No capítulo 2, quando tratei da dimensão individual, ficou enfatizada a idéia de que não podemos entender o Ser Humano em suas dimensões, isoladamente, e que não podemos pensar em EU, sem pensar em NÓS, e vice- versa. Conforme alerta Chanlat (19 96, p.30);
“A constituição de todo o Ser Humano como Sujeito passa por esta relação poliforme com o outro”. É por meio do outro que o Sujeito “se constitui, se reconhece, sente prazer e sofrimentos, satisfaz ou não seus desejos e suas pulsões’.
Esta id éia fica evidenciada quando o entrevistado A afirma com relação à ONG onde atua que
A nossa ideologia está muito ligada à possibilidade do ser humano se superar o tempo inteiro, porque acreditamos que todos merecem uma segunda chance... Quem nunca caiu na vida, não sabe o que é o fracasso. Quem nunca fez sucesso e vive no fracasso, é uma coisa, é normal! Quem faz sucesso e fracassa, cai, se não estiver forte pra se levantar torna-se um derrotado.
Fracasso-sucesso são idéias que estão relacionadas a expectativas ou desejos, às satisfações versus frustrações, a reconhecimento e aos próprios valores. Além disto,o sentimento de superação está relacionado à própria pulsão de vida na perspectiva freudiana, segundo a qual buscar prazer e evitar a dor são forças que nos movem.
Seguindo ainda uma perspectiva psicanalítica, Bion (1970 p. 46) afirma que “o grupo é essencial para a realização da vida mental de um homem – tão essencial para isto, quanto para as atividades evidentes da economia e da guerra". Para ele, a vida psíquica exerce um papel fundamental no comportamento humano individual e coletivo, e o ser humano se reúne em grupo para obter segurança de um indivíduo de quem depende.
A seguir, o depoimento de um participante, quando fala da comunidade onde vive e atua profissionalmente e da força que esse grupo pode ter sobre a vida de uma criança e de um jovem, na influência que pode ter sobre suas escolhas e sobre a formação de sua identidade:
Vigário Geral ainda é, mas nem tanto, uma comunidade muito violenta, a questão do tráfico predomina muito, a questão da falta de emprego, da falta de oportunidade, a escolaridade da galera da comunidade é muito baixa. Então, tudo isso vinha desestimulando a juventude, fazendo com que a galera ficasse muito ociosa pela comunidade, e a nossa única referência aqui na comunidade era o tráfico. Quando eu era pequeno era um pedaço de madeira na mão, e era polícia e bandido, mas ninguém queria ser polícia, todo mundo queira ser bandido.A nossa brincadeira era aquilo, era se espelhar. A nossa referência era o traficante que vestia um tênis maneiro, uma roupa cara, botava as melhores roupas, as mulheres cercavam eles. Eles eram os nossos ídolos.Isso há tempos atrás e conforme o Afroreggae veio pra cá deu uma nova guinada na comu nidade, deu uma nova mudança para a comunidade, ofereceu coisas que, até determinado momento a comunidade não tinha acesso. A galera começou a fazer aula de percussão, aula de dança, outros faziam outras
atividades. E aí cada um começou a despertar o talento que tinha, mas não tinha o espaço adequado pra aquilo, pra estar revelando aquilo. Então, o Afroreggae a gente faz isso, abrir um leque de oportunidades, um leque de conhecimentos que, de repente, se eu não estivesse no Afroreggae, eu não sei se eu teria as informações que eu tive, ir aos lugares aonde eu já passei, a outros lugares que eu ainda posso ir, conhecer pessoas importante que eu conheci. Na verdade, o trabalho da satisfação pra gente de oportunidades, um das palavras fortes é “oportunidade”.
O estudo de Bion (1970) trouxe efetivas contribuições para a compreensão do funcionamento dos grupos. Ele refere-se a alguns princípios como: um propósito comum; um reconhecimento comum dos seus próprios limites e funções; a flexibilidade, isto é, a capacidade de absorver ou perder membros, sem perder a identidade grupal; a liberdade e a valorização individual de cada membro por sua contribuição; capacidade de lidar com os descontentamentos; e o tamanho de pelo menos três membros, pois com dois a relação torna-se pessoal. Identifiquei, no depoimento a seguir, como a falta de algum destes elementos, citados por Bion, pode interferir nas relações do grupo:
... às vezes, até no trabalho espontâneo você encontra dificuldades, você
encontra problemas que fura essa questão de sintonia, os elementos não se encontram, não têm afinidade. Ou, até mesmo, ao longo do trabalho,
as pessoas que se achavam bonitas, maravilhosas, com alta expectativa,
aí começa, de repente, a ver que não está muito capacitada pro trabalho que se propôs a fazer, e aí como se impulsiona isso?
