A criança ao desenhar expõe seus pensamentos, sua interpretação de mundo, desenvolve a linguagem e o pensamento lógico. Baseada na teoria de Vygostski, que considera o “desenho- de- memória” como uma “narração gráfica”, Ferreira assevera que a criança lança significado à imagem e, pela palavra, interpreta o que faz. (FERREIRA, 1998, p.33).
Segundo essa pesquisadora, o “desenho da criança é composto de figuração e imaginação, é uma atividade mental que reflete significação, por isso, é dependente da palavra”. (FERREIRA, 1998, p.34). A criança interpreta a realidade ao desenhar usando sua imaginação e fantasia e, ao mesmo tempo, criando maneiras de expressar pela imagem. Mas nesta trajetória, a palavra oral é o signo essencial que dá sentido a figuração. Ferreira (1998) ainda afirma que a figuração auxilia a narrativa e essa melhora dá significado aos traços gráficos feitos pela criança.
Ferreira (1998) utiliza a teoria de Vygotski de que a “fala é constituidora do pensamento”, para explicar que, ao evoluir a fala e o pensamento, a criança consequentemente exercita melhor o seu desenho.
Essa autora ainda ressalta que a interpretação do desenho da criança depende da intelecção do intérprete. Assevera ainda que “o desenho da criança é o lugar do provável, do indeterminado, das significações”. (FERREIRA, 1998, p. 105). Diante disso, surge a importância de se considerar o primeiro desses intérpretes, a própria criança, para que se possa compreender o seu significado.
Para Gobbi (2009), o desenho e a oralidade são interpretados como desveladores de olhares e percepções das crianças no seu contexto social, histórico e cultural, pensados, vividos, desejados. (GOBBI 2009, p.71). Ainda em suas pesquisas com crianças afirma que:
Considerava a fala no momento em que o desenho estava sendo produzido, o que não quer dizer que afastava a dimensão sonhadora, a presença da imaginação e da própria brincadeira com o lápis, com o giz de cera, com os papéis, não engessando essa produção, mas tomando como referência a falas e a composição do desenho no papel. (GOBBI, 2009, p.84-85).
A pesquisadora nos coloca o desenho “[...] como um instrumento que pode ser utilizado quando se quer compreender melhor a infância de crianças na faixa etária de 0 a 6 anos de idade”. A autora afirma, ainda, que o desenho quando conjugado à oralidade ajuda o adulto apreender melhor o mundo infantil. “Ao desenhar, a criança expressa seus sentimentos, seu pensamento e suas experiências, fazendo a compreensão do mundo, além de estimular a inteligência, desenvolver a linguagem e o pensamento lógico”. (GOBBI, 2009 p.74).
Nesta perspectiva, ela propõe que os desenhos deveriam ser tratados como documentos históricos. Segundo ela, as representações gráficas podem ter o mesmo valor de documentos considerados importantes e questiona estudiosos sociais que não compartilham com esse conceito, que se mostram indiferentes em relação às percepções que as crianças têm do seu contexto sócio-histórico-cultural do qual fazem parte, assim demonstrando não reconhecê-las como sujeitos da História. (GOBBI, 2008, p. 201).
Os estudos de Leite e Gobbi (2002) apontam o desenho como uma produção criativa de crianças de 0 a 6 anos de idade, que não tem sido levada a sério como um espaço de troca que possa acarretar aprendizagem e desenvolvimento. Para elas, considerar o desenho na qualidade de produção a ser investigada é vista de forma importante e única, por isso defendem acima de tudo que as crianças sejam qualificadas como “sujeitos singulares contextualizados, possuidores e criadores de história e de cultura, com especificidades em relação ao adulto”. (LEITE; GOBBI, 2002, p. 01).
Segundo Di Leo (1985), os símbolos são os meios de comunicação mais eficientes e universais, porém é importante destacar que esses símbolos não contêm o mesmo significado para diferentes pessoas. Ele afirma que algumas crianças podem colocar em seus desenhos aspectos emocionais, como por exemplo, medo, tristeza, oposição e alegria. Nesse sentido, atuação do educador é fundamental no apoio ao processo para perceber essas nuances.
Melhor que a fala, os desenhos expressam delicadezas do intelecto e afetividades, aspectos sutis que são perceptíveis e que estão ao mesmo tempo além do poder ou liberdade
condicionada pela comunicação verbal. Assim, temos no desenho uma expressão narrativa da criança, o mesmo pode ser refletido quanto ao significado dado a ele, algo individual e intransponível.
Já de acordo com Méredieu (1984, p. 62), há diferentes aspectos a considerar a respeito do desenho. Pode-se estudar sucessivamente como a criança utiliza o grafismo, o modo de distribuição do espaço, a escolha da cor. “Todas essas características têm valor expressivo e traduzem de maneira específica o estado emocional da criança. ”
Tem-se em Luquet (1979) uma observação para o desenho natural da criança. Esse teórico aponta que os desenhos devem ser classificados em diferentes situações, pois assim podem ser analisadas as diferenças culturais que existem nele. Ainda segundo ele, não se deve ter a interferência educador na espontaneidade do desenho da criança, esse somente pode propor temas, porém sem estabelecer qualquer tipo de imposição.
Outra posição a respeito do desenho é apontada por Vygotski (1992), que reitera a existência de “certo grau de abstração” no comportamento da criança que desenha, ao liberar conteúdos da sua memória. Reconhece o papel da fala nesse processo, afirmando que a linguagem verbal é a base da linguagem gráfica constituída pelo desenho.
Vygotski (1992) expõe o desenho como uma representação da língua escrita como sendo uma primeira fase do desenvolvimento daquela. Segundo ele, os traços são os primeiros desenhos das crianças os quais são entendidos como gestos ou tentativas de simbolizar a oralidade. Os desenhos podem ser interpretados como uma etapa preliminar no desenvolvimento da linguagem escrita.
Carneiro (2008, p. 1853) observa que uma das formas de envolver na criação de narrativas as crianças é usar imagens – um storyboard - durante o processo, perguntando a eles sobre o que querem dizer no começo, no meio e no fim. Em seguida, levá-los a desenhar os momentos-chave como eles imaginam que vão aparecer no filme. Segundo autora, “as imagens do roteiro na verdade são imagens narrativas” nas quais as crianças ao desenhar se posiciona em relação ao mundo e na forma de pensá-lo.
O desenho é uma linguagem que a criança utiliza para representar o que ela conhece e se identifica. Sobre esse registro em um papel, Moreira (2008) afirma que “A criança desenha para registrar sua fala. Para escrever. O desenho é a sua primeira escrita. Para deixar a sua marca, antes de aprender a escrever a criança se serve do desenho”. (MOREIRA, 2008, p. 20). De acordo com esses autores o desenho, então, evidencia as ideias de que as crianças vão construindo sobre o mundo à sua volta, ou seja, destaca o processo de construção de conhecimentos vivenciados por elas.