O conceito de hibridismo cultural, na área dos Estudos Culturais e na crítica pós-colonial, tem sido bastante recorrente, já que traz à tona a problematização da ideia de pureza. Homi Bhabha (2007), por exemplo, o utiliza repetidamente em seus estudos. Suas reflexões sobre hibridismo muitas vezes dialogam e outras vezes colidem com as leituras da questão colonial feitas por vários outros teóricos. Contudo, não se deve considerar o hibridismo como uma característica própria do universo pós-colonial, como afirma a professora e pesquisadora Liane Schneider (2005, p.175; grifo da autora) “já que isso seria negar todos os outros contatos e trocas que ocorreram anteriormente aos avanços dos impérios europeus nas ‘novas terras’”, pois, com certeza, o hibridismo já existia muito antes de tal termo ser cunhado e longamente utilizado.
No Brasil, falar em hibridismo cultural significa falar das distintas etnias espalhadas pela imensidão do território geográfico no decorrer dos séculos e do longo contato entre elas. As porções do país que foram separadas e transformadas em regiões e depois, por sua vez, subdivididas em estados, denotam a diversidade cultural do estado-nação, onde comunidades se interrelacionam tendo com elemento comum a língua portuguesa brasileira, apesar dos sotaques regionais, e dos inúmeros dialetos particulares de certas comunidades. Essas particularidades muitas vezes são verdadeiras barreiras invisíveis que servem para separar o outro, ou seja, fixá-lo no lugar de outro e, desta forma, reforçar essa postura colonialista de não aceitação da alteridade. No entanto, mesmo registrando-se tamanha diversidade cultural e étnica, alguns sujeitos conseguem cruzar fronteiras e se instalar no novo território. Esses encontros podem gerar algum conflito ou não, dependendo do nível de aceitação ou rejeição desse sujeito naquela comunidade. Como exemplo, podemos dizer que são encontros como o que acabamos de mencionar que favorecem inevitavelmente o surgimento do hibridismo cultural.
Na concepção de Bhabha (2007), o hibridismo cultural emerge a partir de uma negociação complexa da diferença onde o que se obtém como provisoriamente hegemônico resulta da própria produção da diferenciação. O híbrido advém de
intervenções que partem dos mais diferenciados setores da vida social, inclusive das minorias de toda natureza, como lemos em Ribeiro, inspirado por Bhabha,
a noção de hibridismo está relacionada a um processo mais vasto, que dialoga frontalmente com o conceito de tradição. Este é o locus onde se dá o confronto entre o hegemônico e o periférico, a tradição e a modernidade, o público e o privado, entre temporalidades passadas e atuais. O movimento do processo não permite mais que imaginemos uma experiência cultural livre de elementos diferenciados quanto à sua origem histórica e social. (RIBEIRO, 2005, fonte eletrônica)
Essa releitura de conceitos relacionados à cultura está diretamente atrelada aos fenômenos diversos da contemporaneidade, provocados talvez pelo processo da globalização que, como já frisamos anteriormente, encurta as distâncias entre as culturas, quebrando ou mesmo enfraquecendo barreiras, resultantes da dificuldade de contatos entre aquelas. Esse contexto de imediatismo e urgência do mundo contemporâneo põe em destaque a importância da tradição e também da tradução – não apenas linguística, mas também cultural – como (poderoso) instrumento mediador de línguas, povos e culturas.
Os discursos coloniais e pós-coloniais estão pontuados por temas relacionados a uma variedade de deslocamentos espaciais/geográficos, temporais/históricos, linguísticos, entre outros, fazendo com que povos de culturas e histórias diferentes tenham que residir e/ou dividir espaços em comum. Essa constatação justificaria o discurso de Bhabha sobre sua rejeição à noção essencialista de cultura; para ele, essa experiência pós-colonial de desigualdade e marginalização social exige uma reformulação de estratégias críticas. Segundo suas palavras, o momento
[n]os obriga a confrontar o conceito de cultura para além de objets d'art ou além da canonização da "idéia" de estética, para lidar com a cultura como uma produção desigual e incompleta de significação e valor, muitas vezes composta por demandas e práticas incomensuráveis, produzidas no ato de sobrevivência social (BHABHA, 1994, p.172, citado em SOUZA, fonte eletrônica).
