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4. Data Presentation and Analysis

5.3 Recommendations for Future Research

Na sequência da exploração que efectuou à região algarvia Bonnet enviou ao governo português, em 1848, uma memória onde relatou o resultado do seu trabalho. Esta oferta tinha o intuito de persuadir o executivo a aceitar os seus préstimos para efectuar uma exploração geológica, mineralógica e geográfica às restantes regiões do país, em moldes

semelhantes aos realizados para a região do Algarve.18 Porém, antes de tomar a

responsabilidade de qualquer decisão, o governo incumbiu a Academia das Ciências de nomear uma Comissão para avaliar do interesse da proposta de Bonnet e da sua competência para a realizar.19 O parecer dado pela Comissão seria totalmente favorável à

contratação do engenheiro francês, mas evidenciava igualmente a necessidade de ser efectuada a descrição geológica e mineralógica das camadas combustíveis, de minas e de nascentes minerais, de ser também elaborada uma carta geológica com cortes dos terrenos,

decidir a contenda a favor do poder cabralista instituído. António Rodrigues (dir.), História de Portugal em datas, Coimbra, Temas e Debates, 1996, pp. 217-218.

15

Charles Bonnet, op. cit. (2), pp. 126-127.

16 A memória descritiva, segundo Bonnet, era acompanhada de uma carta geológica de pequena escala e de algumas cartas parciais, para melhor evidenciar a disposição do terreno. Charles Bonnet, op. cit. (2), p. 127. Todavia, não foi possível provar a existência destas cartas.

17

Charles Bonnet, op. cit. (2), p. 3. 18

“Memorial do Engenheiro Civil Charles Bonnet, offerecendo incumbir-se da Commissão Geologica e Mineralógica do Reino”, s/ data, Relação dos papéis pertencentes á Commissão Geologica e Mineralogica

entrada com officio de 30 de Novembro de 1852 ao Ministério das Obras Publicas Commercio e Industria — Secretaria de Estado dos Negocios do Reino, ANTT, Ministério do Reino, 3ª Direcção, 2ª Repartição, Proc. 392,

Liv. 11, folhs. 3390, 1852.

nivelamentos barométricos, rectificação dos erros da carta geográfica existente para aquela região, entre outras funções a designar futuramente.20

O executivo, ao receber da Academia Real das Ciências de Lisboa uma opinião exaltando a conveniência em aceitar a proposta de Charles Bonnet, decide aceitar os seus serviços. A 21 de Dezembro de 1848 o governo criava oficialmente a Commissão Geologica e Mineralogica, justificando a sua deliberação com o reconhecimento do grande atraso que os estudos geológicos estavam a ter em Portugal face à maioria dos países europeus.21 Os

trabalhos desta Comissão deveriam seguir um plano semelhante ao adoptado por Bonnet, anos antes, durante a exploração que realizara no Algarve. Neste sentido, deveriam ser efectuadas viagens onde seriam recolhidos elementos geográficos, geológicos e mineralógicos, acompanhados de nivelamentos barométricos das diversas regiões de Portugal continental. Para facilitar os trabalhos da Comissão Franzini deveria fornecer

alguns exemplares da carta do Alentejo na escala de 1:200 000,22 os quais serviriam de

base à ilustração dos seus trabalhos de geografia física e de geologia do país, e que seriam sucessivamente publicados com as memórias de Bonnet.

De acordo com o decretado pelo governo a Comissão estaria assim sujeita a uma série de instruções definidas pelos seguintes pontos:23

• fazer a descrição geológica dos terrenos, dos materiais úteis para construção, dos estratos reveladores da presença de combustíveis, das minas metalíferas e das nascentes minerais; essa descrição seria acompanhada de uma carta geológica do país;

• organizar colecções geológicas e mineralógicas;

• fazer o maior número possível de nivelamentos barométricos;

• rectificar os erros da carta geográfica do reino coordenada por Marino Miguel Franzini na qual deveria ser ainda indicada a direcção das montanhas, ribeiras e respectivas nascentes;

• efectuar a recolha de objectos entomológicos e conchilógicos;

• apresentar ao governo, por intermédio do Ministério dos Negócios do Reino, as descrições, cartas e rectificações que tivessem sido executadas; elaborar um

20 Parecer da Academia Real das Sciencias de Lisboa, 22 de Novembro de 1848. Paul Choffat, op. cit. (1). Da comissão faziam parte Agostinho Albano da Silveira Pinto, Filipe Folque, Marino Miguel Franzini e Joaquim da Costa Macedo. J. Carríngton da Costa, “Aspectos da evolução dos serviços encarregados do estudo geológico de Portugal”, Memórias da Academia das Ciências de Lisboa — Classe de Ciências, 5 (1950), 291-302 (292). 21 Este decreto acrescentava ainda que os trabalhos da Comissão deveriam iniciar-se a partir de 1 de Fevereiro de 1849. Cópia do decreto assinado pelo Duque de Saldanha de 21 de Dezembro de 1848, ANTT, Ministério do Reino, loc. cit. (18).

