Tomaremos como exemplo dos mitos da Idade do Ouro nas sociedades ditas "primitivas" as crenças da tribo Aranda da Austrália central [cf. Strehlow, 1947], dos índios Guarani da América do Sul [cf. Eliade, 1971, pp. 167-75; 203-21] e as crenças de certos povos africanos [cf. Baumann, 1936].
1.1 A tribo Aranda
Entre os Aranda, esta Idade do Ouro existe ou existiu, a um duplo nível. No Céu para onde se retirou, com a sua família, um Ser Supremo que não criou a terra nem nela intervém, o Grande Pai com pés de ema, que "vive nesse firmamento perpetuamente verde, cheio de flores e frutos, atravessado pela Via Láctea" [Eliade, 1971, p. 168] onde a
morte não existe e onde, por esta razão, os homens aspiram chegar. Mas, depois que as árvores e as escadas que ligavam a Terra ao Céu foram interditas aos homens no momento da interrupção das relações entre Terra e Céu, só alguns heróis, "chamans" e feiticeiros, conseguem lá chegar. Mas esta Idade do Ouro existiu igualmente na Terra, no momento da sua formação pelos antepassados totêmicos, quando se assemelhava a um Paraíso, "onde a caça se deixava facilmente apanhar e água e frutos abundavam" [ibid., p. 1731, onde não existia bem nem mal, leis ou interdições. Strehlow, [1947, pp. 36 ss.] interpreta os ritos da orgia ritual dos Aranda, como um retorno à liberdade e beatitude dos Antepassados; no seu decurso suspendem-se as proibições por um breve instante (como durante as Saturninas entre os Romanos). Mas, na terra, esta Idade do Ouro parece eternamente perdida.
1.2 Os índios Guarani
Não acontece o mesmo com os índios Guarani [cf. Schaden, 1954; 1955]. Acreditam na existência de uma "Terra sem mal", a "Terra da imortalidade e do repouso eterno", situada "do outro lado do Oceano ou no centro da terra", na Ilha dos Bem-aventurados, o Paraíso do mito original: o atual mundo impuro e decadente vai desaparecer numa catástrofe; só a "Terra sem Mal" será poupada. Os homens devem, pois, tentar alcançá-la antes da última catástrofe. Daí a razão das migrações dos Guarani, desde há séculos, em busca da ilha fabulosa.
Métraux [1957] refere um jesuíta do século XVII, a propósito de uma etnia Guarani, os Tupinambá: "Os 'chamans' persuadem os índios a não trabalhar, a não ir para os campos, prometendo-lhes que as sementeiras crescerão por si, que a comida, ainda que escassa, encherá as suas cabanas e que as enxadas trabalharão sozinhas a terra, que as flechas caçarão para os seus donos e capturarão inúmeros inimigos. Predizem que os velhos se tornarão jovens" [citado em Eliade, 1969]. Mircea Eliade comenta este texto: "Reconhece-se a síndrome da Idade do Ouro" [ibid.]. Sublinha igualmente que este paraíso da Idade do Ouro é o do princípio dos tempos: "O paraíso representa, para os índios Tupi-Guarani, o mundo perfeito e puro do 'princípio', quando foi acabado pelo Criador e onde os antepassados das tribos atuais viviam na vizinhança de deuses e heróis" [ibid.]. E ainda: "O paraíso que procuram é o mundo restaurado na sua beleza e glória iniciais" [ibid.].
1.3 Alguns povos africanos
Segundo Hermann Baumann, para vários povos africanos "a Idade do Ouro em que os homens viviam com os deuses e eram felizes e imortais... era também a idade do dolce far niente" [1936, pp. 328-29]. Para os Ashanti, o Deus Criador tinha proibido as relações entre os sexos. Quando foi violada a proibição, Deus impôs aos homens o dote e o trabalho e às mulheres um parto doloroso. Para os Luba, Deus condenou ao trabalho e à mortalidade os homens que tinham comido as bananas proibidas. Poder-nos-íamos interrogar, pelo menos nestes dois casos, sobre a existência de influências cristãs. A introdução do trabalho é semelhante em alguns mitos dos Kuluwa da África Oriental, dos Nyamwesi e de outros povos [ibid.].
Voltaremos ao conteúdo do mito da Idade do Ouro. Sublinhe-se desde já que o mito implica quase sempre uma localização simultânea no tempo e no espaço. Impõe-se uma primeira distinção: a que existe entre os paraísos terrestres e os paraísos extraterrestres, geralmente situados no céu. Quanto aos paraísos terrestres, é necessário distinguir os imaginários e os outros. Entre os primeiros, alguns foram ficções voluntárias e conscientes, próximas da utopia (como a Atlântida, de Platão), outros foram considerados como tendo realmente existido (por exemplo, as Ilhas Bem-aventuradas, quer se trate da "Terra-sem-mal" dos Guarani, quer das Ilhas Paradisíacas da Antiguidade greco- latina, ou das geografias do Ocidente medieval). Com o Renascimento europeu, voltar-se-á uma página ao tentar identificar a terra da Idade do Ouro com regiões reais (mito paradisíaco da América) ou com lugares onde se irá implantá-la. Esta aliança do tempo com o espaço inspirou uma "politização" do mito nas concepções das Idades
Míticas.
