O animal está no mundo como a água no interior da água. Essa sentença luminosa de Bataille revela algo sobre a origem antropológica dos espaços de interiorização, bem como das narrativas religiosas. Como se sabe, para Bataille a religião nasce de uma aniquilação da consciência em uma passagem da descontinuidade à continuidade, movimento que ocorre sobretudo na triangulação central morte-sagrado-erotismo247. Essa experiência- limite faculta ao animal humano a sua humanidade, ou seja, que promove a abertura a partir da qual lei e transgressão se fundem em um só gesto hominizador. A importância
243 E-I, 23. 244 E-I, 23-24. 245 E-I, 23-24. 246 E-I, 24.
247 Esta é a tese central desenvolvida em Teoria da Religião, mas está posta também em O Erotismo:
BATAILLE, Georges. Teoria da religião. São Paulo: Ática, 1993. BATAILLE. O erotismo. Trad. Cláudia Fares. São Paulo: Arx, 2004.
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dessa dimensão originária de indiscernibilidade é encontrada por Sloterdijk sobretudo nas narrativas religiosas, pois elas inauguram justamente a possibilidade de habitarmos um espaço de pura interioridade. Entre coisas e seres, a obra Esferas constitui a travessia dessa interioridade pura e deste animal que logo somos248.
Interioridade ontológica e não psicológica, ou melhor, ôntica mais do que ontológica, as esferas se fundam sobre a experiência de dissolução do espaço privativo da consciência e a suspensão da dicotomia sujeito-objeto, centrais em diversas narrativas religiosas, ganham um estatuto epistemológico inesperado. Assim, após a catástrofe esferológica que funda a modernidade, a partir do século XVIII, e que nos arrojou nas regiões extrínsecas do ser, na falação da gente (Das Man) e na inautenticidade, nas quais o mecanismo do Universo vazio é também o cadáver de Deus, uma das tarefas precípuas do pensamento contemporâneo tem sido mostrar as vias de acesso e os meios pelos quais podemos empreender uma nova cartografia do Interior. Mais que isso: reconquistar o Exterior.
O mundo extenso precisa ser novamente mapeado, descoberto, batizado. À medida que a experiência do fora249 é colocada como problema filosófico central da modernidade,
como intuíram Foucault e Deleuze, a conquista do Extenso e do Exterior se torna a nova missão biopolítica, a nova motivação profética do pensamento. Pois é dessa conquista do Extenso que depende a própria sobrevivência da esfera global do planeta Terra na qual nos transformamos, nesse movimento final da globalização250. Trata-se do movimento antropológico central do próximo milênio. De seu sucesso depende a sobrevivência da espécie251. Em diversos momentos de sua obra, Foucault trata dessa emergência de um sujeito que produz a sua autoexclusão no interior do discurso. Trata-se de um processo de interiorização excludente, ou seja, um movimento no qual o eu se implica na linguagem justamente para poder se excluir dela ao objetivá-la. Esse desdobramento político-
248 DERRIDA, Jacques. O animal que logo sou. Tradução de Fábio Landa São Paulo: Unesp, 2002. 249
Sloterdijk usa os termos exterior e extenso para descrever uma região da experiência/linguagem semelhante à descrita por Foucault em seu conhecido ensaio, O pensamento do exterior. Porém, embora tanto a tradução portuguesa quanto a brasileira tenham mantido exterior, há um debate entre especialistas de que a melhor tradução para dehors seria fora, não exterior, e, portanto, o pensamento do fora. Mantive aqui o termo fora para Foucault, para Sloterdijk sigo utilizando o binômio exterior-extenso.
250 Não por acaso, o epílogo de E-II é a possibilidade de repensar o Extenso, para reconquistá-lo e interiorizá-
lo: “O Incompreensível ou a Redescoberta do Extenso”, E-II.
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discursivo e as tecnologias de domesticação do eu que ele revela são centrais para compreender a articulação entre a hermenêutica do sujeito e a genealogia/arqueologia das instituições/saberes252.
Se partirmos do pressuposto de que toda a teoria da legalidade e da soberania repousa sobre uma decisão sobre a exceção, a condição da exceção se ilumina com uma claridade inesperada. A partir de então, regra e exceção, norma e fato passam a se embaralhar. O porteiro de Kafka, diante da porta da Lei, é um fora da Lei justamente porque não aprendeu a arte de transgredi-la. Ou seja: de produzir a sua autoexclusão inclusiva nas malhas da linguagem. É um afásico do poder. Assim, também no plano da esferologia, intimidade e de extimidade mantém uma relação dialética, e torna-se decisiva a tarefa de identificar onde de fato residem a liberdade, a opressão, a soberania. Como diria Carl Schmitt: soberano é aquele que decide sobre a exceção253. Ou: todos os que falam em nome da humanidade o fazem com o intuito de enganar254. Eis o ponto de contato entre a esfera vivencial concreta e existencial e a esfera global biopolítica em que vivemos enredados no atual estado do Capital.
A dimensão política desse movimento de intimidade-excludente e esses mecanismos de inclusão-exclusiva, intuídos por Foucault na construção discursiva da modernidade, cujo corte epistêmico ocorre no século XVII255, é também a espinha dorsal do pensamento de Agamben256. À medida que o homo sacer realiza a figura exemplar do ordenamento jurídico, justamente ao encarnar a exceção, ele é a figura por excelência que funda a modernidade em seu horizonte biopolítico, ou seja, no momento histórico em que as tecnologias de poder deixam de ocupar da bíos (vida determinada) e passam a confiscar a
vida nua e a se apropriar da vida fática e indeterminada: a zoé. Ao fazê-lo, criam aparelhos
252
Conferir especialmente: FOUCAULT, Michel. O Pensamento do Exterior. São Paulo: Princípio, 1990.
253 Este é o leitmotiv da teorização jurídica do homo sacer: AGAMBEN, Giorgio. Homo Sacer: o Poder Soberano e a Vida Nua. Volume I. Belo Horizonte: UFMG, 2002.
254
A Esquerda Celeste e a Terrestre, E-II, 280.
255 FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. Uma arqueologia das ciências humanas. Tradução Salma
Tannus Muchail. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
256 Todo o projeto Homo Sacer, em cinco volumes. Especialmente o primeiro volume: AGAMBEN, Giorgio. Homo Sacer: o Poder Soberano e a Vida Nua. Volume I. Belo Horizonte: UFMG, 2002.
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de domesticação da vida e do ser e deliberam, definem e legislam sobre a vida matável257. É a ascensão do estado de exceção, desdobramento lógico e natural da razão instrumental moderna, não a sua excrescência258.
Por seu lado, a preocupação com o êxodo da subjetividade clássica e a ênfase dada a uma concepção maquínica e institucional do inconsciente, bem como aos processos de subjetivação e de brisuras, mais do que à subjetividade propriamente dita, estão presentes em toda obra de Deleuze259. Diversos de seus conceitos mimetizam o processo de esvaziamento da interioridade no mundo moderno e figuram um novo horizonte para o Interior: rizoma, corpos-sem-órgãos, polinizações, pontos de fuga, platôs, agenciamentos, desterritorializações. Esse esvaziamento é ele mesmo o motor do desenraizamento humano, responsável pela extinção da noção de experiência, como profeticamente notou Benjamin260.