Por perceber que nem sempre a dinâmica dos grupos atende ao padrão proposto, na mesma obra, Bion (1970) refere-se a dois tipos de grupos: um que ele denomina primitivo, cuja finalidade é apenas satisfaze r a necessidade de dependência; e o outro chamado grupo refinado, onde seus membros buscam a realização de um objetivo. No primeiro, o foco é numa determinada pessoa (de quem há dependência), não se ouvem os
outros membros, não há desenvolvimento e aprend izado, as pessoas fogem das experiências emocionais. Isso, na verdade, pude perceber nas entrevistas e depoimentos, nos quais em algumas situações dos projetos pesquisados, muitas vezes, as pessoas participam como voluntárias, porque necessitam desse sentimento de “fazer parte”, mas por uma série de fatores, ainda não estão preparadas para um grupo refinado, pois, neste segundo tipo de grupo, refinado, há espaço para trabalhar as emoções de seus integrantes, para aprender com as experiências; existe cooperação e foco na tarefa a ser realizada por todos.
Na análise dos dados coletados, especialmente quando os grupos referiam-se à sua própria evolução observei que, de alguma forma, essas equipes passam por um estágio de grupo primitivo até se tornarem grupo s refinados ou equipes no sentido em que estou tratando no contexto deste estudo. O trecho da entrevista com um dos gestores consolida bem este ponto de vista:
Melhorou muito, quando a gente tirou o foco dessa dicotomia que existia
entre o pessoal do 3o setor e o pessoal mais empresarial. Isso teve um
marco. ... eu vi gente com pensamentos diferentes, admitindo que podíamos chegar juntos na mesma coisa; tivemos empresários ou pessoas que, simplesmente, se identificam mais com outra visão de mundo, que ta mbém evoluíram nas suas posições e viram que realmente precisávamos de soluções para chegar aos objetivos do.... Uma vez que isso aí foi atingido, tudo ficou muito mais fácil.
Bion aprofunda-se mais nos grupos refinados, que ele também chama de grupo de trabalho, onde a “cooperação é voluntária e depende, em certo grau, da habilidade refinada do indivíduo”(1970, p. 131). Evidencia também o papel da comunicação na manutenção desse “espírito de grupo”.
Chanlat ratifica o papel da comunicação no processo grupal, quando afirma que “toda interação, qualquer que seja, supõe por definição um modo de comunicação, isto é, um conjunto de disposições verbais, que se encarregam de exprimir, traduzir, registrar, em uma palavra, de dizer o que uns querem comunicar aos outros durante uma relação”.(1996, p.37) Watzlawick (apud Maldonado, 2004, p:31) concorda com essa importância e afirma que a comunicação é um “fenômeno que compreende os sujeitos e determina a sua essência... cada comportamento implica uma comunicaç ão e, portanto, é impossível não se comunicar”. Neste sentido, todo gesto, até o mais casual, é um gesto comunicativo. O gesto comunicativo extrapola o verbal, a fotografia pode representar o mundo interno do sujeito. Os comentários de participantes de um dos workshops ilustram o quanto isto ocorre:
Essa fotografia eu acho que tem a ver comigo. Eu adoro paisagem, ser uma pessoa calma, tem umas pessoas aqui de mãos dadas...andando em grupo, eu gosto muito disso. Então eu achei que tinha alguma coisa assim comigo.
Então quando eu vi a foto eu pensei: Caramba! Parece até a minha foto! Mas eu acho que me identifico com a foto, porque eu gosto muito do mar e esse parece estar bem bonito, bem tranqüilo. E ao mesmo tempo, você não sabe o que tem atrás, pode ter muita gente, pode ter um homem super calmo, pode estar sozinho ou poder ter várias outras pessoas.
O depoimento da entrevistada F demonstra a importância que ela dá à comunicação no trabalho em equipe:
Eu acho que a comunicação interna é outro ponto que tem que fluir muito bem nesse trabalho em equipe, porque tem que saber o que é uma empresa, o que é uma ONG, tem que saber em que você está trabalhando e como é que todo mundo está trabalhando para aquilo.