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4. Data Presentation and Analysis

5.1 Summary

«(…) o Exmo. Duque de Saldanha, (...) satisfará aos desejos que temos de vêr habilitado o M. Bonnet para continuar os seus uteis trabalhos (...) o governo aproveitará esta occasião, habilitando alguns dos nossos jovens mineralogistas e geologos, para accompanharem M. Bonnet nas suas viagens e adquirirem o conhecimento do paiz, e a experiencia de que tanto se carece para tornar proveitosos os conhecimentos theoricos.»

[Franzini, M. M., Artigo extrahido da Revista Universal Lisbonense,

com previa auctorisação do seu redactor, Lisboa, Typographia do

Panorama, 1849, p. 8]

3.1. Actividade da Comissão Geológica e Mineralógica, até

ao advento da Regeneração

Charles Jean Baptiste Bonnet realizou, em 1846, uma viagem ao Algarve, a qual tinha por objecto o estudo geológico e mineralógico do terreno onde se encontrava uma mina de

cobre.1 Durante a sua deslocação àquela região Bonnet apercebeu-se que as cartas

disponíveis apresentavam inúmeros erros não conseguindo, por esta razão, esboçar o

resultado das suas observações.2 Decidiu então realizar uma segunda viagem no ano

seguinte, a qual se destinaria a efectuar um grande número de observações de carácter topográfico, geográfico e geológico. Durante as viagens de exploração efectuadas ao Algarve recolheu também diversas rochas e minerais, reunindo uma colecção de 140 exemplares que decide oferecer ao Museu de História Natural da Academia das Ciências de Lisboa. Também elaborou um mapa na escala de 1:400 000 que endereçaria a diversas

1 De acordo com Paul Choffat, não se conhece exactamente os motivos da vinda de Charles Bonnet para Portugal. Acrescenta também que nunca foi confirmada que a sua vinda se deveu ao facto de ter sido contratado como engenheiro de minas de Buarcos (empresa mineira do Conde de Farrobo). Esta versão baseava-se em informações geológicas que Bonnet teria fornecido a D. Sharpe sobre a serra de Buarcos, e de que teria estado no Algarve, em 1846, para estudar uma mina de cobre. Paul Choffat, “Deux précurseurs de la Commission Géologique du Portugal”, Communicações do Serviço Geologico de Portugal, Lisboa, 7 (1910-1911), 90-109 (90- 91).

Um estudo mais recente sobre Bonnet refere que este engenheiro francês, oriundo de uma família modesta, concluiu os seus estudos em engenharia civil no seu país natal, na especialidade de geologia e de mineralogia. Terá emigrado para Portugal entre 1844 e 1846, provavelmente a convite do Conde de Farrobo, para o estudo da composição geológica e mineralógica do Algarve. Charles Bonnet, Memória sobre o Reino do Algarve.

Descrição Geográfica e Geológica, com um estudo introdutório de José Carlos Vilhena e tradução, actualização

e notas de Maria Armanda T. Ramalho Viegas, Delegação Regional Sul da Secretaria de Estado da Cultura, 1990, pp. 10, 12-13.

2

Charles Bonnet, Algarve. Description géographique et géologique de cette province, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1850, p. 1.

individualidades entre as quais se incluía Marino Miguel Franzini3 (1800-1860), ex-Ministro e

sócio da Academia Real das Ciências. Franzini, ao tomar conhecimento do resultado do trabalho de Bonnet aconselha-o a juntar ao mapa um relatório descritivo dos diversos

estudos realizados.4 O próprio Franzini encarregar-se-ia de publicitar as explorações

efectuadas pelo geólogo francês numa extensa notícia que viria a ser publicada em

Dezembro de 1848.5

Seguindo o conselho de Franzini, Bonnet decide enviar uma memória à Academia das Ciências na qual reuniu factos histórico-políticos, industriais, comerciais e económicos, além de elementos sobre a orografia, corografia, botânica, geologia, climatologia e zoologia do Algarve.6 O conteúdo da sua memória dividia-se essencialmente em duas partes. A primeira

debruçava-se sobre a geografia física e topográfica da região algarvia analisada onde, resumidamente, foram incluídos os seguintes assuntos:7

• posição geográfica e aspecto geral do país;

• orografia, hidrografia, ilhas, profundidade do mar, climatologia, flora e fauna;

• descrição das localidades, da população, da indústria, do comércio e alguns hábitos;

• resenha histórica;

• considerações sobre os melhoramentos a realizar na região.

