Outro aspecto chamou-nos a atenção dentre os termos de nosso córpus: a maioria dos epônimos utilizados para a formação de termos eponímicos são masculinos. Os únicos casos que encontramos entre os nossos termos e que fogem à regra foram síndrome de Busckhe- Ollendorf(e sua variante síndrome de Ollendorf) e nevo de Spitz.
O primeiro termo citado possui em sua composição dois epônimos: Busckhe (de Abraham Busckhe) e Ollendorf (de Helene Ollendorff, mais tarde Helene Ollendorff Curth). Por meio do site Who named it? tivemos acesso à história dessa médica alemã.
Helene Ollendorff estudou Medicina nas universidades de Friburgo, Munique e Breslau. Depois de se qualificar em 1923, especializou-se em Dermatologia em Rudolf-Virchow-Krankenhaus em Berlim, orientada por Abraham Buschke. Tornou-se assistente de Buschke e casou-se com seu assistente, Wilhelm Curth. Os Curths se mudaram para os EUA em 1931 e começaram a clinicar em Nova Iorque.
Os Curths, agora William e Helene Ollendorff Curth seguiram carrreira na area de Deramtologia na Universidade de Columbia. O trabalho mais importante de Helene Ollendorff Curth foi sobre a acanthosis nigricans.39
(WHONAMEDIT, 2009)
Ollendorff é uma das poucas médicas que tiveram o privilégio de ter seu nome adicionado a um termo. De fato, são poucos os nomes de mulheres que o site traz.
Quanto ao termo nevo de Spitz, sabemos que o epônimo faz referência à Sophie Spitz: Sophie Spitz nasceu em Tennessee. Ela se graduou em Bacharelado em
Artes em 1929, pela Universidade de Vanderbilt, Nashville e se formou em Medicina em 1932. Casou-se com Arthur C. Allen, Doutor em Medicina, que também era um célebre patologista. Ela morreu com apenas 46 anos de idade.40 (WHONAMEDIT, 2009)
Na mesma página da Web, a saber, a Who named it?, obtivemos uma informação bastante interessante, que se aplica ao nosso conjunto terminológico. O site diz possuir 8352 termos eponímicos descritos em 4163 entradas principais; no entanto, esses termos se ligam a somente 3322 pessoas, sendo 3194 homens e 128 mulheres apenas. Observamos, então, que, do ponto de vista estatístico, as mulheres representam apenas 3,8% do total de pessoas que o siteapresenta, ao passo que os homens representam a grande maioria, ou seja, 96,2%.
Esse dado evidencia a questão social e cultural da participação da mulher em certas áreas do conhecimento, especialmente nas Ciências Biológicas e Exatas. Até algumas décadas atrás, as mulheres não se envolviam muito em pesquisas e quando o faziam, tinham dificuldade para se firmar nesses domínios, visto que o chefe dos laboratórios normalmente eram homens. De fato, é evidente a discrepância entre o número de termos que homenageiam homens e mulheres em Medicina, o que indica que o reconhecimento e a valorização do trabalho da mulher é pequeno. Esperemos que, com o avanço do processo social de valorização da mulher na Ciência, esse quadro se modifique nos próximos anos.
39 “Helene Ollendorff studied medicine at the universities of Freiburg, Munich and Breslau, After qualifying in
1923 she trained in dermatology at the Rudolf-Virchow-Krankenhaus in Berlin under Abraham Buschke. She became Buschke's assistant subsequently married his other assistant, Wilhelm Curth. The Curths moved to the USA in 1931 and commenced private practice in New York. The Curths, now William and Helene Ollendorff Curth pursued careers in dermatology at Columbia University. Helene Ollendorff Curth's most important work was on acanthosis nigricans.”
40 “Sophie Spitz was born in Tennessee. She received a bachelor of arts in 1929 from the Vanderbilt University,
Nashville, and obtained her medical doctorate in 1932. She was married to Arthur C. Allen, MD, also a noted pathologist. She died at the age of only 46 years.”
Os dados trazidos pelo site também são importantes para uma reflexão sobre o número de vezes que um cientista é homenageado com a inserção de seu nome em um termo eponímico. Analisando os números informados, depreendemos que um mesmo cientista foi o responsável ou participou do estudo e descrição de mais de uma doença e, por esse motivo, seu nome se repete em diversos termos eponímicos. No conjunto terminológico de nosso córpus encontramos Malpighi em três termos, que são célula de Malpighi, camada malpighiana e camada de Malpighi; Paget e pagetóide (adjetivo banalizado) aparecem nos termos doença de Paget, reticulose pagetóide e carcinoma pagetóide de Darier; Merkel, em célula de Merkel, carcinoma de células de Merkel, tumor de células de Merkel e no banalizado merkeloma; o epônimo Jadassohn, que está presente nas unidades terminológicas epitelioma intra-epidérmico de Borst-Jadassohn e nevo azul de Jadassohn-Tièche; Buschke em síndrome de Buschke-Ollendorff e condiloma acuminado gigante de Buschke-Lowenstein; Spiegler em linfodenóide sarcóide de Spiegler-Fendt, pseudolinfocitoma de Spiegler-Fendt e tumor de Spiegler e Fendt, em linfodenóide sarcóide de Spiegler-Fendt e pseudolinfocitoma de Spiegler-Fendt. Essas repetições demonstram que, em geral, cientistas célebres se envolvem em vários projetos, trabalhando em equipes diferentes e participando da descoberta e descrição de vários conceitos. São muito produtivos e contribuem de forma notória para o avanço das áreas em que atuam.
Em nossa pesquisa, observamos ainda a presença de mais de um epônimo, no interior de um mesmo termo, em alguns termos eponímicos (geralmente, ligados por hífen): há epônimos duplos e triplos. Como os epônimos com essa formação só apareceram, em nosso córpus, em termos complexos, trataremos dessa particularidade de maneira mais detalhada no subitem 6.3.1.2. Essa presença de epônimos duplos e triplos evidencia uma característica comum à dinâmica de trabalho dos profissionais das áreas biológicas: há uma grande tendência em se trabalhar em equipes, com vários profissionais envolvidos. Muitas vezes são necessários vários passos ou etapas para que determinado objeto seja compreendido e desvendado pelos cientistas. Desse modo, a cada período do desenvolvimento, diferentes pesquisadores ou cientistas auxiliam no processo, imprimindo sua importância e seu papel no avanço de cada nova descoberta.
Outro motivo para a presença de mais de um epônimo na formação de um termo eponímico é a questão da diacronia da ciência. Ao longo do tempo, novos trabalhos são realizados; pode ocorrer, então, que haja um epônimo que remeta ao pioneiro das descobertas de determinado conceito, mas, posteriormente, pode ocorrer a inserção de outro epônimo, que fará referência àqueles que aprofundaram, desenvolveram ou complementaram os trabalhos
iniciais. Assim, conforme novos traços vão sendo descobertos por novos cientistas, seus nomes, por vezes, passam a ser inseridos no termo que designa determinado conceito, como forma de homenagem.
Os termos eponímicos possuem uma estrutura morfossintática e léxico-semântica própria. No próximo subcapítulo, verificaremos quais são as possíveis configurações que podem assumir.
6.3. ESTRUTURA MORFOSSINTÁTICA E LÉXICO-SEMÂNTICA DOS TERMOS