Antoine Berman, em seu texto intitulado Translation and the trials of the
foreign23[Tradução e a prova do estrangeiro] (1985/2000) (traduzido do texto fonte em Francês por Venuti) polemiza a tarefa do tradutor, ao apresentar algumas “tendências deformadoras” a que está sujeito todo aquele que se envolva no processo de transportar um material textual de uma língua/cultura para outra. Segundo o crítico, tais tendências culminam inevitavelmente na domesticação do texto da língua de partida, ao mesmo tempo em que denunciam a negação do elemento estrangeiro, na medida em que o tradutor objetive efetuar uma tradução semelhante a um texto fonte, escrito na língua meta, resultando no que ele denomina de tradução etnocêntrica, como já foi exposto anteriormente.
Berman enfatiza que as tendências deformadoras formam um todo sistemático, cujo fim é a destruição, não menos sistemática, da letra dos originais, em benefício do “sentido” e da “bela forma”. Partindo do pressuposto de que a essência da prosa é simultaneamente a rejeição dessa “bela forma” e, em especial por meio da autonomização da sintaxe, a rejeição do sentido (pois a arborescência indefinida da sintaxe na grande prosa cobre, mascara, literalmente, o sentido), observaremos onde reside o que essas tendências têm de nefasto (BERMAN, 2007).
Como Milton (1999) já frisou anteriormente, as constatações de Berman são autorizadas a partir de sua experiência pessoal como tradutor do texto literário em prosa, aliadas aos estudos históricos de grandes figuras da tradução, [como Hölderlin (1770 – 1843), Schleiermacher (1768 – 1834) e Chateaubriand (1768 – 1848)] (Berman, 2007, p. 10). Tais textos se encontram tão presos a sua língua que o ato de tradução inevitavelmente se torna uma manipulação de significantes. Mesmo assim, as línguas envolvidas neste processo estabelecem várias formas de choque, mas de alguma maneira conseguem se unir. Neste caso, a tradução, longe de ser “a prova do estrangeiro”, passa a ser sua negação, sua aclimatação, sua
“naturalização”, ocorrendo uma repressão radical de sua essência. Daí, a necessidade de se refletir sobre o objetivo ético, próprio do ato de tradução: receber o elemento estrangeiro como estrangeiro (Berman, 1985, p. 277).
O teórico assegura que nenhum tradutor, uma vez exposto a este jogo de forças, consegue se soltar das amarras impostas por tal jogo, mesmo tendo consciência deste. Para se libertar da escravidão do “sistema de deformação” que sobrecarrega sua prática, o tradutor tem de se submeter à análise. Desta forma, ele conseguirá neutralizar o inconsciente e agir com liberdade. Berman ainda afirma que o “sistema de deformação” é a expressão internalizada de uma tradição de dois milênios, bem como a estrutura etnocêntrica de cada cultura, de cada língua, enquanto “língua culta." O sistema tem eficácia comprovada e sua analítica parte da localização de várias ‘tendências deformadoras’ que constituem o total sistemático. O crítico menciona doze principais tendências deformadoras, que podem estar associadas entre si ou derivar de outras, mas segundo ele, pode haver mais algumas. Estas tendências concernem a toda tradução, qualquer que seja a língua, pelo menos na tradição ocidental, embora algumas possam ser mais acentuadas em um espaço linguístico e cultural do que em outros (Berman, 1985).
A nosso ver, as constatações de Berman sobre as “tendências deformadoras” podem não só tornar visível a resistência do tradutor à acolhida do elemento estrangeiro presente na língua fonte, mas também denunciar interferências realizadas por este em sua prática tradutória, a fim de obter como resultado um texto fluente, claro, elegante, etc. como fica evidente nas definições que ele elabora para as mesmas. Como já dissemos antes, são doze24 as tendências deformadoras por ele elencadas: Racionalização, Clarificação, Alongamento, Enobrecimento,
Empobrecimento qualitativo, Empobrecimento quantitativo, a Destruição dos
ritmos, a Destruição das redes significantes subjacentes, a Destruição de padronizações linguísticas, a Destruição ou a Exotização das redes de linguagens vernaculares, a Destruição de expressões e idiomatismos e, por último, o Apagamento das superposições de línguas (Berman, 1985, p. 280).