1.4 Algumas civilizações orientais
Se analisarmos as civilizações orientais e, de modo geral, as grandes religiões e civilizações, excetuando as três grandes religiões monoteístas (cristianismo, judaísmo, islamismo), a partir dos mitos e crenças relativos ao nascimento do mundo, encontramos ao mesmo tempo, e a maior parte das vezes, um mito original da Idade do Ouro ligado a um paraíso e uma doutrina das Idades do Mundo ligada, muitas vezes, a uma concepção do tempo cíclico ou do eterno retorno. O paraíso da Idade do Ouro é por vezes um jardim, muitas vezes uma ilha e raramente uma montanha. A Idade do Ouro que existe no princípio de um ciclo de idades é freqüentemente considerada a época do Deus-Sol [cf. MacCaffrey, 1959; Hackel, 1963]. O paraíso da Idade do Ouro tanto se situa na terra como no céu; existe também uma concepção do mundo que une a terra e o céu [cf. Vuippens, 1925].
Sabe-se que, no Egito antigo, raramente se efetuou uma unificação dos diferentes mitos e ritos das populações primitivas do mundo egípcio; não há pois "um único relato oficial da "Primeira Vez" do mundo" [Naissance, 1959, p. 19]. Mas vários textos evocam uma Idade do Ouro, dada como anterior à própria criação do mundo, fora da gênese. Os textos das Pirâmides falam de um tempo anterior ao demiurgo em que "ainda não havia morte, nem desordem" [ibid., pp. 43-46]. No tempo de Ogdoade, divindade primordial com quatro entidades, desdobradas em oito gênios, os "Oito Antepassados dos primeiros tempos anteriores", "a terra vivia na abundância, os ventres estavam saciados, as duas terras [o Egito] não conheciam a fome. Nem os muros desabavam, nem os espinhos picavam..." Segundo outro texto da mesma época, "no tempo dos deuses anteriores, a ordem cósmica passou do céu para a terra e misturou-se familiarmente com todos os deuses. Havia abundância, sem restrição de víveres e alimentos. Não existia o mal nesta terra, nem o crocodilo predador, nem a serpente que morde" [ibid., p. 54].
Estes textos são oriundos de Heliópolis, a "cidade do Sol", onde foi usado um dos sistemas cosmogônicos mais difundidos do Egito antigo. Nela encontramos evidentemente, em primeiro lugar, o papel do sol. O Deus-Sol (Ra-Atum) surge de repente, uma bela manhã, sob a forma de criança radiosa, de flor de lótus; difundiu a luz e criou os deuses e os seres. Este aparecimento da luz teve lugar numa ilha maravilhosa, a Ilha Iluminada. Esta criação chama-se "Primeira Vez", porque foi chamada a recomeçar. No fim de cada ciclo há a ameaça do retomo ao caos. Em suma, a criação dá-se, uma vez mais, cada manhã quando a luz brota, no início de cada estação, de cada ano, de cada novo reinado de um Faraó.
Na Mesopotâmia antiga, o poema cosmogônico acádio Poema da Criação (Enibna élish) é um hino à glória do herói Marduk que matou a deusa má Tiãmat, o mar, e a partir do seu corpo construiu o universo e o homem. Marduk, chamado "Sol dos céus", simboliza o triunfo das forças da renovação primaveril. Todos os anos as cerimônias babilônicas do Ano-Novo repetiam a criação de Marduk [cf. Naissance, 1959, pp. 157-62; cf. também Labat, 1935].
No zoroastrismo ou no mazdaísmo, "a idéia do tempo limitado domina tudo" [Naissance, 1959, p. 303]. O tempo entrou na criação do mundo através do deus da luz, Õrmazd (Ahura Mazdãh) e do antagonismo fundamental que opõe Õrmazd ao deus das trevas, Ahriman. O grande ano cósmico deve durar nove mil anos. Depois de ter estado paralisado durante três mil anos, Ahriman lutará ainda seis mil anos. Na metade deste período aparecerá Zoroastro que vai ensinar aos homens a verdadeira religião. Ao fim de nove mil anos, um Salvador, juntamente com Õrmazd, vai proceder ao Julgamento Universal, expulsando os demônios e o mal, durante os dez últimos dias, do último ano do mundo, que acaba no dia de Ormazd, no mês de Fravartin, primeiro dia da Primavera.
A morte deixará de existir e reinará a felicidade perfeita. O livro pahlavi do Boundahishn também contém este mito do tempo zoroástico: "Ormazd diz ao Espírito do Mal: "Fixa-me um tempo, para que eu te faça guerra durante nove mil anos, de acordo com esse pacto", pois ele sabia que ao fim desse tempo podia reduzir à impotência o Espírito
do Mal. Sem se aperceber das conseqüências de tal pacto, o Espírito do Mal concordou com ele... Graças à sua onisciência, Õrmazd sabia também que, destes nove mil anos, três mil decorreriam totalmente de acordo com a sua vontade; durante os outros três mil, as vontades de Õrmazd e Ahriman seriam misturadas, equilibrando-se; e durante o último período de guerra, poderia reduzir à impotência o Espírito do Mal e eliminar da criação a contra-criação" [ibid., pp. 317-18].
