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4.2.1 História de vida e engajamento político: a fundação da ALN

A linha “pacífica” adotada pelo Partido Comunista após o golpe militar em 1964, além de causar descontentamentos entre membros do partido, deu margem para a formação de grupos políticos armados que atuaram em combate direto à ditadura, entre eles, destacou-se a Aliança Libertadora Nacional (ALN), cujo líder e responsável pela sua fundação foi Carlos Marighella. Segundo Betto: “A deterioração das

relações de Marighella com o seu partido acelera-se na medida em que o novo regime militar se arma de recursos arbitrários assegurados por leis emanadas do Executivo.”385

Eleito deputado na Assembléia Nacional Constituinte pelo Partido Comunista, em 1946, pelo Estado da Bahia, Marighella, há algum tempo discordava de algumas teses do partido, sobretudo, em relação à forma de resistência à ditadura. Em 1966, escreveu A Crise Brasileira, onde formalizou suas críticas ao partido, “destacando a importância do

trabalho junto dos operários e camponeses e a necessidade da luta armada popular como o caminho da ditadura e para a instalação de um Governo Popular Revolucionário”386.

Desta forma, foi paulatinamente voltando suas intenções para um trabalho desenvolvido no campo. De acordo com Gorender, “o que

há de mais novo em A crise Brasileira é um esboço de proposta de luta de guerrilhas acopladas ao movimento camponês. Contudo, a guerrilha

385 FREI BETTO. Batismo de Sangue: os dominicanos e a morte de Carlos Marighella.

Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1982. p. 22.

rural é declarada segunda frente, forma de luta complementar destinada a viabilizar a luta nas cidades.”387.

Nas críticas à Executiva do Partido Comunista, Marighella denunciou a falta de ações diretas com os camponeses. E, segundo sua avaliação na época, “o PCB abandonou o caminho revolucionário e, por

isso, perdeu a confiança do proletariado e transformou-se em ‘auxiliar da burguesia.’”.388 Mediante tais divergências políticas, em dezembro de

1966, Marighella decidiu romper relações com o partido389 por acreditar

em uma diferente alternativa de transformação política no país: “Diante

da indefinição do partido quanto à maneira de por fim ao regime militar, Marighella propugna com insistência a tese de um novo caminho para a revolução, caminho da saída pacífica, esta sim irrealizável e ilusória”.390

E, dessa forma, Marighella passou a idealizar a luta armada no país. No mês de agosto de 1967, participa da I Conferência da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS) 391, em Havana,

com participação de revolucionários de todo o continente. Esse encontro reafirmou suas propostas políticas para o Brasil. Sua intenção era promover a revolução no país imediatamente. Durante o período de permanência em Cuba, escreveu Algumas questões sobre a Guerrilha no

Brasil392, difundido posteriormente entre os dissidentes do PCB que

aderem sua posição política, formando o Agrupamento Comunista de São Paulo.

387 GORENDER, 1998. p. 104. 388 FREI BETTO, 1982. p. 25.

389 “Sua carta à Executiva, escrita no Rio, é datada de 1º de dezembro de 1966, e vai direto ao assunto que o levara a escrevê-la: ‘Prezados Camaradas: escrevo-lhes para pedir demissão da atual Executiva. O contraste de nossas posições políticas e ideológicas é demasiado grande e existe entre nós uma situação insustentável (...)’.”

Idem, p. 24.

390 Idem, p. 27.

391 “A I Conferência da OLAS se tratava de um ‘congresso’ promovido pelo Partido Comunista Cubano que havia sido reorganizado após a Revolução. O objetivo da OLAS era impulsionara luta revolucionária na América Latina”. NOVA, Cristiane; NÓVOA,

Jorge (orgs.). Carlos Marighella: um homem por trás do mito. São Paulo: Editora Unesp, 1999. p. 129.

392 “Algumas questões sobre guerrilha no Brasil, Pronunciamento do Agrupamento

Comunista de São Paulo”. Carlos Marighella Chamamento ao povo brasileiro, 1969. Coletânea de documentos.,. Ver em GORENDER, 1998. p. 110.

Em Algumas questões sobre a Guerrilha no Brasil, Marighella define a guerrilha como “caminho fundamental e mesmo único, para

expulsar o imperialismo e destruir as oligarquias, levando as massas ao poder e não mais uma das possíveis formas de luta”393.

No que se refere às estratégias para implantação da guerrilha, o campo e não os centros urbanos foram escolhidos como palco de atuação política. Na concepção do líder revolucionário, o trabalho realizado nas cidades deveria ser complementar à guerrilha rural: “Ele

antevia assim, três fases para que esse projeto fosse vitorioso: um – ‘planejamento e preparação da guerrilha’; dois – ‘lançamento e sobrevivência da guerrilha’, três – ‘crescimento da guerrilha e sua transformação em guerra de manobras’”394. Para tanto, esse movimento

deveria começar isoladamente, através de pequenos grupos até atingir o apoio político das massas.

