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1.4 Outline of the thesis

2.1.1 Random variables

O ato de ouvir e ver histórias vai além do prazer sensório, pois é através desse que a criança pode conhecer coisas novas, para que efetivamente seja iniciada a construção da linguagem, da oralidade, de ideias, valores e sentimentos, que ajudará na sua formação pessoal e na sua leitura de mundo, que é o primeiro contato de leitura construída por uma criança.

Para Bettelheim (1980), a importância de ouvir os contos, está na possibilidade da criança vivenciar experiências pelas personagens dos contos, fazendo a relação entre o mundo da fantasia e o mundo real.

Como nos explica Bruner (1987), ao se ler ou escutar os contos retoma-se fatos da vida por meio da imaginação, ou seja, os contos muitas vezes contêm imagens que remetem as situações vividas, e por isso, além das histórias imaginárias dos contos, esses retratam histórias reais de pessoas. Isso acontece porque qualquer pessoa já viveu alguma experiência em família de perdas ou conquistas.

Os contos, segundo Bonaventure (1992), não se abrem a uma única interpretação, pois existem várias interpretações. Não há uma forma linear de interpretação: cada leitor/ouvinte em particular é atingido pelos diferentes símbolos e imagens em distintos momentos da vida.

Isso ocorre porque é por meio dos contos que muitas vezes as crianças sentem seus medos, angústias e alegrias. Por isso, é necessário que esses símbolos sejam de algum modo entendido e vivido, pois, segundo Bonaventure, “o próprio símbolo é que é transformador”. (BONAVENTURE, 1992, p. 204).

Coelho (1997) assevera que a utilização de livros para leituras de histórias é significativa quando utilizada com crianças na fase pré-mágica até os três anos e mágica de três a seis anos pelo fato da ilustração gráfica ser, na maioria das vezes, tão rica quanto o próprio texto. Afinal a atenção e o envolvimento com a narrativa vão depender de elementos inerentes ao próprio texto escolhido.

Conforme Costa e Silva (2000), a narrativa oral é uma das formas que permite à criança em idade pré-escolar construir progressivamente um sentido de si própria, enquanto se

situa num mundo de relações e práticas sociais. Além disso, a narrativa possibilita, ainda, acompanhar o processo de incorporação, pela criança, de elementos dos outros e da cultura, ao mesmo tempo em que ela se diferencia como indivíduo.

Para Bruner (1998), a narrativa pode ser expressa oralmente, organizando-se numa história na qual se envolve personagens, circunstâncias e consequências num deslocamento no tempo, criando um enredo. Segundo o autor, a narrativa não tem um compromisso estrito com a veracidade ou com a coerência do raciocínio, e sim, com a verossimilhança. Afirma ainda que quando a criança adquire a capacidade narrativa, essa concede uma solidez à vida social da criança.

Bruner (1987) observa que as várias maneiras de narrar os fatos da vida, isto é, as experiências vividas podem possibilitar à criança atribuir significados para essas experiências da vida e, portanto, ao adquirir esses significados ela os atribui à sua própria vida. Segundo Bruner (1998), a narrativa está presente no discurso do contar e recontar histórias, nas representações gestuais e gravuras, no jogo e nas ações que consequentemente interligam às várias linguagens, dando sentido ao mundo interior da criança e tornando imprescindível no cotidiano infantil.

Segundo o dicionário Aurélio, re + contar = recontar classifica-se na categoria dos verbos transitivos direto, sugerindo que quem reconta o faz a partir de algo que se ouviu contar, ou seja, contar de novo ou tornar a contar ou ainda contar outra vez.

Após a apresentação das narrativas audiovisuais, é possível realizar várias atividades, entre elas, motivar as crianças que não sabem escrever a narrar por meio de desenhos ou de relatar as histórias vistas. Isso tem como propósito auxiliar a criança a lembrar-se das histórias que assistiu em cuja mente se constrói um esquema de texto narrativo, que ativará sua memória para refazer esse esquema para recontar a história.