No hinduísmo, a teoria das Idades Míticas é mais complexa e insere-se na crença do eterno retorno. A unidade do tempo mítico é um dia de Brahmã ou kalpa. Cada kalpa divide-se em séries de quatro yuga, o Krtayuga, o
Trẽtayuga, o Dvãpazayuga e o Kalyuga. De um yuga a outro, as condições do mundo e do homem pioram. O Krtayuga é uma Idade do Ouro em que os homens são felizes, virtuosos, vigorosos e vivem muito tempo. Vão-se
tornando cada vez mais infelizes, maus, doentes e têm uma vida cada vez mais curta. Um kalpa abarca mil séries de quatro yuga. No fim de cada dia de Brahma, a terra é destruída e só existe em estado latente durante o sono de Brahmã, que dura quatro mil yuga. Depois, a terra renasce e recomeça um novo kalpa. A vida de Brahmã dura cem
kalpa. Quando esta acaba, produz-se um fim geral do mundo, o mahapralaya, e depois há uma nova criação geral.
Atualmente, a humanidade encontra-se no princípio de um mau KaRyuga que, tendo começado 3102 anos a.C., acabará daqui a 432 000 anos, dando lugar a um novo Krtayuga, uma nova Idade do Ouro [cf. Glasenapp, 1960]. Segundo outros textos e, em particular, as Leis de Manu, a sucessão cíclica das idades ou Manvantaras é diferente [cf. Naissance, 1959, p. 362, nota 10]. Também os Chineses conheceram uma teoria cíclica, de um mundo sem princípio nem fim, que decorreria no interior de um ciclo de 129 600 anos, com períodos em que o mundo existe em ato e outros em que existe em potência. Os Chineses também consideram nestes ciclos uma Idade do Ouro [cf. Lévi, 1977]. Assinale-se, a propósito, que a mais mítica de todas as Idades, onde por vezes se situa a Idade do Ouro, é, em certas religiões, anterior à criação, quando o tempo ainda não existia. Idade ambígua, nomeadamente pela oscilação entre o caos ou desordem e a perfeição total, muitas vezes simbolizada pelo ovo (por exemplo, entre os Egípcios). Esta perfeição total exprime-se, muitas vezes, nos mitos do andrógino, em que os sexos ainda não estão separados. Este andrógino primitivo é especialmente notável no caso da China, em que a oposição entre o princípio masculino ou
yang e o feminino ou yin é fundamental [cf. Baumann, 1955]. Entre os Thai do Laos e do Camboja reencontra-se o
mito da Idade do Ouro: "Excetuando a gênese ahour, as cosmogonia thai narram o nascimento de um mundo que precedeu o nosso, com cosmos em miniatura, onde reinava a Idade do Ouro; então, céu e terra, deuses e homens comunicavam entre si" [Naissance, 1959, p. 385].
Mesmo no Tibete, em textos bon-po, influenciados pelo budismo, como o Klu'bwn,'as mil serpentes', se encontra também o mito da Idade de Ouro: "Nesse tempo não se distinguiam estações: o sol, a lua, os planetas, as constelações alteravam-se pouco, e mesmo o trovão, os raios, os relâmpagos, a chuva, o gelo e o granizo não seguiam o curso das estações. Os infelizes não tinham donos; todas as florestas e vegetais cresciam por si sós; o mundo nada podia contra este estado de coisas... Havia muitos pássaros e caça mas não havia quem os caçasse... Havia aquilo a que chamamos doenças, mas não causavam sofrimento, nem dor. Havia também o que chamamos alimentos, mas não eram consumidos nem faziam engordar. Havia o que chamamos demônios, mas não podiam opôr-se a nada. Havia o que se chama Klu mas não magoavam nem paralisavam. Nesse tempo, a felicidade existia, mas não havia ninguém para distingui-la" [ibid., 1959, p. 442].
Finalmente no budismo, tal como no hinduísmo, reencontramos ciclos de idades. As idades são tempos de formação, de subsistência ou de repouso. Os períodos de subsistência do mundo dividem-se em vinte: dez, em que a civilização progride; dez, em que retrocede. Durante a Idade do Ouro do primeiro período, os homens são felizes, virtuosos e vivem muito tempo. Depois, gradualmente, os homens tornam-se cada vez mais infelizes, maus e de vida efêmera. No final de um ciclo, os homens matam-se uns aos outros numa guerra geral. Só alguns, refugiados na floresta, virão a ser os antepassados de uma nova humanidade. Felicidade, virtude e duração de vida aumentam novamente e a vida humana, cuja duração tinha decaído até os dez anos, aumenta progressivamente para voltar a durar
até os oitenta mil anos. Após períodos de progresso e declínio, a terra é destruída; depois de um período de repouso um novo mundo reaparece. E isto dura eternamente [Glasenapp, 1960, pp. 86-87].