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3. METHODOLOGICAL ASPECTS

3.4 Experimental designs

3.4.2 Raphidocelis subcapitata

Após ler essas linhas, Jacqueline fez as intervenções, destacadas em fonte vermelha:

Excerto 10

01 Neste capítulo, pretendemos mostrar as sucessivas aproximações que o

02 informante faz entre a sua palavra escrita e a discursividade da área que se propôs a 03 estudar ao longo de seus anos de formação. Mais precisamente, analisaremos quais 04 foram as soluções adotadas pela informante para simular sua inserção em aproximar-se

05 gradativamente de uma dada discursividade, sem ter realmente quando ainda não tinha

06 se inserido nela. (comentário 1: Cuidado Cândida, sua preconceituoso...)

Trata-se, portanto, de evidenciar como, para aprender a escrever, uma

07 pesquisadora iniciante precisa, constróiem primeiro lugar, construir um produto que 08 corresponde a seu imaginário de texto acadêmico. Para tanto, analisaremos o relatório

09 Iniciação Científica da informante, mais especificamente, aa análise de dados feita 10 porela. ela informante em seu relatório de Iniciação Científica.

Pode-se notar que até a linha 4, as intervenções da orientadora foram de cunho de elaboração textual: inseriu uma vírgula na primeira e na terceira linha. Já na linha 4, por meio da subtração da parte “simular sua inserção”, rechaçou a afirmação feita pela pesquisadora em relação aos dados que analisava. Na linha 5, também cortou a expressão “sem ter realmente”. Dado o percurso da mestranda na pós-graduação, pode- se dizer que essa tinha conhecimento de que afirmações preconceituosas não caberiam em um texto acadêmico, entretanto, estava escrevendo desde um lugar calcado em um imaginário a respeito dos dados a ponto de não ter conseguido, sozinha, retroagir sobre seus enunciados.

Tal opinião destaca-se, primeiramente, pelo uso do verbo simular (linha 4), termo que pode remeter o leitor a um sentido pejorativo, indicando falsidade, não credibilidade por parte da pesquisadora. Tais sentidos podem ser evocados até pelas duas primeiras definições que o dicionário Aurélio traz para esse o verbo: 1. Fingir (o que não é). 2. Aparentar (1).

Na oração seguinte, a contraposição aparência/essência, verdade/mentira é atualizada e reafirmada pelo uso da expressão sem ter realmente (linha 5). Essa, por sua vez, de duas maneiras reforça a tese de simulacro desenvolvida por Cândida: a preposição sem já expressa uma relação de falta, ausência, ideia que é salientada pelo uso do advérbio realmente. É como se a mestranda precisasse dizer, de diferentes formas, que os dados que estava analisando mostravam uma informante que não se inseriu na discursividade universitária. Vemos aí uma das dificuldades ao se analisar um dado, tomar uma opinião pessoal como verdade, tal qual foi colocado por Bachelard (1996). Essa dificuldade também está relacionada àquela que se refere à relação do pesquisador com o saber.

Jacqueline, então, ao ler esse trecho, fez duas operações: 1) Corte das expressões que comprometeriam a argumentação da pesquisadora e reescrita do enunciado de modo a aproximá-lo de uma asserção universal, 2) Aviso, por meio do vocativo, de que o modo como formulou o enunciado soava preconceituoso.

Na reescrita feita pela orientadora, observa-se a substituição do verbo simular por outro cujo efeito de sentido é inverso: aproximar-se gradativamente (linhas 4 e 5). Se na formulação inicial as soluções encontradas pela informante de Cândida adquiriram um sentido de cunho pejorativo, na reformulação elas foram minimizadas.

Note-se que o advérbio gradativamente (linha 5) ressalta a ideia de processo que já é embutida no verbo aproximar-se.

