Future Work
10.2 Future experiments
10.2.2 Real cluster comparison
Quando as pessoas fazem alguma coisa, o que as mobiliza? Qual é a relação entre práticas e representações, entre esquemas de pensamento e experiência? Essa é uma questão que tem desafiado os pesquisadores da área das ciências sociais e humanas. Compreender o que leva as pessoas a agirem ou não, se e/ou como as idéias influenciam ou não os atos dos humanos, individual e/ou coletivamente é tema de um projeto no qual muitos se têm empenhado e ainda se empenharão, porque a resposta para essa questão não é simples nem definitiva. Na pesquisa que realizou para compreender o movimento intelectual da geração de 1870 na crise do
Brasil-Império, Ângela Alonso91 optou por circunscrever suas análises a partir do entendimento de que ações e representações são duas faces da mesma moeda [p. 37], de que
formas de pensar e formas de agir estão em íntima conexão [p. 40]. Assim, ao tomar para análise a produção escrita dos membros dos grupos que se destacaram no debate nacional no final do Império, não circunscreveu essa produção em teorias ou correntes de pensamento definidas a priori, mas, sim, no âmbito da experiência compartilhada por tais membros. Segundo ela,
O movimento ‘intelectual’ contemporâneo à crise do Império não é um movimento ‘de idéias’, nem é formado por ‘intelectuais’. Embora o processo seja percebido pelos agentes como o de filosofias tomando mentes, são os agentes sociais que selecionam e utilizam teorias explicativas.92
Isso deslocou a ênfase na determinação/influência dos argumentos e conceitos de teorias
estrangeiras na definição das escolhas dos intelectuais para as razões práticas que os levaram a se apropriarem de tais referências. Sob esses pressupostos, Alonso fez suas análises, operando com três noções básicas: estrutura de oportunidades, comunidade de experiência e
repertório. Interessa-me compreender qual o significado que ela atribui a repertório e como o utilizou no trabalho da sua investigação.
Ângela Alonso mobiliza a noção de repertório sob duas dimensões. Segundo uma delas
Um repertório é o conjunto de recursos intelectuais disponível numa dada sociedade em certo tempo. É composto de padrões analíticos; noções; argumentos; conceitos; teorias; esquemas explicativos; formas estilísticas; figuras de linguagem; metáforas.
91 ALONSO, 2002.
Não importa a consistência teórica de seus elementos. Seu arranjo é histórico e prático.93
Tais recursos intelectuais estariam disponíveis na cultura para que os diversos agentes construíssem suas estratégias de ação.94 Essa perspectiva está referenciada num trabalho de Swidler (1986), uma das autoras com quem Ângela Alonso dialoga e de cuja noção se apropria.95 Segundo Swidler, a cultura influencia a ação não fornecendo os fins últimos para
os quais a ação é orientada, mas apresentando um repertório ou ‘caixa de ferramentas’ de hábitos, habilidades e estilos a partir dos quais as pessoas constroem ‘estratégias de ação’.96 Na outra dimensão, Alonso refere-se a repertório, compondo as formas de agir e traz para reforçar seus argumentos os trabalhos de Tilly (1978; 1993).97 Segundo ela
Repertórios são criações culturais aprendidas, mas elas [sic] não descendem de uma filosofia abstrata ou ganham forma como resultado de propaganda política; eles emergem da luta [...] e designam [...] um conjunto limitado de esquemas que são aprendidos, compartilhados e postos em prática através de um processo relativamente deliberado de escolha.98
Charles Tilly utiliza-se da noção de repertório para sustentar seus estudos sobre a ação coletiva. Designa como ‘repertório contencioso’ o conjunto de formas de ação política ...
incluindo, desde a manifestação pública de reivindicações através da formação de associações temáticas e clubes, a organização de comícios e passeatas, até as greves.99 Segundo Tilly, para encontrarmos o sentido de repertório é preciso responder à seguinte
93 ALONSO, 2002, p. 39 (itálico da autora; negrito meu).
94 Em texto de 1980, apresentado num colóquio relativo à história intelectual, Chartier (1987) faz uma dupla reavaliação da história intelectual e a história das mentalidades. Ao referir-se às diversas contribuições, Chartier traz à cena as noções de utensilagem (outillage) mental [Lucien Fevre], hábitos mentais/habitus [Panofsky/Bourdieu], visão de mundo [Goldman]. Penso que a noção de repertório também poderia ser juntada às mencionadas noções num estudo que analisasse as tradições a elas vinculadas (aproximações, distanciamentos), bem como as possibilidades operatórias para a pesquisa em história da educação.
95 Ann Swidler é socióloga, da Universidade de Stanford, EUA. Nos argumentos que utiliza para demonstrar a influência da cultura na ação humana, faz a distinção entre períodos calmos e períodos agitados.
96 SWIDLER, 1986, p. 273 (destaques da autora). Culture influences action not by providing the ultimate values toward which action is oriented, but shaping a repertoire or ‘tool kit’ of habits, skills and styles from which people construct ‘strategies of action’.
97 Ângela Alonso estudou na Universidade de Colúmbia, no ano letivo de 1996-1997, onde participou do grupo
Contentious Politics, coordenado por Charles Tilly. Numa entrevista, apresenta uma relação das publicações de
Tilly, sua trajetória e as questões que o tem mobilizado em seu projeto de investigação (ALONSO e GUIMARÃES, 2004).
98 ALONSO, 2002, p. 39. Em Tilly (1993, p. 264), encontramos: – The word ‘repertoire’ identifies a limited set or routines that are learned, shared, and acted out through a relatively deliberate process of choise. Repertoires are learned cultural creations, but they do not descend abstract philosophy or take shape as a result of political propaganda; they emerge from struggle [destaque do autor].
questão: até que ponto o grupo prefere os meios que tem usado até então, acima daqueles que estão teoricamente disponíveis para o mesmo propósito?100
De posse dessas “chaves”, Alonso analisa como os integrantes da geração de 1870 se utilizaram dos recursos teóricos e retóricos do repertório político-intelectual do fim dos
oitocentos para explicar a conjuntura brasileira e evidenciar as linhas de ação que apresentavam – dimensão intelectual de repertório, bem como as formas discursivas e a ação
política coletiva de materialização do movimento intelectual – dimensão “ativa” de repertório. Com isso, a lógica que sustenta suas análises, fundamentalmente parte da produção concreta dos sujeitos, mas ganha inteligibilidade na articulação com os diferentes repertórios – mentais e práticos – disponíveis/construídos nas sociedade e cultura brasileiras.
Considerei o Primeiro Congresso de Instrucção Primaria como evento integrante de um
repertório de ações mobilizadas pelos educadores, para darem visibilidade às questões da educação (e seus projetos) nos espaços sociopolítico-culturais a que pertenciam. A “abundância” com que congressos foram realizados, sob os mais diversos interesses e vinculações, nos anos iniciais da república, leva-nos a afirmar o seu prestígio, junto a outras ações, não apenas no campo da educação. Além disso, as regras utilizadas na realização do evento obedeceram aos “moldes” de outro congresso: aquele que conformava o legislativo. Assim, analisei o Primeiro Congresso de Instrucção Primaria como compondo um repertório de ações duplamente qualificado: um vinculado ao campo pedagógico e outro, ao campo jurídico. Na dimensão intelectual, considerei, também, como pertencentes a um repertório, dois argumentos insistentemente utilizados pelos participantes do Congresso na defesa de suas posições – o recurso às teorias pedagógicas e seus autores, por um lado, e o apelo à experiência, por outro.