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Mas por que o homem realiza sua humanidade em envolturas esféricas? Para que os povos e seres vivem e apenas conseguem viver em interiores compartilhados e dotados de sentido? Como as esferas operam em nossa vida desde o nascimento da consciência na jornada evolutiva até os dias de hoje? Uma das melhores definições de esferas dadas por Sloterdijk deixa bastante clara uma dimensão funcional nuclear: “esferas são criações espaciais imunologicamente efetivas para seres extáticos sobre os quais opera o exterior”118. Eis uma síntese precisa: “esferas são sistemas de imunização”. Desde os povos

coletores e caçadores, passando pelos primeiros indícios de agricultura; desde as culturas imperiais e a odisseia da era metafísica ao limiar de uma geografia global e planetária; desde a etapa final da globalização da Terra à emergência dos pós-humanos: todos sem exceção dispunham e dispõem de sistemas de imunização efetivados por meio de transferência esferológica. Todos os impérios pré-modernos asseguraram suas fronteiras por meios de transferência de sentido metafísico às realidades cosmológicas e sobretudo por “instrumentos de imunologia política”119. Os poderes globais contemporâneos asseguram sua hegemonia por meio de vinganças adiadas e do poder timótico (thymos) de rivalizações policêntricas120. O que chamamos de história universal não é nada mais do que a história de “guerras entre sistemas de imunidade”121. A esferologia pretende descrever a

matriz desses sistemas imunológicos mediante as suas derivações projeções: microesferas, macroesferas e pluriesferas. Portanto, para seguir o pensamento de Sloterdijk nos conceitos de religião e hominização, valho-me de concepções de alguns pensadores afins à sua própria obra: Peter Berger, Thomas Luckmann, Niklas Luhmann, Immanuel Wallerstein, Roberto Esposito e Régis Debray.

118 E-I, 36-37. 119

E-I, 68.

120 IT.

121 Conferir meu ensaio abordando o lançamento simultâneo no Brasil de Ira e tempo e Crítica da razão cínica: PETRONIO, Rodrigo. Pensar com bílis e poesia. O Estado de S.Paulo, Sabático, 14 de julho de 2012, p. 3.

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Como se sabe, Berger e Luckmann têm uma definição muito oportuna de religião como “sistema de sentido”122

. Conforme enfatizam, o cristianismo na Europa conseguiu “trazer todas as pessoas para dentro de um espaço de poder e mantê-las dentro de um único, comum e supraordenado sistema de sentido”123

. Nesses termos, a capacidade de absorção de um sistema que produz a passagem de zonas de indiferenciação a zonas de diferenciação significativa seria propriamente a atividade sistêmica de sentido. Embora sua abordagem seja mais sociológica, ela serve muito bem a reflexões filosóficas, justamente pela sua abrangência. As religiões são narrativas que dotam a realidade de sentido. Não quero entrar aqui na complexidade da própria definição do objeto dada por Berger, à medida que abre a possibilidade de toda dotação de sentido ser religiosa, o que criaria um problema epistemológico. Valho-me dela mais por causa da sua importante abrangência semântica e pragmática. Por isso mesmo, por sua pregnância relativa aos dois conceitos mobilizados neste trabalho, sobretudo o conceito de religião, bem como por causa de sua convergência com a teoria das esferas.

Por seu lado, Luhmann define a totalidade das produções humanas como sistemas autopoiéticos, ou seja, como sistemas capazes de gerar, produzir e reproduzir a si mesmos, mediante um intercâmbio entre sistema e meio124. A teoria comunicativa de Luhmann parte de uma improbabilidade125. Em outras palavras, a “comunicação é improvável”126.

Porém, justamente por isso, o grau de redução sistêmico é possível, pois quanto maior o grau de indeterminação de sistema, maior a sua necessidade de ser reduzido a um elemento extrassistêmico, semelhante ao teorema da incompletude de Gödel. A teoria geral dos sistemas é uma das definições mais abrangentes e operacionais das instituições e organizações humanas, mas também de todas as instâncias organizacionais da vida, seja ela histórica ou natural. Não por acaso, antes de desenvolver sua brilhante e

122 BERGER, Peter & LUCKMANN, Thomas. Modernidade, pluralismo e crise de sentido: a orientação do homem moderno. São Paulo: Vozes, 2004.

123 Ibidem, p. 42.

124 LUHMANN, Niklas. Introdução à teoria dos sistemas. Petrópolis: Vozes, 2009. Ver também MATHIS, Armin. A sociedade na teoria dos sistemas de Niklas Luhmann:

http://www.infoamerica.org/documentos_pdf/luhmann_05.pdf

125 MATHIS, Armin. A sociedade na teoria dos sistemas de Niklas Luhmann:

http://www.infoamerica.org/documentos_pdf/luhmann_05.pdf

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personalíssima obra, Luhmann estudou com Talcot Parsons, o famoso sociólogo da regulação dos sistemas organizacionais e da teoria das mediações das sociedades complexas.

Em linhas de afinidades, segue a descrição da modernidade empreendida por Wallerstein como a formação de um sistema-mundo. Sua tese se desenvolve em observância ao desenvolvimento do capitalismo e demonstra como o sentido das relações econômicas assimétricas descreve uma unificação por meio das economias hegemônicas, convertendo-se em um sistema planetário. A proximidade do conceito de sistema-mundo com o de esferas é clara. A teoria de Wallerstein se liga mais ao processo de formação da terceira etapa esferológica, aquela que determina a modernidade e é descrita pela imagem da espuma. Não tem a pretensão antropológica totalizadora da abordagem de Sloterdijk. Mesmo assim, pensar a formação da era das espumas em diálogo com a hegemonia do sistema-mundo pode ser produtivo.

Há outro autor com teses afins ao pensamento de Sloterdijk: Roberto Esposito. O filósofo italiano, relendo Foucault e Agamben, desenvolve sua trilogia tendo em vista mapear os meios pelos quais se constrói a história da biopolítica a partir de três etapas que nomeiam cada um dos volumes de sua obra: communitas, immunitas e bíos127. Para Esposito, os sistemas de imunização são tecnologias de preservação da vida. São as primeiras películas de que se revestem a zoé, a vida nua, para cunhar o termo de Agamben128. O conceito de imunização e as ideias de Luhmann são bons guias para concebermos uma definição possível para as narrativas religiosas e teológicas e, simultaneamente, articular essas narrativas, usadas à exaustão por Sloterdijk, à categoria central de esfera. Acredito que possamos atravessar os três volumes das esferas de Sloterdijk a partir de uma hipótese que alinha ambos conceitos, religião e hominização. Nesse sentido, as religiões seriam sistemas de imunização extremamente elementares,

127 ESPOSITO, Roberto. Communitas. Origen y destino de la comunidad. Buenos Aires/Madrid: Amorrortu

editores, 2003. ____.Immunitas. Protección y negación de la vida. Buenos Aires/Madrid: Amorrortu, 2005. _____.Bíos. Biopolítica y filosofía. Buenos Aires/Madrid: Amorrortu, 2006.

128 Conferir todos os volumes do projeto Homo Sacer, em andamento, mas acima de tudo o primeiro volume,

que lança as bases teóricas do projeto: AGAMBEN, Giorgio. Homo Sacer: o Poder Soberano e a Vida Nua – I.

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enraizadas na experiência primordial humana, que é, como veremos, a experiência esférica.

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