Entendemos por termos eponímicos compostos os formados por mais de um lexema e morfema gramatical (geralmente a preposição de) graficamente ligados por hífen. Possuem alto grau de lexicalização e seus componentes estão em uma relação de não-autonomia. Em nosso córpus de pesquisa, verificamos a ocorrência desse tipo de termo eponímico dentre os sinônimos de sífilis:
Termo composto com epônimo em
forma original Outras designações
mal-da-baía-de-são-paulo (pop.), mal-de-nápoles (pop.), mal-de-santa-eufêmia (pop.), mal-de-são-jó (pop.), mal-de-são-névio (pop.), mal-de-são-semento (pop.)
sífilis, avariose, lues, mal-americano (pop.), mal- canadense (pop.), mal-céltico (pop.), mal-de-coito (pop.), mal-de-fiúme (pop.), mal-de-franga (pop.), mal- de-frenga (pop.), mal-dos-cristãos (pop.), males (pop.), mal-escocês (pop.), mal-francês (pop.), mal-gálico (pop.), mal-germânico (pop.), mal-ilírico (pop.), mal- napolitano (pop.), mal-polaco (pop.), mal-turco (pop.), gálico (pop.), venéreo (pop.)
Quadro 10 – termos eponímicos compostos com epônimo em forma original
O termo sífilis, que designa uma doença sexualmente transmissível, apresentou uma longa cadeia sinonímica, permeada por termos eponímicos de origem antroponímica, tais como mal-de-santa-eufêmia, mal-de-são-jó, mal-de-são-névio e mal-de-são-semento; de origem toponímica, como em mal-de-nápoles e ainda um termo misto: mal-da-baía-de-são-
paulo. De fato, este último possui o topônimo baía-de-são-paulo que, por sua vez, contém um antropônimo (São Paulo).
Esses termos pertencem à classe lexical dos substantivos e o processo de formação que os caracteriza foi, em um primeiro momento, o da composição sintagmática, que produziu um termo complexo. A recorrência de uso conduziu essas unidades terminológicas a um alto grau de lexicalização, chegando ao ponto de todos os elementos que as compõem passarem a ser ligados por hífen. A partir desse momento, o termo deixou de ser complexo para ser composto.
Todas essas unidades terminológicas possuem como base o termo mal e constituem variantes diastráticas de sífilis e avariose, na medida em que se situam em um nível de língua diferente, ou seja, são variantes populares.
A presença de antropônimos alusivos a santos no interior das variantes populares de sífilis foi observada. Acreditamos que isso se deva ao fato de que, no final do século XV – início do século XVI, após a invasão de Nápoles pela França, muitos europeus contraíram doenças que tinham manifestações visíveis na pele. No caso específico de sífilis, sabe-se que as lesões causadas por ela e pela lepra eram bastante semelhantes e, na época, não se distiguiam as doenças, sendo uma, muitas vezes, dada como a outra. A lepra, por exemplo, era utilizada para se referir a lupus, escarlatina, eczemas, sífilis e à lepra verdadeira.
No caso das variantes terminológicas do termo sífilis que contêm em sua formação adjetivos gentílicos e pátrios, podemos explicar que, por causa da guerra a que nos referimos entre a França e o reino napolitano, os franceses passaram a designar a doença como mal-de- nápoles e os italianos, por sua vez, chamavam-na de mal-francês. Como a doença se espalhou rapidamente, como uma peste, devido às sucessivas invasões promovidas por diferentes povos europeus, uma “guerra” linguística também se produziu. A transmissão da sífilis entre soldados de vários exércitos, durante as invasões, fez com que fossem criados diversos nomes em que os povos se acusam entre si. Então, cada povo atingido dava um novo nome à doença, ou ao “mal”, responsabilizando normalmente os povos vizinhos suspeitos de terem sido os contaminadores. (BARROS, 2006, p.154-160). Por esse motivo é que existem as variantes com adjetivos gentílicos e pátrios de várias localidades: mal-napolitano, mal-francês, mal- gálico, mal-polonês etc.
Não consideramos, neste trabalho, os termos compostos com base em adjetivos gentílicos e pátrios como termos eponímicos, uma vez que não foi o nome próprio que deu origem diretamente ao termo, mas sim o nome comum, isto é, o adjetivo pátrio ou gentílico. Por adjetivo gentílico, entendemos o “adjetivo que designa o lugar de origem de uma pessoa
(tanto pode referir-se ao país, como ao estado, cidade, etc.)” (HOUAISS, 2008, p. 85), sendo o adjetivo pátrio um tipo de adjetivo gentílico, que “designa especialmente a nação em que o indivíduo nasceu e/ou a que pertence como cidadão.” (idem, ibidem, p.85-86). Ou seja, são itens lexicais da língua geral que se referem a lugares. Lembramos que, de acordo com o exposto no subcapítulo 3.1, epônimo é o nome próprio com base no qual um conceito recebe uma denominação. Assim, embora os adjetivos gentílicos e os pátrios refiram-se a localidades (que são denominadas com base em nomes próprios), já estão em forma de adjetivo, isto é, são nomes comuns. No caso das variantes populares de sífilis que se caracterizam como adjetivos gentílicos ou pátrios, temos: mal-americano, mal-canadense, mal céltico, mal- escocês, mal-francês, mal-gálico, mal-germânico, mal-ilírico, mal-napolitano, mal-polaco, mal-turco.
Tomemos como exemplo o caso de mal-napolitano. Como discutido anteriormente, napolitano,que foi ligado à base mal, é o adjetivo gentílico que se refere a Nápoles. Apesar dessa relação, linguisticamente o nome próprio Nápoles não foi utilizado na formação do termo. Somente consideramos eponímico, no âmbito deste trabalho, o termo formado por ou derivado diretamente de um nome próprio (topônimo ou antropônimo). Assim, mal-de- Nápoles é, para nós, um termo eponímico, mas mal-napolitano não.
Outro exemplo de termo composto encontrado em nosso córpus é o que segue: Termo eponímico composto Outras designações
pé-de-madura maduromicose
O termo pé-de-madura conserva a forma original Madura, um topônimo que se refere a uma cidade da Índia, onde foi originalmente descrito o quadro clínico dessa micose, que é encontrada, principalmente, em áreas tropicais e subtropicais. Esse termo tem como história de seu processo de criação a composição sintagmática, ou seja, provavelmente o termo “pé de Madura” formou-se inicialmente como complexo e a intensa frequência de uso levou a alto grau de lexicalização entre os componentes do termo, que hoje se apresenta na forma de termo composto.
Quanto ao termo maduromicose, uma descrição mais detalhada sobre essa unidade terminológica já foi realizada no sucapítulo 6.1, em que demonstramos a formação do termo e refletimos sobre a origem do epônimo toponímico que se insere no mesmo. Mais uma vez ressaltamos que, sincronicamente, consideramos o termo maduromicose como simples, por constituir-se de apenas um lexema.
Esses foram, então, os únicos termos compostos dentre as designações eponímicas encontradas em nosso córpus. A seguir, tratamos de outro tipo de formação.