22

Segundo Franzini, fora esta a escala adoptada para todas as cartas parciais das diferentes regiões. Marino Franzini, op. cit. (9), p. 231.

23 Artigo 1º do decreto de 2 de Maio de 1849. Este decreto vem ampliar e explicar as instruções fornecidas na portaria de 31 de Janeiro de 1848, e a que Bonnet estaria sujeito no desempenho da referida comissão. Cópia do decreto assinado pelo Duque de Saldanha de 2 de Maio de 1849, ANTT, Ministério do Reino, loc. cit. (18).

relatório semestral onde seriam expostas as dificuldades surgidas na sequência dos trabalhos, os meios mais convenientes para as remediar, o serviço já concluído e o tempo previsto para a sua completa execução;

• remeter sucessivamente para a Academia Real das Ciências de Lisboa, pelo modo mais conveniente e económico, todas as colecções que eventualmente fossem sendo recolhidas; essas colecções deveriam ser organizadas e classificadas no final de cada trimestre para poderem ser sucessivamente depositadas no Museu.

Naturalmente, o governo nomearia Charles Bonnet para a presidência da Comissão, e para auxiliarem o engenheiro francês seriam designados Joaquim Júlio Pereira de Carvalho24 (?-?) e José Maria da Ponte e Horta25 (1826-?).26 Para despesas iniciais o

executivo aprovaria a concessão de um subsídio de quatro contos de réis, sendo três contos destinados à exploração geológica e mineralógica,27 e um conto para a constituição de um

herbário28 o qual deveria incluir espécies da flora portuguesa. Os restantes artigos do

diploma que nomeia a Comissão Geológica referiam, igualmente, que ficariam às ordens do seu presidente militares ou outros elementos designados pelo governo para o auxiliar no serviço de que fora incumbido. Quanto à remuneração, foi estabelecido que Charles Bonnet teria uma gratificação mensal de 150$000 réis para além de uma soma adicional que não excederia os 100$000 réis mensais para despesas de viagem e transporte de colecções,

devendo este montante ser pago através do Ministério do Reino.29 Não é feita qualquer

menção aos vencimentos que deveriam ser atribuídos aos restantes membros da Comissão, talvez por estar previsto que Bonnet teria de informar o Ministério do Reino sobre o serviço prestado pelos seus auxiliares para depois lhes ser atribuída a respectiva remuneração. No decreto assinado pelo Duque de Saldanha estava ainda subentendido que as autoridades civis e militares teriam de dispensar o auxílio necessário ao desempenho desta missão.30

24

Opositor em Coimbra e Engenheiro de Pontes e Calçadas.

25 Primeiro-tenente de artilharia, lente da 1ª cadeira da Escola Politécnica de Lisboa. 26

De acordo com Franzini, estes dois elementos foram escolhidos pelo próprio Bonnet para figurarem no quadro da Comissão. Marino Franzini, op. cit. (9), p. 231.

27

Artigo 1º do decreto de 30 de Abril de 1849, Diario do Governo, 104, 4 de Maio de 1849, p. 535.

28 Artigo 2º do decreto de 30 de Abril de 1849, ibid. Para a construção do herbário Bonnet escolheria Loulé, por considerar que aquela região algarvia possuía as melhores condições climatéricas e agrícolas, sendo este o principal motivo pelo qual decidiria mais tarde aí fixar residência. Charles Bonnet, op. cit. (1), p. 11.

29

Artigo 5º do decreto de 2 de Maio de 1849. Cópia do decreto assinado pelo Duque de Saldanha de 2 de Maio de 1849, ANTT, Ministério do Reino, loc. cit. (18).

30

Seriam também expedidas ordens às respectivas autoridades civis e militares, para que se prestasse o auxílio necessário a Charles. Bonnet. Artigo 3º e 4º do decreto de 2 de Maio de 1849, cópia do decreto assinado pelo Duque de Saldanha de 2 de Maio de 1849, ANTT, Ministério do Reino, loc. cit. (18). Durante as viagens de Bonnet foram sucessivamente expedidas circulares aos governadores civis, as quais solicitavam o auxílio e cooperação por parte das autoridades locais. Também foram enviadas às autoridades espanholas, por intermédio do Ministério dos Negócios Estrangeiros, documentos para evitar que Bonnet fosse impedido de desempenhar a sua comissão. Relação dos papéis pertencentes á Commissão Geologica e Mineralogica entrada

com officio de 30 de Novembro de 1852 ao Ministério das Obras Publicas Commercio e Industria — Secretaria de Estado dos Negocios do Reino, ANTT, Ministério do Reino, loc. cit. (18).

