Responsabilidade moral está, tradicionalmente, conectada com a capacidade para responder às razões. Porém, essa conexão tem sido defendida e desenvolvida em diferentes modos dependendo da teoria adotada.
Apesar de muitas noções presentes no livro Responsibility and Control: A Theory of Moral Responsibility, de Fischer e Ravizza, sejam familiares de publicações mais antigas, o livro estende muitos dos seus argumentos anteriores. Por exemplo, a noção fundamental de capacidade moderada para responder às razões, no modo apropriado, não é mais considerada como suficiente, pois as ações podem resultar a partir de um mecanismo responsivo às razões, porém podem não pertencer ao indivíduo de um modo correto69.
De acordo com a teoria de Fischer, a responsabilidade moral envolve o controle de direcionamento, e esse controle não exige possibilidades alternativas ou capacidade para fazer de outro modo (isto é, o controle regulativo). Nesse sentido, a responsabilidade moral de um agente por uma ação depende das características da sequência real resultante na ação ao invés da sequência alternativa. Partindo dos exemplos de Frankfurt, eles adotam uma abordagem baseada em mecanismos ao invés de uma abordagem baseada no agente. O mecanismo deveria ser responsivo às razões, não o agente. A tese central e a inovação no livro de 1998 seria que o agente exibe o controle de direcionamento da sua ação se o mecanismo resultante na sequência real é o seu próprio mecanismo moderadamente responsivo às razões. Esse controle seria compatível com o determinismo causal.
69 O capítulo 7 e 8 do livro tratam de dois conceitos conectados à responsabilidade: uma noção histórica
Em artigos anteriores à publicação do livro de 1998, Fischer e Ravizza apresentaram um grau fraco e forte da capacidade para responder às razões.
A capacidade para responder fracamente às razões ocorre nas seguintes condições:
Mantendo fixo o tipo de mecanismo real, e então simplesmente é exigido que exista algum cenário possível (ou mundo possível) -com as mesmas leis do mundo real-no qual existe uma razão suficiente para fazer de outro modo, o agente reconhece essa razão, e o agente faz de outro modo (FISCHER; RAVIZZA, 1998, p. 63).
Para explicar esse grau de capacidade para responder às razões, vejamos o exemplo do assassino em série. Vamos imaginar que ele entre numa sala de aula e atire com a sua metralhadora contra os alunos e o professor. Digamos que há uma razão suficiente para fazer de outro modo em um mundo possível, qual seja, se um aluno no fundo da sala estivesse manuseando um celular, então essa seria a razão para que ele não atirasse. Esse seu comportamento se enquadraria no grau fraco de capacidade para responder às razões, pois estando presente a razão suficiente para fazer de outro modo ele agiria conforme essa razão.
Então, adotando o critério da capacidade fraca para responder às razões, poderia se dizer que o assassino seria moralmente responsável pela ação exercida? O problema com esse grau de capacidade para responder às razões é que com ele não se pode compreender a motivação do assassino. Como que a presença de alguém com um celular poderia contar como uma razão forte o suficiente para impedir alguém de cometer um crime? (FISCHER; RAVIZZA, 1998, p. 65). É preciso fortalecer esse grau da capacidade para responder às razões, pois uma capacidade fraca acabaria abrangendo agentes incapacitados.
Uma opção para evitar esse problema seria fortalecer a capacidade para responder às razões. Supondo que um mecanismo K na realidade resulte em uma ação, a capacidade para responder fortemente às razões ocorreria nos seguintes cenários:
se K operasse e existisse razão suficiente para fazer de outro modo, o agente
reconheceria a razão suficiente para fazer de outro modo, e escolheria fazer
de outro modo, e faria de outro modo. Em outras palavras, nas circunstâncias em que o mecanismo opera, na realidade, se existem razões suficientes para o agente fazer de outro modo, três condições devem ser satisfeitas (...): o agente deve assumir as razões como suficientes, escolher de acordo com as razões suficientes, e agir de acordo com a escolha. Assim, podem haver três tipos de falhas da “sequência alternativa”: falhas na conexão entre que razões existem e que razões o agente reconhece, na conexão entre as razões do agente e sua escolha, e na conexão entre a escolha e a ação (FISCHER; RAVIZZA, 1998, p. 41).
Quando existem razões suficientes para realizar uma ação, mas o agente não reconhece essas razões, pode se dizer que há uma falha em ser receptivo a essas razões. Quando essa falha ocorre, é por causa de alguma incapacidade mental, como psicose. Já quando a falha ocorre na conexão entre as razões do agente e sua escolha, então há uma falha de reatividade, de não ser apropriadamente afetado pelas crenças. O agente, nesse caso, reconhece certas razões como suficientes para a realização de uma ação, porém não escolhe conforme esse reconhecimento70. A carência de reatividade envolve tanto o comportamento compulsivo como aquele resultante da fraqueza da vontade e da fobia. E, por último, há a possibilidade de falha na conexão entre a escolha e a ação. Aqui se encaixaria novamente o comportamento resultante da fraqueza da vontade e de incapacidades físicas.
Supondo que nenhuma dessas falhas ocorresse no cenário alternativo, e o mecanismo K operasse, então o mecanismo operativo na realidade seria fortemente responsivo às razões. Fischer e Ravizza acreditam que a conexão forte entre as razões e as ações é sem dúvida desejável, porém eles acreditam que essa capacidade para responder fortemente às razões não seja uma condição necessária para o controle de direcionamento e a responsabilidade moral, pois, do contrário, praticamente ninguém agiria livremente ou seria moralmente responsável pelo o que fizesse (FISCHER; RAVIZZA, 1998, p. 42).