Na segunda, é apresentada uma descrição geológica sumária do Algarve englobando os seguintes pontos:8

• descrição das rochas, minerais e depósitos;

• classificação dos terrenos e comparação com outras partes do globo;

• causas do abatimento do solo e a sua idade relativa, com algumas informações sobre o terramoto de 1755;

• tabelas das altitudes das principais montanhas e localidades.

Este trabalho, intitulado Algarve. Description géographique et géologique de cette province, acabaria por ser publicado em 1850 sob a égide da Academia das Ciências de Lisboa e valer-lhe-ia a nomeação de sócio correspondente desta instituição.9 Além desta

memória deveria ainda imprimir-se um atlas que conteria as cartas geográfica e geológica

3 Marino Miguel Franzini, deputado, engenheiro militar, inspector da Cordoaria. Existe um estudo de Maria de Fátima Nunes sobre Franzini, intitulado O Liberalismo Português: Ideários e Ciências. O Universo de Marino

Miguel Franzini (1800-1860), Lisboa, Instituto Nacional de Investigação Científica, 1988.

4

Charles Bonnet, op. cit. (2), pp. 1-2.

5 Marino Franzini, “Descripção physica e geologica do Reino do Algarve”, Diario do Governo, 7, 8 de Janeiro de 1849, p. 35.

6

A primeira parte é entregue a 19 de Julho de 1848, e a 2ª parte a 25 de Outubro do mesmo ano. Paul Choffat,

op. cit. (1), p. 91.

7

Charles Bonnet, op. cit. (2). 8 Ibid.

9

Marino Franzini, “Noticia ácerca dos trabalhos da Commissão Geologica dirigida por Mr. Charles Bonnet, nas suas explorações á provincia do Alemtejo em 1849”, Revista Universal Lisbonense, [2], 20 (1850), 230-233 (230).

na escala de 1:200 000,10 no qual se incluiria um grande número de cortes e perfis de

terreno assim como vistas das paisagens e das principais montanhas. No entanto, apesar de Bonnet ter dito na sua obra que bastavam apenas alguns meses para a sua impressão, este atlas nunca chegou a ser publicado.11

Do ponto de vista geológico verifica-se que o trabalho de Bonnet é modesto, não indo muito além de uma descrição da geografia física embora tenha o mérito de ser o primeiro estudo deste tipo sobre a região do Algarve.12 As observações geológicas devem ter sido

negligenciadas em certa medida, pois Bonnet viu-se obrigado a efectuar diversas triangulações e nivelamentos por não existir uma carta geográfica da região, essencial ao levantamento geológico. Na redacção da sua memória faz ainda ressaltar a difícil mobilidade

na região algarvia,13 considerando mesmo este obstáculo quase intransponível

especialmente para quem pretendesse efectuar observações geológicas. Certamente Bonnet deveria ter enfrentado condições muito adversas porque o país estava na altura a ser assolado por mais uma guerra civil,14 e a acção do homem sobre a natureza era quase

10 O mapa seria elaborado a partir de uma cópia de uma carta retirada do Arquivo Militar e cedida por Franzini. Charles Bonnet, op. cit. (2), p. 1.

11 Paul Choffat, op. cit. (1), p. 91. Todavia, da autoria de Bonnet é publicado, em 1851, um Mappa Geographico

da provincia do Alemtejo e do Reino do Algarve, indicando os districtos, concelhos com suas divisões respectivas, freguesias notaveis, serras, rios e ribeiros principaes, pontes, estradas, etc. (escala de 60 milhas,

137 m/m). Charles Bonnet, op. cit. (1), p. 16.

