De acordo com Pereira e Silva (2007), a vegetação reflete-se na composição da paisagem por meio de sua relação com os outros componentes naturais, tais como o clima, os solos, as rochas, o relevo e os recursos hídricos. A componente vegetação em ambiente de
117 abrangência de clima semiárido, como é o caso da área de estudo, apresenta um caráter fisionômico dominado pela perda de folhas (caducifólias) durante o período seco, além de outras adaptações morfológicas e fisionômicas.
Conforme Rodrigues et al. (1995), a cobertura vegetal, apesar da primazia xerofítica, apresenta uma grande diversificação, identificando no ambiente semiárido como Caatinga, que sendo um formação caducifólia e ocorrendo muitas vezes de forma esparsa ou aberta e como fisionomia arbustiva, acaba oferecendo uma pequena capacidade de proteção aos solos contra os efeitos erosivos (SOARES, et al., 1995). Associando a isso, observa-se o uso intensivo da terra, a partir da utilização de técnicas e atividades agropastoris, que por vezes são inadequadas, gerando consequências como a compactação e desestruturação do solo e a diminuição da diversidade biológica que ocorre pela modificação do ambiente original, o que pode ser vislumbrado a partir da transformação na vegetação (PESSOA, 2009).
Melo (2009) aponta que uma das marcas evidentes da degradação no semiárido podem ser observadas a partir da redução da cobertura vegetal e à consequente erosão do solo. Verificando isso, o médio curso do rio Aracatiaçu sofre com várias modificações em seu meio físico, devido a atividades ligadas às práticas antrópicas relacionadas a exploração incessante aos recursos naturais renováveis. Na área de estudo, tais atividades estão provocando a supressão da cobertura vegetal, particularmente, quando as atividades estão relacionadas a práticas agropastoris e ao extrativismo vegetal e mineral (areias).
Nesse caso, a identificação das unidades fitoecológicas da área de estudo serão discutidas, observando sua interação com os demais componentes geoambientais, associados a dinâmica de processos físico-biológicos que interferem e influenciam, sobretudo na configuração das condições relacionadas à cobertura vegetal do rio Aracatiaçu. As principais unidades fitoecológicas identificadas na área de estudo são: a Caatinga Arbustiva Aberta, a caatinga Arbórea e a Vegetação de Várzea e Ribeirinha.
Na região do médio curso do rio a unidade fisionômica de maior representatividade é a caatinga arbustiva, em razão da degradação sofrida pela caatinga arbórea ou devido à limitação dos fatores naturais, sendo ainda possível a identificação de dois substratos, um arbustivo/sub-arbustivo e outro gamíneo-herbaceo, como pode-se observar na figura 17.
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Figura 17: Estratos diferenciados de Caatinga Arbustiva.
Fonte: Ronaldo Mendes Lourenço (2013)
A respeito da caatinga arbórea que apresenta um estrato de porte mais elevado, sendo esta dividida em três classes: a arbórea (8 a 12 m), a arbustiva (2 a 5 m) e a herbácea (abaixo de 2 m). Na área de estudo analisa-se que esta tipologia se encontra drasticamente modificada devido a práticas insustentáveis como: i) os desmatamentos indiscriminados tornam os processos erosivos mais atuantes, o que gera a menor diminuição da captação de água, levando ao desaparecimento de cursos d’água; ii) as queimadas que levam a esterilização dos solos, destruindo a matéria orgânica, facilitando assim o aumento dos processos erosivos e estimulando os processos de desertificação; e ii) as práticas extrativistas vegetais e minerais.
Sobre a vegetação de várzea e ribeirinha que se estende ao longo dos cursos dos rios, encontra-se o predomínio de um estrato mais elevado que é ocupado pela carnaubeira, sendo a mesma acompanhada por árvores e arbustos, notando que no estrato arbustivo- arbóreo são encontradas espécies como o pajeú, o juazeiro, o marmeleiro, o mofumbo e a jurema branca. Percebe-se que os usos efetivados nesta unidade fitoecológica na área de estudo vão além do extrativismo vegetal das palhas da carnaúba, esta unidade ainda é explorada pela agricultura de subsistência e pela pecuária extensiva.
Com relação às espécies que compõem a vegetação existente no âmbito do médio curso, destacam-se as mais representativas do domínio das caatingas fundamentando-se em IBGE (2012) e Fernandes (1990): Mimosa Melacocentra (Jurema branca), Croton sonderianus (Marmeleiro Preto), Cindoculus urens (Cansanção), Aspidosperma pirifolium (Pereiro), Cereus jamacaru (Mandacaru), Astronium urundeuva (Aroeira), Corpenicia
119 prunifera (Carnaúba), Cesalpina bracteosa (Catingueira), Ploceurus gounelli (Xique-Xique), Ziziphus joazeiro (Juazeiro), Licania rigida (Oiticica), Mimus saturninus (Sabiá), Commiphora leptophloeos (Imburana), Auxemma oncocalyx (Pau-Branco), Libidibia férrea (Jucá), Anadenanthera colubrina (Angico), Schinus terebenthifolius (Aroeira), Mimosa hostilis (Jurema Preta), Manihot piauyensis (Maniçoba), Guapira opposita (João-Mole) e Tabebuia serratifolia (Pau D’arco).
