Pela terrível insolência e insanidade em que Nobunaga havia incorrido ao querer usurpar para si o “…culto e adoração que só a Deos Criador e Redemptor do mundo se deve…”644, a
terrível hamartia de querer elevar-se ao patamar de divindade que culminou no crime da heresia, não permitiu o mesmo Deus, segundo nos relata o narrador, que este sacrilégio durasse por muito mais tempo, não tolerou esta sua temeridade de se considerar superior aos homens mundanos, de se
641 HJ, vol. III, p. 333. 642 Ibidem.
643 Ibidem. 644 Ibidem.
julgar num altar celeste que só a Si pertencia, decidindo castigá-lo por este erro e insolência fatais, assim como os vingativos Deuses greco-latinos puniram os excessos de Prometeu e de Agamémnon, ambos heróis que podemos comparar a Nobunaga. Prometeu, como é narrado no Prometeu
Agrilhoado de Ésquilo, era um poderoso Titã que quis salvar o género humano cometendo a
insolência de roubar o fogo divino a Zeus, pelo qual foi castigado. Prometeu era o sábio, o defensor do poder e da potencialidade humana, o símbolo “…da elevação do poeta ao lugar de deus criador, do ateísmo…”645, da independência do género humano em relação ao Criador, características
semelhantes às de Nobunaga, que não aceitava a omnipotência do Deus Cristão e acreditava veementemente na sua capacidade enquanto homem terrestre, mas tão excepcional e diferente dos restastes que merecia ser adorado como uma divindade. Agamémnon, poderoso e opulento rei, cometeu, também, o erro de se comparar aos deuses, excedendo-se no saque de Tróia por pura cobiça de riquezas e assolando cruelmente a cidade até pouco ou nada restar, assim como Nobunaga despojava e destruía os reinos que conquistava, e, no seu regresso a casa soberbo e desmedido, ousou pisar um tapete da cor púrpura, honra guardada apenas aos deuses646, lembrando as festividades aparatosas e os edifícios ostentosos de Nobunaga, que levou mais longe a sua equiparação com o Deus Cristão, o qual decidiu recordá-lo que, apesar do seu imenso poder e qualidades excepcionais, não passava de um mortal.
No entanto, como o Deus cristão tem, afinal, o costume de “…uzar com todos de sua infinita clemencia e piedade…”647, antes de executar o seu temível castigo, tentou, segundo o narrador,
demonstrar a Nobunaga através de indícios divinos ocorridos em Azuchi que Ele era o “…Senhor absoluto dos ceos e da terra…”648, procurando, deste modo, aconselhar o Senhor da Tenca a
humilhar-se ao seu estatuto de mortal e a reconhecer a existência de um Ser superior, senão, algo terrível lhe iria acontecer. Antes de Nobunaga partir para a guerra em Cainocuni, aconteceu no dia oito de Março de 1582 um estranho fenómeno celeste em Azuchi, aparecendo às dez horas da noite “…o ceo pela banda do oriente muito claro, e em riba da mais alta torre de Nobunanga se mostrou tão vermelho que punha espanto, e durou athé perto da menhã…”649, um sinal que se espalhou por
outras partes do país, inclusivamente em Bungo, esta cor vermelha do céu parecendo ser um indício da violenta morte que esperava Nobunaga, um prenúncio do sangue que iria escorrer depois do seu suicídio e das chamas que consumiriam o seu cadáver. A quatorze de Maio do mesmo ano, “…às nove horas da noite apareceo huma cometa no ceo, a qual tinha hum rabo mui comprido, que cursou
645 PEREIRA, 2006: p. 414. 646 Vide PEREIRA, 2006: p. 421. 647 HJ, vol. III, p. 334. 648 Ibidem. 649 HJ, vol. III, pp. 334-35.
por alguns dias e punha em todos grave espanto.”650, caindo poucos dias depois uma espécie de
cometa em Azuchi, sendo todos estes fenómenos celestes, enviados por Deus, sinais que previam a desgraça que iria, em breve, suceder. Porém, “…o infelice homem…” não se deixou impressionar por estas manifestações divinas, não entendo o seu significado por serem “…tam densas e opacas as trevas em que estava sumerso…”651, estando, apesar de ser inteligente, tão enublado pela sua
loucura e arrogância que não conseguia ver o que tão claramente652 aparecia expresso no céu, sinais que eram evidentes para o narrador mas não para Nobunaga nem para os nipónicos em geral653. Muito se espantaram os padres e irmãos por Nobunaga partir sem temor para a guerra apesar destes indícios, embora a sua coragem fosse inconsciente, uma vez que não sabia serem estes fenómenos sinais de má sorte, todavia, com uma certa ironia saiu vitorioso, derrotando o inimigo e tomando de imediato três ou quatro reinos, de modo que a sua soberba se tornou “…mais inchada e venenoza…”654, contudo, mal cabia na sua imaginação que pouco tempo teria ainda de saborear esta
vitória nem nenhuma outra.
Decorrendo o seu governo com tranquilidade, crescendo cada dia a sua cidade de Azuchi e depois da fabulosa vitória alcançada na última guerra, Nobunaga determinou aproveitar esta maré de sorte e marchar para as terras de um dos seus maiores inimigos, Mori Terumoto, para derrotá-lo e conquistar as suas terras após tantos anos de resistência, sonhando já em “…ficar senhor absoluto de todos os 66 reinos de Japão…”655 após sair vencedor desta batalha e, ainda, segundo o narrador,
de juntar um grande exército para conquistar a China, mostrando que a sua ambição se estendia para lá das fronteiras do seu país, sendo o seu objectivo seguinte conquistar outras nações, começando pelo país vizinho, não parecendo ter limite a sede de poder do Senhor da Tenca, que não se contentava em ser um soberano terreno, mas divino. O seu capitão Hideyoshi já estava nas terras do Mori, no entanto, precisava de mais soldados para derrotar o inimigo, pelo que escreveu ao seu Senhor pedindo mais homens mas dizendo explicitamente que “…não fosse elle em pessoa, porque com mais outros vinte ou trinta mil homens acabaria de lhe tomar todos os treze reinos…”656, o que
parece outro pequeno indício do revés que esperava Nobunaga, que estava tão desejoso de cortar pessoalmente a cabeça do Mori e de ficar ainda mais perto de atingir o seu objectivo que não quis ficar em casa apesar da advertência do seu capitão, partindo para a capital com o seu filho mais velho, enviando os soldados que o acompanhavam com brevidade para as terras do Mori pela pressa
650 HJ, vol. III, p. 335. 651 HJ, vol. III, 334.
652“…que nem esta claridade bastava para lhe abrir hum pouco os olhos de seo entendimento.”, ibidem.
653 “…quem bem considerava estes sinaes não podia deixar de temer serem prodigios e previas dispozições de outras
couzas: mas como os japões não estão muito correntes nestes pronosticos e em sua origem, parece que não advirtião nem ponderavão o que poderia ser.”, HJ, vol. III, p. 335.
654 Ibidem.
655 HJ, vol. III, p. 336. 656 Ibidem.
que tinha Faxiba, pernoitando com poucos criados no templo de Fonongi, que ficava afastado da morada onde repousava o filho, imaginando que em breve se tornaria senhor absoluto do Japão quando, na verdade, caminhava para o seu trágico final.