Jacqueline faz uma intervenção que também visa a levar a pesquisadora a uma mudança de ética. Cândida estava fazendo um mestrado em educação, contudo, seu olhar diante dos dados era bem pouco educacional, somente apontando os problemas do texto da sua informante e não como essa foi mudando de posição ao longo da formação. Analisando o enunciado sequente (linhas 6 a 10), Jacqueline voltou a sustentar a necessidade de a orientanda escrever a análise de dados desde outro lugar enunciativo. Comparando as duas formulações, temos:

Formulação inicial Formulação reformulada pela orientadora

Trata-se, portanto, de evidenciar como uma pesquisadora iniciante constrói em primeiro lugar um produto que corresponde a seu imaginário de texto acadêmico. (negrito nosso)

Trata-se, portanto, de evidenciar como, para

aprender a escrever, uma pesquisadora

iniciante precisa, em primeiro lugar,

construir um produto que corresponde a seu

imaginário de texto acadêmico. (negritos nossos)

Quadro 8 – Formulação escrita por Cândida e a respectiva reformulação feita por Jacqueline

Vê-se que, no primeiro trecho, a informação é colocada de modo assertivo, sem deixar dúvida de que a pesquisadora, cujos textos foram estudados por Cândida, construiu um produto que, nas palavras da mestranda, corresponderia ao imaginário de texto acadêmico de sua informante. O trabalho de Cândida, portanto, seria o de evidenciar o modo como a informante fez essa construção.

Já na reformulação feita pela orientadora, a linha argumentativa foi inversa à de Cândida, na medida em que retirou a carga semântica pejorativa com relação aos dados. Ao invés de evidenciar a construção da informante (talvez para criticá-la), segundo a orientadora, o trabalho passou a evidenciar que para aprender a escrever (elemento que não aparecia na formulação inicial), o pesquisador – que está em processo de aproximação do discurso universitário – precisa construir essa imagem de texto acadêmico. Vemos, novamente, duas concepções de educação em debate. Do mesmo modo, duas acepções da função do imaginário para o ser humano.

Entende-se, portanto, que se para Cândida eram quase nocivos os modos de escrita de sua informante, para a orientadora, tratava-se de um processo necessário para que aquele que se inicia como pesquisador venha a se constituir enquanto tal.

Jacqueline interveio não somente no nível da reescrita dos enunciados de sua orientanda, mas, de modo direto, chamou-lhe a atenção com relação à construção

textual cujo efeito indicava uma postura depreciativa acerca da forma como sua informante escreveu o relatório de Iniciação Científica. Para tanto, utilizou-se de um vocativo (Cuidado, Cândida), advertindo-a de que, no seu entender, a formulação soava preconceituosa.

Entretanto, ao tentar dizer soa preconceituoso, escreveu sua preconceituoso. Pela troca da vogal O por outra, a U – letras separadas pelo teclado do computador apenas por uma outra letra (i), nota-se que o enunciado pretendido era a frase mais “adequada” à situação, mais condizente ao dizer de uma professora universitária.

Ao advertir quanto aos efeitos de sentido da formulação, Jacqueline ensinou à mestranda que, em um texto acadêmico, não há lugar para ideias preconceituosas, advindas de uma opinião pessoal. Trata-se de um aviso de que a imagem de texto que estava passando aos leitores era de um texto preconceituoso, portanto, não pertencente a quem busca construir o espírito científico. Outro modo de entender o “sua preconceituosa” é lendo o “sua” como o imperativo verbo “suar”. Nesse sentido, poderíamos pensar na necessidade da pesquisadora “suar a camisa” para analisar os dados.

Essa troca poderia ser justificada como um desvio de digitação ou ainda uma variação fonética da palavra. Contudo, acreditamos que não se trata de um descuido qualquer. Trata-se do sujeito da enunciação que se imiscuiu e apareceu nesse lapso, a partir do qual se entende que a orientadora dirigiu uma admoestação à pesquisadora, chamando-a de preconceituosa. Podemos pensar que, se Jacqueline tinha alguma dúvida de que a orientanda, por meios indiretos, não entenderia a imagem de texto que estava passando para um leitor externo, de modo direto o sujeito da enunciação lhe avisou.

Ao longo do capítulo, os 25 comentários indiciam que o texto apresentado, no julgamento da orientadora, não coadunava com a imagem de texto científico entendido por ela como passível de ser apresentado àquela comunidade acadêmica. Por essa razão, por meio das intervenções que fez em cada trecho, mostrou tanto as dificuldades relativas à elaboração textual quanto as de elaboração intelectual, relativas à posição escolhida para relatar sua pesquisa.

Para fins de organização quanto à apresentação das intervenções, e para que se veja a dimensão do trabalho feito nessa versão do capítulo de Cândida, no Quadro 9, apresentamos cada comentário; a parte onde esse se localiza no texto e as dificuldades que, a nosso ver, foram alvo de incidência da orientadora.