Do Agrupamento Comunista de São Paulo, será constituída a ALN, grupo de atuação política de extrema-esquerda. Segundo orientações definidas em seu Pronunciamento395, em fevereiro de 1968,

também divulgadas no Jornal do Brasil:

“O Brasil é um país de área continental e, por conseguinte, apropriado para a ofensiva estratégica da guerrilha, que precisa de espaço para mover-se. A guerrilha brasileira tem que estar educada para operações móveis, desde as mais elementares às mais complexas, pois uma guerra revolucionária prolongada no Brasil será uma guerra de movimento. A ofensiva estratégica, como método principal de conduzir a luta armada, proporciona o máximo de iniciativa à guerrilha, e uma liberdade de movimentos que não é permitida ao inimigo, lançado aos azares de uma perseguição interminável em áreas rurais (...) Deve ser exposto às massas

393 NOVA; NÓVOA, 1999. p. 131. 394 Idem, ibid.

395 “O Pronunciamento do Agrupamento Comunista de São Paulo esboça um tipo de organização moldado para tarefas da luta armada e oposto à estrutura tradicional do partido comunista (...) O Pronunciamento afirma que a reorganização de um partido político implicaria o retorno à rotina burocrática e serviria de emperramento à luta revolucionária”. Ver GORENDER, 1998. p. 105.

com muita clareza e objetivo político da guerrilha, ou seja, a expulsão do imperialismo dos Estados Unidos e a destruição total da ditadura e suas forças militares, para, em conseqüência, estabelecer-se o poder do povo (...).”396

Fundada ainda o ano de 1968, a ALN destacou-se como uma das principais organizações de esquerda no país, cuja atuação ganhou destaque devido às sucessivas ações armadas nas cidades. Para que fosse estruturada, a ALN contou com uma rede nacional de apoio, na qual o próprio Marighella desempenhou a função de interlocutor. No quadro da organização estavam muitos jovens oriundos do movimento estudantil.

As ações armadas deflagradas nos centros urbanos tinham por objetivo a captação de recursos e garantir infra-estrutura para a implantação da guerrilha rural. Os militantes que formaram os Grupos Táticos Armados (GTAs) realizavam assaltos a bancos, roubo de armas e carros, entre outras ações que garantiam a sobrevivência da organização durante um determinado período.

As funções dos militantes dentro da organização eram determinadas conforme o desempenho e habilidade de cada um. Nos respectivos anos de 1967, 1968 e 1969, seguiram para Cuba, turmas de jovens adeptos à luta armada para realização de treinamentos de guerrilha. Portanto, a organização dispunha de membros preparados para realização de ações armadas no país e também de pessoas sem nenhum preparo político, movidos apenas por ideais revolucionários. De acordo com Betto: “A prática revolucionária restringia-se quase que exclusivamente às ações armadas que, sem apoio popular, tornavam-se cada vez mais vulneráveis à ofensiva da repressão.”397

Para fins de realização da guerrilha rural, a ALN apontou estrategicamente áreas de atuação, entre elas destacou-se a “frente de

396 Marighella apresenta guerrilha rural como tática certa de luta. Rio de Janeiro, Jornal do Brasil, Caderno 1, 15 set. 1968. p. 20.

massas”398, responsável em ganhar o apoio da população à causa

revolucionária e, por conseguinte, a adesão de novos quadros para a organização.

Em 1968, a repressão política agiu com violência contra os movimentos de oposição e as organizações estudantis foram alvo fácil de perseguições. O fracasso do Congresso da UNE, em Ibiúna, em outubro de 1968, sinalizava as dificuldades de organização desses movimentos sociais, onde os espaços de mobilizações políticas ficaram cada vez mais restritos. Muitos desses jovens, na impossibilidade da ação, partiram para a luta armada e para clandestinidade.

No final desse mesmo ano, a prisão de um militante da ALN foi o caminho para que a ditadura chegasse à Marighella. Submetido a torturas, o jovem informou sobre a organização e apontou o nome do líder da ALN como mentor das ações de assaltos no país. A partir de então, “jornais e revistas publicaram longas matérias a respeito do líder

comunista, chefe dos assaltos até então indecifráveis (...) Os órgãos de repressão policial fazem dele o inimigo público número um”.399

As intensificações das ações urbanas no ano de 1969 levaram Marighella a redigir o Minimanual do guerrilheiro urbano400, no qual o

líder comunista informa, em detalhes, o comportamento e os cuidados que cada guerrilheiro deve adotar nas grandes cidades. Por conta dessa exposição, esse ano também marcou o declínio das organizações armadas, onde as forças de repressão irão agir rapidamente no combate à chamada subversão. As constantes prisões e os mecanismos de tortura cada vez mais sofisticados facilitaram o acesso dos órgãos de segurança aos principais nomes das organizações401, sobretudo, a ALN.

398“A ALN apontava como três as suas principais áreas de atuação, ainda concentradas no perímetro urbano: 1. a frente de guerrilha urbana, que ocupava das ações armadas; 2. a frente de massas (já mencionado); 3. a frente de sustentação, que realizava serviços práticos co-administrativos de organização da infra-estrutura conseguida pela organização”. NOVA; NÓVOA, 1999. p. 141.

399 GORENDER, 1998. p. 109.

400 MARIGHELLA, Carlos. Minimanual do guerrilheiro urbano. In: LOPES, Adérito.

(org.) Minimanual do guerrilheiro urbano e outros textos. Lisboa: Assírio e Alvim, [s.d.].

401 “Em 24 de setembro, os membros da GTA (Grupo Tático Armado) da ALN, Manoel Cyrillo e Luís Baboni foram pegar um carro frio que haviam deixado estacionado na Alameda Campinas, mas, ao perceberem que se encontravam observados pela polícia,