A cerca da Província Jesuítica do Paraguai, apresentamos apenas a chegada da Companhia de Jesus na região do Paraguai, posteriormente investigaremos o modelo reducional proposto pelos jesuítas, que não se submete ao processo
encomendeiro em curso na região. Isto os levará a afastarem gradativamente suas
reduções das principais cidades, buscando proteção aos indígenas por eles reduzidos e gerando maior autonomia dos jesuítas sobre seus territórios.
Em 1534 foi fundada, por Inácio de Loyola, a Companhia de Jesus. Com objetivos missionários, esta Ordem logo passa a expandir-se pela Europa, ganhando prestígio junto ao Clero devido à formação sólida dada aos membros, bem como sua boa organização interna. A Ordem chega aos domínios portugueses da América em 1549, e na América Espanhola em 1567, passando a ocupar as áreas menos importantes economicamente para a Coroa.
Devido às necessidades de cristianizar e tornar os indígenas súditos da Coroa, levando em conta o vasto território e os diferentes grupos, faz-se necessário a readequação do modelo missionário. Os jesuítas buscam não somente o batismo de indígenas, mas também a manutenção da fé e da permanecia das missões no território. No entanto, para os religiosos é necessário aprofundar-se nos estudos referentes à conquista dos indígenas, e à língua desses povos, bem como a
organização dos indígenas dentro das reduções, de modo a facilitar o processo missionário.
Nesse período inicial, os jesuítas transladavam das províncias do Peru ou do Brasil para realizar missões na região do Rio da Prata. Em 1604 o provincial do Peru ordena a criação da Província jesuítica do Paraguai. Parte da região, a mais próxima a Assunção, já estava sendo ocupada pelas missões franciscanas, fazendo com que os jesuítas ocupassem um espaço mais afastado do centro urbano e mais próximo à fronteira dos limites portugueses.
O projeto da província englobava a criação de estâncias para a subsistência dos membros da Companhia, nas quais se criavam gados e cultivavam alimentos. A base da mão de obra para as estâncias eram os indígenas, que estavam empreendidos em outro sistema de missão, as reduções. O padre jesuíta Antonio Ruiz de Montoya na obra Conquista Espiritual define, em 1639, o modelo reducional adotado pela Companhia:
...chamamos de reduções aos "povos" ou povoados de índios que, vivendo à sua antiga usança em selvas, serras e vales, junto a arroios escondidos, em três, quatro ou seis casas apenas, separados uns dos outros em questão de léguas, duas, três ou mais, "reduziu-os" a diligência dos padres a povoações não pequenas e à vida política e humana, beneficiando algodão com que se vistam, porque em geral viviam na desnudez, nem ainda cobrindo o que a natureza ocultou Montoya, [1639] (1985, p. 34).
Ao reduzir os indígenas, os religiosos dão a estes uma nova forma de vida, mais “civilizada”, que será moldada ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII. Esta organização, sem dúvida, facilitará o trabalho missioneiro, pois se os catequizassem e estes retornassem a viver como anteriormente, poderiam retomar os costumes profanos. Já se estes estivessem reduzidos sob os olhares dos religiosos isso dificilmente ocorreria. Segundo Bartomeu Melià em El Guaraní conquistado y
reducido:
Es por estas razones, entre otras, que la reducción se consideraba un instrumento esencial para el cambio que se pretendía en los indios, que era hacerlos pasar de la “infidelidad” al cristianismo y de la barbare a la vida política. Melià (1995, p. 194).
Os missionários jesuítas passam a desempenhar um papel muito além da catequização. Passam a gerir o território administrativa, econômica e culturalmente; ou seja, os padres passam a realizar as funções que deveriam ser da Coroa e, aos poucos, o território passa a ser organizado segundo um modelo europeu de ocupação urbana. Essas transformações modificarão profundamente as estruturas da sociedade guarani, já que os indígenas deixam de viver em aldeias menores, muito distantes umas das outras, e passam a viver e conviver num mesmo espaço urbano. Este espaço passa a ser protegido pelos padres, a fim de evitar o contato com os demais colonos espanhóis, que buscavam explorar a mão de obra indígena.
Em 1609 ocorrem as primeiras missões jesuíticas do Guairá e a partir de então estes passam a ocupar sempre mais territórios coloniais, sem discriminar as metrópoles unificadas pela União Ibérica (1580-1640). Entre 1609 e 1630 os jesuítas já haviam fundado onze reduções, o que demostra seus êxitos inicial e sua forte influência junto ao Real Padroado para conseguir privilégios. As primeiras reduções estabelecidas em San Ignacio del Paraná, San Ignacio de Iguazú y Loreto tiveram que, assim como os franciscanos, conviver com o sistema encomendeiro. Por não acreditarem nesse modelo reducional, segundo o pesquisador Maeder (1984, p.136) “al menos desde 1615 em adelante, buscó la evangelización y redución de otras
poblaciones guaranies no conquistadas por los españoles en el Paraná, el Uruguay y
el resto del Guayra”. Desta forma, estariam distantes deste sistema que entrava em
choque com suas crenças para o êxito reducional. Logo, percebemos uma tentativa dos jesuítas de se adequar ao sistema, afastando-se dele e posicionando-se no restante do território.
A economia era centrada na exploração e plantação de algodão e erva-mate bem como da criação de gado que, com o avanço das reduções ao longo do século, vai se fortalecendo mutuamente. São inúmeras as acusações contra a Companhia de Jesus, tanto na Europa quanto em território Colonial. No âmbito colonial, o modelo reducional, por apresentar fatores positivos, cria uma disputa de poder entre a Ordem e a Coroa, além disso, os colonos não podiam penetrar no território reducional por empecilhos estabelecidos pelos religiosos, como a língua.
O fundador da primeira redução jesuítica no Paraguai, Pe. Diego de Torres Bollo, se posiciona contrário à prática da encomienda de indígenas, por ser defensor
da liberdade absoluta dos indígenas; o jesuíta busca o resguardo da cultura indígena, e para tanto busca reduzi-los e, de certo modo, aparta-os da sociedade colonial espanhola.
La reducción debía posibilitar un nuevo orden social y cristiano, hispánico incluso en su orientación profunda, pero sin españoles dentro de ella Para ello se practicaba la separación residencial, no permitiendo la permanencia de españoles, ni “mestizos” ni “negros”, según lo preveía la misma legislación, que los jesuitas interpretarían, sin embargo, en un sentido todavía más restrictivo. Mörner (1970: 315-325 apud Melià, 1995, p. 208)
Devido à forte influência da Companhia de Jesus na América, os jesuítas ganham o privilégio de não fazerem parte do sistema da encomienda no Paraguai. Logo, reduções jesuíticas expandem-se rapidamente, devido à adesão por parte dos indígenas que, ao verificarem os riscos de não estarem “reduzidos” e poderem ser capturados por espanhóis, passam a buscar proteção. Os jesuítas por sua vez, passam a introduzir a criação de gado nas fazendas das reduções, fazendo com que cada vez mais os indígenas se voltem para dentro das reduções e não estejam integrados à sociedade colonial espanhola.
Usando ainda de suas influencias juntos ao Real Padroado, e valendo-se da pobreza da região e da necessidade de proteção da fronteira luso-espanhola, após o término da União Ibérica, em 1640, os jesuítas passam a organizar milícias e a solicitar armas ao Real Padroado. São atendidos em troca do treinamento e fornecimento de suas milícias quando a Coroa necessitasse; os indígenas que prestassem esses serviços não necessitariam pagar os tributos devidos à Coroa e à Diocese.