A respeito da vegetação ribeirinha, além desta evidenciar espécies da caatinga, observa-se também que estes ambientes manifestam a presença de espécies serranas, onde estão localizadas a priori nas nascentes. Dessa forma, destacam-se os seguintes tipos: Anadenanthera colubrina (Angico), Auxemma oncocalyx (Pau-Branco), Libidibia férrea (Jucá), Corpenicia prunifera (Carnaúba), Licania rigida (Oiticica), Mimosa hostilis (Jurema Preta) (FERNANDES, 1990).
A fauna vislumbrada na unidade fitoecológica da caatinga pode ser representada pelas seguintes espécies: anfíbios e répteis – Bufo sp. (Cururu), Topidurus torquatus (Calango), Cnemidophurus ocellifer (Tijubina), Policuhurus acutirostis (papa vento); aves tais como: Columbina talpacoti (rola caldo de feijão), Tyto alba (Rasga Mortalha), Hirundineos (Andorinhas), Agelaius rufcapillus (Papa arroz), Coereba flaveola (Sibite), Euphonia chlorotica (Vem-Vem), Fringilideos (Campina, Papa, Golinha), Passer domesticus (Pardal), Gnorimopsar chopi (Graúna), Zenaida auriculata (Avoante); entre as espécies de ofídios e mamíferos, destacam-se: Boa constrictor (Jibóia), Oxybelis sp. (Cobra de Cipó), Bothrops erytromelas (Jararaca), Spilotis pulatuss (Caninana), Philodryas sp. (Cobra Verde), Pseudoboa nigra (Cobra Preta), Didelphis sp. (Cassaco), Cavia aperea (Preá ) (FERNANDES, 1990).
Tratando-se do ambiente de várzea e ribeirinho, destacam-se as seguintes espécies animais: peixes – Geophagus brasiliensis (Cará), Hoplias malabaricus (Traíra), Hypostomus nudiventris (Bodó), Astyanax ssp. (Piaba); quanto ao anfíbios – Bufo sp. (Cururu), Leptodactylus ssp. (Jia), Hyla sp. (Rã); ofídeos – Liophis miliaris (Cobra d’água), Micrurus ibiboboca (Cobra Coral); répteis – Cnemidophorus ocellifer (Tijubina), Topidurus torquatus (Calango); aves - Columbina talpacoti (rola caldo de feijão), Crotophaga ani (Anu Preto), Furnarius figulus (Papa arroz), Sporophila albogularis (Golinha), Passer domesticus (Pardal); mamímeros – Cavia aperea (Preá) e Didelphis sp. (Cassaco) (FERNANDES, op. cit).
120 Conforme Farias (2012), a vegetação e a fauna de determinada região exercem um importante papel na manutenção do equilíbrio natural dos ecossistemas, sendo que as modificações naturais ou antrópicas acabam comprometendo a qualidade ambiental e a diversidade em termos faunísticos e vegetacionais. Entendendo isso, nota-se que em parcelas significativas da região do médio curso do Aracatiaçu evidenciam-se alterações da cobertura vegetal original (primária), o que afeta os habitats de determinadas espécies da fauna do semiárido.
Após a discussão de todos os componentes geoambientais espacializados na região do médio curso do rio Aracatiaçu (geologia, geomorfologia, clima, recurso hídrico, solo e vegetação), concebe-se que as dinâmicas físico-naturais e socioambientais no contexto espacial das bacias hidrográficas devem ser consideradas sob o ponto de vista sistêmico, notando que todos os elementos, que fazem parte do sistema ambiental devem está integrados e /ou interligados, sabendo que qualquer desequilíbrio causado pela ação antrópica ou natural pode acabar comprometendo a dinâmica dos fluxos de entrada e saída de energia. Carvalho (2005) nos lembra que a bacia hidrográfica, a partir desse contexto, é, portanto, uma unidade significativa em virtude de sua divisão ser natural tendo em sua história traços marcantes de variáveis das dinâmicas de longo e curto prazo.
121 5. DINÂMICA SOCIOECONÔMICA DO MÉDIO CURSO DA BACIA DO RIO ARACATIAÇU – O SERTÃO DE MIRAÍMA
É preciso compreender, que para a efetivação das propostas de planejamento e gestão ambiental dos recursos hídricos e dos recursos naturais renováveis para o médio curso da bacia do rio Aracatiaçu, faz-se necessário que além dos dados físicos-naturais se tenha dados referentes à dinâmica socioeconômica da região do estudo.
Dessa maneira, visando realizar uma caracterização socioeconômica o mais completa possível, optamos por trabalhar com o município de Miraíma, que tem 498 km², 100% de seu território incluso no médio curso, quando comparado com Sobral 223 km² (49,4%), Amontada 213 km² (100%) e Irauçuba 505 km² (71,2%). Além do critério físico- natural para a escolha de Miraíma, também escolhemos esse município por acreditar que nas ultimas décadas, a pressão socioeconômica sob os recursos naturais vem se intensificando e acentuando a degradação/desertificação no âmbito da bacia e do município. O mapa 06 mostra a localização do município de Miraíma.
Nessa perspectiva, o presente capítulo representa um estudo da realidade socioeconômica e ambiental do município de Miraíma, estando vinculado a aspectos como o processo histórico de ocupação, ao emprego de técnicas de uso e exploração dos recursos naturais renováveis, das condições políticas, culturais e físico-naturais.