Zanotto (2003) afirma o quanto é importante que a criança seja orientada no seu relato, pois isso a auxiliará a prestar mais atenção nos elementos fundamentais e a relembrar do enredo e suas tramas. E essa ajuda irá variar de acordo com o grau de dificuldade manifestado, e algumas perguntas podem ser feitas como: Do que vocês mais gostaram/ Vocês mudariam alguma nessa história? Vocês veem ou fazem algo parecido com essa história? Quais eram os personagens? O que aconteceu na história e como ela terminou?

A autora, ainda, aponta que não é o caso de ensinar especificamente a criança a recontar histórias, mas proporcionar-lhe situações em que possa recontar. E que essas situações possam ser utilizadas como um benefício e exercício para o desenvolvimento linguístico da criança nesses momentos. Segundo ela é por meio da recontagem de histórias

que a criança organiza e desenvolve o seu discurso, pois contar uma história pode auxiliar na comunicação oral e na argumentação.

Segundo Matta (2004), crianças dos 4/5 anos ao ouvir histórias e ao assumirem a capacidade de recontá-las podem mais tarde desenvolver uma maior facilidade em recontar o que aconteceu na escola, ou outro fato do dia a dia, e também, faz com que elas possam cada vez mais se apropriar da linguagem.

Para Araújo (2009), as narrativas orais literárias estimulam e ampliam as possibilidades de trabalho com a palavra e isso faz com que a criança amplie a capacidade para criação da imaginação e fantasia. A autora explica também que nos momentos da narração oral, um vínculo é estabelecido entre a criança e história, pois acontece um envolvimento emocional, e em alguns momentos, por meio da identificação com os personagens e se projetando para dentro da narrativa. Essa experiência de viver temporariamente por meio do enredo e das personagens aumenta suas descobertas de mundo da criança.

Além disso, as narrativas infantis desenvolvem também a interação sociocultural das crianças ao proporcionar as recontagens entre elas. Nesse contexto a criança pode receber influência em seu desenvolvimento físico-motor, devido à manipulação do corpo e da voz de que faz uso ao ouvir e recontar as histórias. Marcuschi (2001) conclui que:

A fala (enquanto manifestação da prática oral) é adquirida naturalmente em contextos informais do dia-a-dia e nas relações sociais e dialógicas que se instauram desde o momento em que a mãe dá seu primeiro sorriso ao bebê. Mais do que a decorrência de uma disposição biogenética, o aprendizado e o uso de uma língua natural é uma forma de uma inserção cultural e de socialização. (MARCUSCHI, 2001, p. 18)

Como é observada por Bussato (2003), a narrativa oral, seja ela sobre contos de fadas, mitos, lendas ou fábulas, estimula o imaginário, ligando-a com o seu íntimo e possibilitando reinventar cenas, com seus elementos constitutivos.

De acordo com Girardello (2005), a imaginação da criança é estimulada por meio da narrativa, pois as histórias possibilitam uso da imaginação com a qual as crianças compreendem o mundo e tomam consciência de si próprio. Ela diz, ainda, que a narrativa é uma ponte entre a imaginação e a cultura.

É ouvindo histórias sobre madrastas malvadas, criança perdidas, reis bondosos, mas desorientados, lobas amamentando gêmeos, filhos caçulas que não recebem herança e devem buscar a sorte no mundo, e filhos mais

velhos que desperdiçam a herança e acabam vivendo no exílio, em meio aos porcos, que as crianças aprendem ou desaprendem o que é uma criança, o que é um pai ou uma mãe, o que pode ser o conjunto de personagens entre os quais elas nasceram, e quais são os caminhos do mundo. Prive as crianças de histórias e você as deixará sem roteiro, gaguejando ansiosamente, tanto em suas ações, como em suas palavras (MACINTYRE, 1981, p. 201).

Nesse contexto, Girardello (2009) observa que ao construir seu discurso narrativo, a criança se faz narradora e que isso são “processos dialógicos”. Ainda segundo a autora mencionada, é ouvindo histórias, lidas ou contadas espontaneamente, à luz da literatura ou pela sua vivência e escutando as suas próprias narrativas, que as crianças irão entender como compor narrativamente e consequentemente se transformando em “sujeitos culturais”.