Results & Discussion
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Quatorze mães biológicas de crianças vivendo com HIV/Aids em acompanhamento ambulatorial pela infectologia pediátrica no CTR Orestes Diniz, em Belo Horizonte, foram entrevistadas neste estudo. Destas, cinco conheciam a pesquisadora anteriormente. Uma delas do HIJPII, conforme já descrito e quatro por participarem do Grupo “Família Positiva”. Este grupo se reúne mensalmente no CTR/DIP Orestes Diniz e tem como objetivo discutir temas trazidos pelos participantes, sob a coordenação de uma psicóloga e uma infectologista pediátrica, ambas do serviço. Os assuntos discutidos vão desde questões relativas ao tratamento médico e biossegurança às relacionadas aos aspectos psicossociais da doença. A pesquisadora participa do grupo como convidada há cerca de três anos. Nove mães nunca tiveram contato com a pesquisadora anteriormente. Com algumas o contato foi intermediado pelos profissionais do CTR, da infectologia pediátrica, que durante a consulta da criança convidaram-nas a participar do estudo, pedindo-lhes permissão para fornecer o número de telefone à pesquisadora para contato posterior. Com outras não houve intermediação prévia, mas a pesquisadora identificou-se justificando ter tido acesso ao telefone da mãe através do médico da criança.
Uma tentativa de recrutamento foi feita durante reunião no CTR do Comitê Comunitário Assessor (CCA-BH) do Grupo de Aids Materno Infantil (FM- UFMG), na qual a pesquisadora compareceu e realizou pessoalmente o convite. Das mães presentes, apenas uma aceitou participar do estudo.
Antes do início da entrevista propriamente dita a pesquisadora se apresentava e lia junto com a mãe o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Foi explicado às mães que o sentido do título estava ligado ao interesse em saber como ela, enquanto “sujeito-mãe”, vivia e sentia as questões em relação ao HIV e
Aids e que, portanto, não se tratava de buscar questões objetivas ligadasà doença e tratamento. Isso foi feito com o intuito de ajudá-las a entender o que o termo “subjetividade materna” poderia significar, já que o título da pesquisa constava no Termo de Consentimento. Com esse esclarecimento tivemos ainda o objetivo de mobilizá-las para que se apresentassem enquanto sujeito e se sentissem à vontade, motivadas para explicitar sentimentos e emoções. Antes do inicio da gravação foi também dado às mães abertura para colocação de suas dúvidas quanto ao estudo, sendo todas elas respondidas. Além disso, alguns dados sociais e econômicos foram coletados com o objetivo de caracterização da amostra.
Este momento inicial ajudou a deixar as entrevistadas mais à vontade, algumas já muito ansiosas e emocionadas.
Esperava-se que as mães que já conheciam a pesquisadora fossem ter maior facilidade durante a entrevista na abordagem do assunto, em função da natureza e significado do tema. Entretanto, contrariando a expectativa, todas as mães se expressaram com profundidade em relação à sua vida, desde o diagnóstico até os dias atuais.
Atribuímos este fato a essa abordagem inicial e também à formação de psicanalista da pesquisadora, que parece ter contribuído tanto para o estabelecimento do vínculo inicial, que propiciou às mães sentirem confiança em se expor, quanto na condução da entrevista, principalmente em momentos de emoção intensa. Estes ocorreram várias vezes durante as entrevistas, principalmente nos relatos sobre a identificação do diagnóstico da criança, a forma de transmissão ao filho do vírus HIV, o medo do estigma e do preconceito e a expectativa das mães em relação ao futuro dos filhos.
A duração das entrevistas variou de quarenta e cinco minutos a duas horas e meia, sendo que a maioria durou em torno de uma hora e meia.
Apesar do uso do gravador geralmente interferir na espontaneidade dos relatos, a maioria das mães parece ter ficado à vontade no decorrer da entrevista. Apenas uma solicitou que este fosse desligado em momento de forte emoção, quando relatou questões importantes sobre a contaminação do marido pelo HIV. Outra solicitou que se usasse um nome fictício para se referir a ela e à criança durante a gravação, demonstrando receio em relação à sua identificação, mesmo com o sigilo garantido pelo termo de consentimento.