Enquanto que na concepção de Souza, “[t]al visão de cultura enquanto estratégia de sobrevivência enfatiza o aspecto tradutório da cultura como um processo incessante de construção de significação no âmbito da circulação de experiências, linguagens e símbolos diversos” (SOUZA, fonte eletrônica). A partir dessas constatações, Souza destaca que o híbrido não é a mera mescla tradutória de dois originais, um pretenso terceiro elemento que resolveria a tensão entre duas culturas; e, na concepção de Bhabha, o híbrido é um processo agonístico em estado constante de negociação inconclusiva, sem trégua, sem assimilação nem incorporação. De certa forma, o pensamento de Bhabha corrobora o de Santos (1994, p. 43), quando este afirma que
a cultura de um dado grupo social não é nunca uma essência. É uma auto-criação, uma negociação de sentidos que ocorre no sistema mundial e que, como tal, não é compreensível sem a análise da trajetória histórica e da posição desse grupo no sistema mundial. Para Bhabha surge um novo conceito de cultura que remete àquilo que é híbrido, dinâmico, transnacional, que considera o trânsito de experiências entre nações e com características tradutórias, uma vez que tal conceito cria novos significados para símbolos culturais. Este novo conceito está ligado à questão da sobrevivência, uma vez que os deslocamentos põem em choque diferenças culturais que precisam ser rearranjadas. Assim, o hibridismo vem enfatizar que “culturas são construções e as tradições, invenções” (SOUZA, 2004, p. 126), e que, quando em contato, criam novas construções desterritorializadas.
Tomemos como exemplo o termo cultura afro-brasileira. Este comporta em si uma referência a uma cultura, já de início, híbrida, notadamente resultante de contatos e da influência de povos africanos de diversas etnias que se viram forçados a criar, como forma de resistência cultural, uma memória comum e também forçados a relacionar-se com povos europeus e ameríndios e a fazer uso de seus comportamentos e costumes para desenhar a sua identidade e garantir a sua sobrevivência (Souza, 2005).
Bhabha (2007), em suas críticas pós-coloniais, discute longamente tentativas de diversos escritores, a partir de perspectivas afinadas com modelos coloniais, em descrever o sujeito colonial. Entre suas reflexões, ele destaca a
linguagem utilizada para representar o sujeito ou a própria noção de sujeito, que está presente nas construções literárias. Desta forma, partindo do desconstrutivismo, Bhabha “valoriza o hibridismo como elemento constituinte da linguagem e, portanto, da representação” (SOUZA, 2004, p. 114), o que implica na impossibilidade de se pensar uma descrição ou discurso autêntico sobre qualquer sujeito. De acordo com essa lógica, qualquer tentativa de representação é híbrida por conter traços de dois discursos, muitas vezes tendo de se fazer uso da língua do outro para se auto-representar. Logo, a busca por uma autenticidade (ou pureza) é vista como uma tarefa infértil. Acrescentamos que nesses dois discursos está incluída, na verdade, uma multiplicidade de discursos que corrobora ainda mais a inevitável hibridez de qualquer representação. Enquanto isso, Hall (2006) afirma que o hibridismo e o sincretismo, quando diferentes tradições culturais se fundem, são poderosas fontes criativas, que produzem novas formas de cultura, estas, por sua vez, mais apropriadas à pós-modernidade que as velhas e contestadas identidades fixas do passado.
Tais considerações levam-nos a perceber como apropriadas também as palavras de Cardoso (2008, p. 89) sobre hibridismo cultural,
[este] é, portanto, um fenômeno natural e imanente na constituição e evolução da civilização. Sua manifestação é percebida com mais ênfase na arte em geral e na literatura em particular. Seja como transculturação, aculturação ou neoculturação, o hibridismo é o testemunho mais nítido de que, mesmo esforçando-se por preservar formas culturais autóctones, o homem está aberto a novas maneiras de interagir culturalmente, como mais um recurso de sobrevivência num mundo que tem a mudança como traço essencial.
Na próxima seção, utilizaremos as questões discutidas sobre diáspora, identidade e hibridismo cultural para desenvolver algumas considerações analíticas sobre Ponciá Vicêncio. Acreditamos que, assim, poderemos vincular o foco teórico que embasa nosso trabalho com uma produção a partir de nosso próprio olhar crítico.