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Para Yves Lacoste (1997, p. 23), o mapa não é gratuito nem desinteressado: trata-se de um instrumento para a dominação do espaço e das pessoas que nele vivem. Sua confecção, difícil, longa e onerosa, demanda o domínio matemático e político do espaço representado, sendo, por isso, historicamente relacionada ao aparelho de Estado87.

Del Gaudio (2003) discute a forma como os mapas políticos em pequena escala canalizam nossos sentimentos e entendimentos com relação ao território que habitamos. Ela afirma que, mais que um instrumento de dominação, o mapa “é artifício de formação da identidade nacional e de amor à pátria” (Ibid., p. 57). Isso porque ele apresenta signos fixos e constantes capazes de neutralizar/ocultar a contradição entre o que já está dado e o que pode acontecer, evitando, assim, conflitos, dissensos e incertezas. Dessa forma, “fornece aos sujeitos uma resposta ao desejo metafísico de identidade”, oferecendo “à sociedade fundada na divisão e na contradição interna uma imagem capaz de anular a existência efetiva da luta, da divisão, da contradição” (CHAUÍ, 2007, p. 38).

Como são poucas as pessoas que elaboram os mapas e poucas as que sabem utilizá-lo efetivamente, o estabelecimento da relação imaginária dos sujeitos com o território por meio desse tipo de representação passa a depender da mediação do especialista, o cartógrafo. Essa dependência reforça o poder do mapa como instrumento de controle socioespacial (DEL GAUDIO, 2003, p. 60).

O geógrafo inglês John Harley (2001apud ARANGO, 2007) discutiu a necessidade de reconhecer o cartógrafo como um sujeito social, imerso nas tramas do poder que configuram a realidade social de seu tempo. Assim, indicou que o mapa por ele produzido carrega em si as técnicas disponíveis em sua época num determinado lugar, além de aspectos de sua subjetividade, carregada de ideologias. Ao identificar esses aspectos técnicos, políticos e ideológicos presentes na elaboração dos mapas, Arango se aproximou de uma definição do que seria o discurso cartográfico competente: “são as censuras do pensamento cartográfico que matizam a rigidez geométrica e a fazem tão flexível como o poder requer, enquanto se produzem vazios, silêncios que a técnica poderia saldar mas que o filtro da ordem política não

87 Não obstante, nas duas últimas décadas, experiências de mapeamento participativo e cartografia social têm

perturbado a velha ordem em que apenas Estado e empresas produziam mapas. Nessa nova perspectiva, mediados por instituições como as universidades, os próprios grupos sociais têm delineado seu espaço conforme suas identidades e tradições, o que revela formas próprias de uso e apropriação do espaço – a exemplo das áreas de uso comunal e das fortes interações simbólicas e materiais entre homens, espíritos, água, pasto etc. A partir de esforços como os do Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia, empreendido, desde 2005, por pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas junto a comunidades tradicionais, tem-se conseguido explicitar os conflitos territoriais entre esses grupos e o projeto hegemônico de desenvolvimento, politizando o debate sobre as políticas territoriais por meio da exposição do dissenso – que destaca a historicidade da produção do espaço.

permite” (ARANGO, 2007, p. 165, tradução nossa).

Certamente, nem todos os silêncios de um mapa poderiam ser desfeitos por meio da técnica, tais como os que decorrem das dificuldades encontradas pelo cartógrafo para representar, numa imagem estática, a dinâmica histórica, em transformação, ou a espacial, nas três dimensões lefebvrianas. Porém, como apontou Arango, alguns silêncios dos mapas atendem a objetivos precisos, relacionados às demandas que motivam sua confecção.

Esses silêncios intencionais podem ser comparados às lacunas do discurso ideológico de que fala Chauí. Segundo a filósofa (2007, p. 32), a força do discurso ideológico provém da “lógica da lacuna”, daquilo que não se enuncia: “é porque não diz tudo e não pode dizer tudo que o discurso ideológico é coerente e poderoso”.

Mapa e discurso têm sido aproximados por diversos autores, como os aqui citados. Conforme menciona Arango (2007, p. 163), Harley aplicou a análise do discurso ao estudo dos mapas, verificando elementos pictóricos e retóricos, como seu tamanho relativo, o lugar estabelecido como centro, a cor, os textos, as denominações e, especialmente, os espaços deixados em branco e as ausências deliberadas de informação. Del Gaudio (2003), utilizando metodologia semelhante, estudou diferentes projeções cartográficas e centros geométricos empregados para legitimar e ocultar determinados objetivos do Estado.

Tendo em vista essas experiências, cabe discutir os conteúdos ideológicos presentes em mapas das UCs do Eixo Sul, buscando interpretar as maneiras pelas quais essas ferramentas podem influenciar a subjetividade de seus leitores.

Para esse exercício, foram selecionados mapas produzidos por/para empresas mineradoras e do setor imobiliário. Os mapas referentes às mineradoras foram extraídos dos documentos “Quadrilátero Ferrífero: Biodiversidade Protegida” (CÂMARA; MURTA, 2007) e “Patrimônio natural-cultural e zoneamento ecológico-econômico da Serra da Moeda: uma contribuição para sua conservação” (BRANDT, 2008). Já os oriundos do setor imobiliário foram coletados do Relatório de Impacto Ambiental – Rima – do empreendimento imobiliário Vale dos Cristais (Nova Lima) e dos portais eletrônicos dos empreendimentos “Gran Royalle Casa Branca” (Brumadinho), da empresa Gran Viver Urbanismo - Grupo Seculus, e “Village Royale” (Nova Lima), da empresa MRV Engenharia.

Essas ilustrações foram avaliadas quanto à forma como representam e identificam os núcleos urbanos, as minas e as áreas protegidas, e quanto à escala e ao recorte escolhidos para representar os elementos, entre outros aspectos. Em sua interpretação, buscar-se-á responder às seguintes perguntas: Quem fala? Para quem fala? De onde e como o faz? Em que circunstância se dá essa comunicação? O que se diz? E por que se diz? Para tanto, será

necessário observar os elementos e silêncios gráficos, na tentativa de compreender as lacunas que sustentam esses discursos, além de extrair informações dos textos que os acompanham.