O diploma que oficializa o início dos trabalhos da Comissão não apresentava qualquer discriminação na verba atribuída para a compra de instrumentos pelo que, provavelmente, o

governo entendera que aquela despesa seria da responsabilidade do seu director.31 De

facto, os instrumentos utilizados nas diversas observações eram todos propriedade de Bonnet os quais, segundo as palavras de Franzini, iam sendo enviados de Paris e eram

construídos por Lerebours.32 Entre os diversos instrumentos usados pode citar-se

barómetros aneróides; barómetros de mercúrio; diversas bússolas, entre elas bússolas de geólogo destinadas a avaliar a inclinação das camadas, duas de grande diâmetro, uma das quais teria precisão para a medição de ângulos de ¼ de grau; um pantómetro repetidor, capaz de medir ângulos com grande exactidão dispensando o uso de sextante; diversos instrumentos para o exame de rochas e minerais, termómetros, entre outros. Para reproduzir serras, cortes e perfis, Bonnet possuía também um daguerreótipo de grande dimensão que, de acordo com Franzini, possibilitava grande exactidão de desenho num tempo muito reduzido.33

No sentido de enriquecer o Museu com colecções, a Academia das Ciências sugeriu também que seria indispensável a existência de uma coordenação entre o governo e as diversas entidades existentes a fim de se reparar a carência que se verificava. No Museu da Academia das Ciências rareavam exemplares, sendo as colecções existentes sobretudo fruto de doações.34 Para tentar colmatar esta lacuna de forma eficaz a Academia aprova,

numa das suas sessões em 1849, algumas instruções sobre a forma conveniente de coligir espécimes, intituladas Breves Instrucções sobre a maneira de colher conchas, Busios, Ouriços, Estrellas, e Plantas Marítimas para a Collecção dos Productos Naturaes de Portugal do Museu da Academia Real das Sciencias de Lisboa.35 Estas instruções foram

escritas de modo a que qualquer indivíduo, mesmo leigo, pudesse efectuar eficazmente a

recolha.36 A estas instruções acrescentou-se ainda um aditamento de Bonnet, o qual

31 Este facto foi mais tarde confirmado por Franzini. Marino Franzini, op. cit. (9), pp. 230-233. 32

Marino Franzini, op. cit. (9), p. 231. 33 Marino Franzini, op. cit. (9), pp. 231-232. 34

Temos como exemplo a doação de Charles Bonnet de 140 exemplares, catalogada e devidamente rotulada. Sessão Litteraria de 23 de Maio de 1849, “Actas das Sessões da Academia Real das Sciencias de Lisboa”, Tomo I-III, Lisboa, Tipografia da Academia Real das Sciencias, 1849-1851, p. 93-96. Acciaiuoli também refere que as colecções até 1852, não estando oficialmente organizadas, iam sendo reunidas graças ao zelo de Carlos Ribeiro. Luís Acciaiuoli, “A Academia Real das Sciencias e a Comissão dos Trabalhos Geológicos do Reino (1857). Uma comemoração centenária”, Separata das Memórias da Academia das Ciências de Lisboa, Lisboa, Academia das Ciências, 1958.

35 Sessão Litteraria de 23 de Maio de 1849, loc. cit. (34), p. 93-96. 36

Por exemplo, esclarecia que por conchas e búzios não se considerava apenas os mariscos que se encontram pelas praias junto ao mar, mas toda a qualidade de “caracóes, e roscas que existem pelos campos (...) como

todos aquelles animaes que tem concha, que existem nas fontes e (...) rios”. Aconselhava-se o período depois

dos temporais para se efectuarem as recolhas nas praias, não se fazendo qualquer distinção entre os exemplares. A escolha deveria ser efectuada entre as que estivessem em bom estado de conservação, sendo preferíveis as que ainda contivessem em si o animal “o qual deve ser tirado (...) por meio de agoa a ferver”. Se os objectos recolhidos estivessem inseridos em rochas não deveriam ser dali destacados, e deveriam ser identificados pelo local onde foram colhidos e pelo nome por que são vulgarmente conhecidos. Também é referido o modo como se deveria proceder à recolha de plantas e à sua secagem (se não fosse possível colher a

solicitava aos responsáveis pelas Capitanias dos Portos que recomendassem aos pescadores para não deitarem fora os materiais recolhidos pelas suas redes, devendo entregá-los às respectivas autoridades.37 A despesa do transporte dos exemplares estaria a

cargo da Academia das Ciências, quer fossem enviados por terra ou por mar.38

As viagens de Bonnet ao serviço da Comissão Geológica e