As reações das mães ao contar sobre a identificação do diagnóstico, na maioria ocorrido há quase dez anos, demonstraram como a situação se torna afetivamente presente, indicando uma revivência emocional de momentos anteriores carregada de angústia e sofrimento, mesmo após longos períodos de tempo.
A angústia, presente nos relatos das mães de maneira intensa em quase todas as entrevistas, provocou-nos significativo impacto emocional, a despeito da experiência profissional anterior com situações semelhantes. Julgamos que este impacto e a angústia compartilhada entre a pesquisadora e as mães não se constituiu como impedimento para a condução das entrevistas nem para a realização da análise, ao contrário, ela foi incluída na análise como um elemento a mais para a significação das falas das mães. Consideramos que o fato da pesquisadora ter se mobilizado com as expressões de forte emoção das mães durante a entrevista possa ter interferido positivamente em sua realização. Assim, as mães possivelmente se sentiram encorajadas a se expressarem livremente, o que pode ter contribuído para que elas não controlassem o conteúdo de seu discurso, levando ao surgimento de emoções e pensamentos reprimidos a respeito de suas vidas após a identificação da infecção pelo HIV.
Um fato digno de registro é que, apesar da maioria das mães relatarem que não gostam de falar sobre o assunto e que se sentem angustiadas ao reviver toda a história passada, não se negaram a conceder a entrevista, mesmo sabendo que seriam indagadas sobre a questão. Pôde-se notar que a relação com o pediatra da criança, descrita pela grande maioria das mães como excelente, teve grande influência para a aceitação do convite, chegando mesmo a ser explicitada por algumas delas. Algumas crianças estiveram ou estão em atendimento psicológico no CTR e presumimos que o contato anterior da mãe com a psicóloga do serviço também facilitou a aceitação. Algumas mães relataram que, apesar do sofrimento em ter que relembrar o momento da identificação do diagnóstico, desejavam poder ajudar na realização da pesquisa, principalmente por considerarem que assim estariam também se ajudando e ajudando a melhorar a assistência às pessoas vivendo com HIV/Aids.
Algumas delas, após a entrevista, relataram nunca ter vivido a experiência de um encontro com psicólogo onde pudessem se expressar tanto, embora tivessem tido acesso a este profissional no momento do diagnóstico, quando, entretanto, não desejavam falar nada. A alegação das mães para a não aproximação com
psicólogos do serviço foi a falta de desejo ou necessidade ou experiências ruins no passado, ligadas à comunicação por estes de diagnóstico ou prognóstico da vida da criança quando em estados de agravamento de sua saúde.
Apesar disso, percebemos que para as mães a participação na entrevista constituiu-se como uma experiência diferente em suas vidas. Uma explicação possível é que esse momento, de fato, lhes propiciou a possibilidade de falar sobre si, seus medos, angústias, dúvidas e reflexões sobre a criança. Esta percepção foi confirmada pela explicitação por algumas mães de gratidão e de satisfação ao final da entrevista, apesar das emoções dolorosas vivenciadas no processo. Observamos que a escuta nas entrevistas teve, para elas, um sentido terapêutico, que recobriu o sentido inicial de responder questões para contribuir com a pesquisa. Nossa suposição é a de que, a partir do momento em que as mães aceitaram o convite, a atitude de acolhimento e respeito da pesquisadora por suas questões ajudou com que elas expressassem problemas nunca antes aprofundados e que demonstram ser fator de grande angústia em suas vidas.
Após o término da entrevista gravada, algumas mães retomaram questões abordadas com o objetivo de buscar uma orientação da pesquisadora. Interpretamos esta atitude como indício de aceitação e confiança, confirmando a impressão do valor terapêutico da entrevista.
De acordo com os princípios éticos estabelecidos para se garantir sigilo e anonimato às mães entrevistadas, todos os nomes apresentados no Anexo 2 e ao longo desta dissertação são fictícios, incluindo os das crianças, pais e irmãos. Alguns profissionais, citados nas entrevistas pelas mães, foram identificados por letras que não correspondem às iniciais de seus nomes ou por Dr./Dra.