e de comércio preponderante.
A primazia da posse do dinheiro, que corrobora estereótipos e cria caracterizações defi-
nitivas a respeito dos “outros”, está na base do sistema de relações sociais de um “paisa”. Porém, a
propriedade, a posse do dinheiro e sua administração mediante o funcionamento da família, como
unidade de interesses recíprocos que permite a solidez econômica, são os elementos que estão por trás
da expressão “ser organizado” que, na fala de Flor, são negados como qualidades do “negro”, afora o
caso de seu vizinho “moreno”: “um negro que não parece negro”. Já na perspectiva de Rosa, “ser or-
ganizado” e ser “cordial” são requisitos para continuar a relação de intercâmbio com o “chatarrero”.
A primazia do princípio de organização, atrelado à posse do dinheiro, de pro-
priedades e da adequada educação e controle dos filhos, foi evidente durante uma conver-
sa com a dona de uma loja em Urabá, uma mulher “paisa” perto dos 60 anos, cuja famí-
lia tinha migrado para Urabá na década de 1950, garantindo uma pequena fortuna que os
descendentes ainda possuíam. Ela morou durante sua infância em Urabá, embora sua ju-
ventude tivesse como cenário o altiplano de Rionegro, nas montanhas do oriente de Antio-
quia, protegida, deliberadamente, dos perigos de Urabá – principalmente de índole sexu-
al – até seu casamento. Durante um diálogo informal com pessoas de diferentes regiões do
país, ela declarou: “Yo si digo: primero la plata [o dinheiro], después Dios y luego los hijos”37.
Numa perspectiva mais ampla, poder-se-ia concluir que os “paisas” estão respaldados
por um projeto ideológico vinculado a uma sociedade mobilizada historicamente pela mine-
ração de ouro e pelo comércio durante a Colônia e durante a primeira metade do século XIX.
Essa sociedade redirecionou suas estratégias de reprodução social com base na colonização,
com o posterior estabelecimento de plantações de café – no sudoeste de Antioquia, princi-
palmente, no final do século XIX e durante o século XX – e de banana em regiões como
Urabá – a partir da década de 1960 –, assim como também direcionou seus esforços em prol
da industrialização no século XX, cujo epicentro foi Medellín, a capital do departamento.
Mineração, colonização, agricultura de produtos de exportação – incluindo palma afri-
cana e a criação de gado nas últimas duas décadas –, e indústria têxtil – marco da história
antioquenha até o final da década de 1970 – foram atividades promovidas pela elite, tida como
uma das mais “brancas” ou “branqueadas” do país. No entanto, essas atividades, e a “mentalidad
empresarial paisa” que é seu alicerce (Arango 1998), seriam infiltradas em diferentes épocas
um elemento fundamental do projeto “paisa”, que é a mitificação da figura da mãe como eixo articulador da família. Esse aspecto é atrelado, na religiosidade popular, aos cultos à virgem Maria. Essa condição da mulher diz respeito a sua condição naturalizada como eixo das dinâmicas familiares, ainda que em permanente subordinação e exclusão. Por outro lado, é importante salientar que os processos organizativos de mulheres em Urabá, os poucos