12 Sobre o trabalho de Bonnet, Choffat refere que o engenheiro francês estava ao corrente da ciência da época, representando o exame estratigráfico efectuado um progresso notável comparativamente aos trabalhos que Link e Eschwege tinham realizado algumas décadas antes. Paul Choffat, op. cit. (1), p. 92. Ver também do mesmo autor, “La géologie portugaise et l’oeuvre de Nery Delgado”, Extracto do Boletim da Sociedade Portuguesa de

Sciencias Naturaes, 3 (1909), 1-35 (8-9). Ver ainda a obra de H. Link, Geologische und Mineralogische Bemerkungen auf einer Reise durch das südwestlich Europa, besonders Portugal, publicada em 1801, e do

Conde de Hoffmansegg, Voyage au Portugal par le Comte de Hoffmansegg, publicada quatro anos mais tarde que, apesar de pretenderem fazer o estudo da flora da península, contêm algumas observações geológicas. Wilhelm Ludwig, Barão de Eschwege, veio para Portugal em 1803, tendo sido encarregado da direcção dos altos-fornos da Foz-do-Alge e da inspecção das minas de ferro. Mais tarde foi nomeado Intendente Geral, como sucessor de Andrada e Silva, que em 1819 regressara ao Brasil, sua terra natal. São de salientar as obras

Nachrichten aus Portugal und dessen Kolonien, mineralogischen und bergmännischen Inhalte, etc. (1820), a Memoria geognostica ou golpe de vista das differentes rochas de que é composto o terreno desde a serra de Cintra, na linha de noroeste e sueste até Lisboa, atravessando o Tejo até á serra de Arrabida, e sôbre a sua idade relativa (1831), e Geognostische Verhältnisse der Gegend von Porto nebst einer Beschreibung des bei S. Pedro-da-Cova, allegend Steinkolhenlager, etc. (1833).

13

Segundo Bonnet, a “estrada real” que ligava o Algarve à capital, não passava de uma designação pomposa para um caminho acidentado e perigoso: “(...) il y a dans la partie appelées Beira-mar, des chemins passables

pendant l’été et transitables pour des voitures, mais qui se trouvent défoncés pendant les pluies.Sur le restant de la surface, (…) on ne doit pas donner le nom (…) ni même de chemins, à des sentiers souvent très scabreux et à peine transitables pour des cavaliers.” Charles Bonnet, op. cit. (2), pp. 121, 126.

14 Em 1846 ocorrem um conjunto de motins populares, a rebelião da Maria da Fonte, que despertam em Abril, desencadeados espontaneamente por camponeses contra as novas leis de saúde e de reforma do sistema tributário decretadas pelo governo de Costa Cabral. Este movimento eclode primeiro no norte do país (Vieira do Minho), e veio, posteriormente, colher o apoio dos sectores políticos afectos aos miguelistas, setembristas e cartistas dissidentes, cujo objectivo era, sobretudo, derrubar o governo de Costa Cabral, que acaba por se exilar em Espanha. Forma-se então um novo ministério chefiado pelo Duque de Palmela, mas em Outubro dá-se um golpe de Estado organizado a partir de Madrid e dirigido por Saldanha. De Outubro a Junho de 1847 decorre a segunda fase das sublevações iniciadas com o movimento da Maria da Fonte, a Patuleia. Esta revolta é comandada por miguelistas, setembristas e cartistas dissidentes, contra o que consideravam como o ministério ilegítimo de inspiração cabralista. Formam-se juntas revolucionárias em diversos pontos do país que se rebelavam contra o governo da capital. Este, achando-se incapaz de dominar as forças revoltosas, solicita, ao abrigo da Quádrupla Aliança, a intervenção de Espanha, França e Inglaterra. Esta ingerência estrangeira iria

inexistente: o solo estava praticamente virgem, havia uma ausência quase total de redes viárias, as pedreiras e minas rareavam. Estas condições eram particularmente importantes para os estudos de campo por geralmente colocarem a nu fósseis e estratos, acabando por poupar muito tempo ao observador. Bonnet chegou mesmo a referir que durante o reconhecimento geológico efectuado confiou sobretudo na sua sagacidade, pois apenas pôde recorrer ao exame das escarpas naturais.15

A segunda parte da sua memória divide-se, essencialmente, em três secções.16 Na

primeira é dada uma descrição das rochas que entram na constituição dos terrenos; a segunda ocupa-se da sua classificação; a terceira aborda a tectónica e os efeitos produzidos pelos vários tremores de terra. Trata-se de um esboço muito geral, tendo sido reconhecido, pelo próprio Bonnet, a necessidade de ser realizado um estudo mais aprofundado para rectificar erros e identificar as diferentes formações que compunham a região sul de Portugal continental.17