24 O livro BERMAN, Antoine. A tradução e a letra ou o albergue do longínquo. Tradutores: Marie Hélène Catherine Torres, Mauri Furlan, Andréia Guerini. Rio de janeiro: 7Letras/ PGET, 2007 apresenta 13 tendências deformadoras.
Em síntese, podemos dizer que a racionalização concerne à sintaxe do original, ou seja, o tradutor reorganiza as frases do texto de partida, observando certa idéia de ordem do discurso. A clarificação tende a explicitar termos ou uma idéia que não está muito clara no texto fonte, enquanto o alongamento acontece quando a tradução fica mais longa do que o texto de partida. O enobrecimento tende a tornar a tradução mais bela, ou seja, o tradutor opta por usar um vocabulário elaborado, com orações elegantes, usando o texto fonte como matéria prima, ou seja, a fim de deixar a tradução mais “nobre”. O empobrecimento qualitativo acontece quando o tradutor substitui, por exemplo, termos e expressões do texto de partida por termos e expressões que não têm a mesma carga semântica daqueles; o
empobrecimento quantitativo refere-se à perda lexical, isto é, percebe-se uma
redução de significantes na tradução quando comparado com o texto fonte. A
destruição dos ritmos significa que o tradutor destrói algo, promovendo a quebra do
ritmo do texto fonte; enquanto a destruição das redes significantes subjacentes ocorre quando a tradução não transmite o texto subjacente existente no texto de partida, quando este necessariamente constitui-se a partir do encadeamento e/ou correspondência de determinados significantes. A destruição de padronizações
linguísticas diz respeito à destruição de frases e construções contidas no texto fonte
bem como de seus significantes. A destruição ou exotização das redes de linguagem
vernacular diz respeito à destruição dos elementos vernaculares presentes no texto
original, uma vez que a língua vernacular, por sua própria natureza, é mais física, mais icônica do que a língua “culta”. A destruição das locuções acontece quando a tradução promove a destruição de imagens, locuções, provérbios, etc., buscando elementos equivalentes, pois equivalências de uma locução ou provérbio não conseguem substituí-los; e por fim, o apagamento das superposições de línguas acontece quando a tradução tende a apagar a relação de tensão e de integração que existe no texto original entre a língua subjacente e a língua de superfície. Importa ressaltar que Berman considera esse um problema central na tradução de romances – um problema que exige grande reflexão por parte do tradutor.
Dentre as tendências deformadoras elencadas por Berman, destacaremos uma que servirá ao nosso propósito para executar nossa análise do
corpus, objeto de nosso estudo. Trata-se da tendência deformadora denominada a
“subjacente”, onde certos significantes-chave se correspondem e se encadeiam, formando redes sob a “superfície” do texto, ou seja, resultando no subtexto que constitui uma das faces da rítmica e da significância da obra. Tal fenômeno acontece quando, no texto, certas palavras formam, quer seja pelas suas semelhanças ou seus modos de intencionalidade, uma rede específica. Elas podem ser encontradas ao longo do enredo com grandes distâncias até umas das outras e, às vezes, sem que o contexto justifique seu emprego. Ao serem agrupadas, essas palavras revelam mais do que está visível no texto, formam redes significantes que podem, por exemplo, denunciar o tipo que uma tradução foi feita, ou a ideologia que perpassa por ela. Berman afirma que “a tradução que não transmite tais redes
destrói um dos tecidos significantes da obra” (Berman, 2007, p. 57).
Observando as tendências deformadoras elencadas por Berman, somos, mais uma vez, inevitavelmente reportados à teoria de Vinay & Darbelnet sobre os diferentes métodos ou procedimentos de tradução, que já mencionamos anteriormente No entanto, os procedimentos técnicos de tradução de Vinay & Darbelnet, ao mesmo tempo em que se chocam com as reflexões de Berman, servem para corroborar seu pensamento sobre as tendências deformadoras em sua analítica da tradução, uma vez que evidenciam claramente a sistemática adotada pelo tradutor em sua empreitada tradutória. Observaremos como as tendências deformadoras de Berman se prestam à análise do corpus em pauta no capítulo destinado a esse fim. Antes, porém adentremos o mundo dos conceitos de diáspora, identidade e hibridismo cultural, que dão sustentação à leitura que apresentaremos do texto literário de Evaristo em português e na sua tradução para a língua inglesa.