Para ter o controle de direcionamento seria necessário que o mecanismo resultante no comportamento seja apropriadamente responsivo às razões. Visto que tanto a capacidade fraca para responder às razões como a forte seriam inapropriadas, então o mecanismo adequado deveria ser moderadamente responsivo às razões (FISCHER, 2006, p. 318).
A capacidade moderada para responder às razões é constituída por dois elementos: (i) moderadamente receptivo às razões e (ii) fracamente reativo às razões. Ser receptivo às razões significa ser capaz de reconhecer quais razões contam como suficientes para a ação. E ser reativo às razões significa ser capaz de reagir às razões de um modo apropriado. Uma das modificações na estratégia dos autores consiste em estipular uma condição de competência moral, pois “o tipo de capacidade para responder às razões que é exigido para a responsabilidade moral deve ser caracterizado não meramente como uma capacidade para responder às razões, mas como uma capacidade para responder a um conjunto de razões que incluam razões morais”
70 A noção de “razão suficiente” utilizada pelos autores significa que quando um agente reconhece uma
razão como suficiente, isso quer dizer que essa razão justifica um certo curso de ação. Nesse sentido, razão suficiente estaria associada à ideia de justificação, de que uma razão é mais forte ou melhor para uma determinada ação (FISCHER; RAVIZZA, 1998, p. 41n13).
(FISCHER; RAVIZZA, 1998, p. 81). Dito de outro modo, a competência moral implica que o agente deveria ter a capacidade para reconhecer as razões morais.
A caracterização do conceito de receptividade e de reatividade é indicada não apenas por preocupações sobre a competência moral. Fischer e Ravizza estariam também preocupados sobre a sanidade dos agentes. O exemplo do assassino representa o grau fraco da capacidade para responder às razões de um modo bizarro, na medida em que seu comportamento é “evidência da sua insanidade e consequente carência de responsabilidade” (FISCHER; RAVIZZA, 1998, p. 65). Esse caso é enigmático, pois não podemos entender a sua motivação se a presença de alguém manuseando um celular deveria contar como a única razão forte o suficiente para impedi-lo de atirar com a sua arma71.
Em resumo, uma das condições para que o comportamento do agente possua o controle de direcionamento é que ele resulte a partir de um mecanismo moderadamente responsivo às razões. A capacidade moderada para responder às razões implica uma assimetria entre os elementos de receptividade e de reatividade: “enquanto responsabilidade moral exige que o agente aja a partir de um mecanismo que mostre regularidade em reconhecer as razões, essa mesma demanda não pode ser feita com respeito à reatividade” (FISCHER; RAVIZZA, 1998, p. 81). O agente deveria agir a partir de um mecanismo que é regularmente receptivo às razões e fracamente reativo à elas para poder apropriadamente ser moralmente responsável.
O agente deveria exibir um padrão apropriado de reconhecimento de razões. A seguinte citação explica como esse pradrão deve ser entendido:
nós queremos saber se (quando agindo a partir de um mecanismo real) ele reconhece como as razões se ajustam, consegue distinguir que uma razão é mais forte do que a outra, e entende como a aceitação de uma razão como suficiente implica que uma razão mais forte deve também ser suficiente (FISCHER; RAVIZZA, 1998, p. 71).
Dito de outro modo, para que o agente seja responsável o seu comportamento deveria ser resultante de um mecanismo regularmente receptivo e fracamente reativo às razões e que exiba um padrão adequado de reconhecimento de razões. Além disso, a reatividade fraca às razões “é toda a reatividade exigida para a responsabilidade moral” (FISCHER; RAVIZZA, 1998, p. 73), pois “se o mecanismo de um agente reage a algum incentivo para fazer de outro
71 É necessário também que a capacidade para responder às razões mostre um “padrão compreensível
de reconhecimento de razões minimamente baseadas na realidade” (FISCHER; RAVIZZA, 1998, p. 73). Essa exigência serve para indicar que é indispensável que o agente não esteja iludido sobre a natureza da realidade.
modo do que ele na realidade faz, isso mostra que o mecanismo pode reagir a qualquer incentivo para fazer de outro modo” (FISCHER; RAVIZZA, 1998, p. 73).
Fischer e Ravizza acreditam que os exemplos de Frankfurt ajudam a focar mais cuidadosamente nas características da sequência real resultante na ação. Em outras palavras, esses exemplos auxiliam no desenvolvimento de uma explicação da sequência real que leva a “uma abordagem para a responsabilidade moral que não exige possibilidades alternativas” (FISCHER; RAVIZZA, 1998, p. 37). Em contraste com as teorias tradicionais, o modelo da sequência real defende que o importante é o que o agente faz na realidade. Na perspectiva dos autores, seria inútil desenvolver uma interpretação desse modelo deslocando o foco do agente e suas propriedades para o processo ou o mecanismo que na realidade leva à ação. Partindo de um exemplo de Frankfurt, por exemplo, o agente não poderia ter feito de outro modo, e portanto, ele não seria responsivo às razões. Porém, o mecanismo a partir do qual ele age na realidade seria responsivo às razões, embora o mecanismo que teria operado no cenário alternativo não seja responsivo às razões (FISCHER; RAVIZZA, 1998, p. 38).
Apesar das modificações nos conceitos centrais da teoria de Fischer, algumas críticas permanecem em relação à proposta atualizada. A seguir tratarei da crítica feita por Gary Watson.