4 DISCUSSION
4.2 General discussion
4.2.1 The role of vitamin A in regulating survival of normal and malignant B cells
4.2.1.1 RA protects normal TLR9-stimulated B cells against spontaneous and irradiation-
Para compreender o processo de constituição do sistema de ensino francês, Lobrot (1966) realiza um estudo que caminha em duas frentes culminando naquilo que caracteriza como “pedagogia burocrática”. Estas duas frentes são a história dos valores norteadores do sistema de ensino, e a análise do fenômeno burocrático.
Partindo da educação monástica, com um ensino exclusivamente teológico na antiguidade, observa que, a relativa autonomia adquirida pelos monges, que não eram parte nem da aristocracia nem da plebe, permite que comece a se desenvolver os conhecimentos clássicos, herdados da cultura greco-latina. Esse período possibilitou que, na renascença, uma parte da aristocracia tomasse contato com essa cultura clássica e articulasse uma ideia de conhecimento voltada para o humanismo, o enriquecimento do espírito para a verdade e para a “sabedoria”, valores aplicados na pedagogia por Rousseau, Montaigne e outros. Esse movimento é logo recuperado pelos jesuítas, após verem seus interesses e sua dominação ameaçada e os quais passariam a ensinar o humanismo clássico dentro de um regime de
disciplina e obediência.
Com a ascensão da burguesia, a modernização, a indústria e o desenvolvimento do capitalismo, surge a necessidade de uma escola universal na qual todos aprendem a ler, escrever e contar e que possui entre seus valores explícitos uma grande ênfase na aquisição de habilidades, conhecimentos e desenvolvimento de inteligência e adaptação às novas situações. Estes dois últimos valores verificam-se ambíguos dentro de um contexto no qual a flexibilidade e adaptação tornam-se uma exigência mercantil. Dessa forma, ainda que se encontre aquela “sabedoria” enaltecida pela renascença diluída nos novos valores, eles agora são mais facilmente conciliáveis à submissão e à heteronomia.
Surge nesse momento o ensino laico e, ao mesmo tempo em que o obscurantismo religioso e a sacralização das autoridades deixam de fazer parte da instituições de ensino, propõe-se um ensino voltado para os saberes técnicos e científicos, os quais fariam prosperar o indivíduo e a nação. Substitui-se uma idealização da ignorância, que valoriza o mistério, a fé, por uma idealização do “saber”, transformado em instrumento universal de adaptação e felicidade: “não se busca mais formar um religioso, um sábio ou um “homem honesto”, mas sim um futuro trabalhador, cidadão, pai de família, que conheça “seu ofício” [...]” (LOBROT, 1966, p. 27 ).
Até aqui, teríamos uma explicitação dos objetivos do ensino na sociedade atual, pretensamente neutro e fundamentalmente técnico. Para compreender como esses objetivos foram sedimentados e o conteúdo que eles engendram, para além daquilo que é explicitado, Lobrot procede na análise do fenômeno burocrático.
Tomando como exemplos a Revolução Francesa e a Revolução Russa, o autor distingue os mecanismos que desencadeiam a instauração de sistemas burocráticos. De forma simplificada, trata-se do oferecimento de proteção concomitante com a difusão da ideia de que existe uma ameaça. É pela produção desse mecanismo que ascende-se uma posição de poder.
Na Revolução Francesa, Robespierre durante e após a derrubada da monarquia, acusa a esquerda e a direita de seu partido, a primeira de agitação e a segunda de ser corrupta, e consegue assim impor-se como alternativa para aqueles que ansiavam pela ordem e pela segurança. Aproveitando-se das divisões preexistentes naquela sociedade, Robespierre instaura uma burocracia repressiva, que prepara o terreno para a burocracia administrativa de Bonaparte.
Na Revolução Russa, Lenin é quem realiza processo análogo. Em um primeiro momento apoia-se naqueles que reivindicavam os soviets como meio mais democrático de estruturar politicamente o país e, com isso, consegue derrubar as forças czaristas e a burguesia. Irá em seguida denunciá-los como indesejáveis – vide sua obra Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo (1981). Neste ponto, alicerçado pelos partidários da ordem, impõe-se como poder legítimo, contendo as partes divergentes com seu aparato repressivo.
Resumidamente, ambos se colocam dentro de um grupo que visa destruir um inimigo, mas fomentando as divisões internas desse grupo para que, uma vez eliminado aquele inimigo, possam se inserir enquanto árbitros legítimos e fornecedores de proteção contra os setores ameaçadores, negando aí o princípio da democracia, a qual supostamente estavam construindo, e instaurando a ditadura da burocracia. Conseguem a confiança de uma massa por demonstrarem ter um poder, e conseguem o poder através dessa confiança que neles é depositada, fechando um círculo vicioso.
O argumento central de Lobrot é que a burocracia só pode surgir em um país ou em um organismo quando seus membros aceitam ou desejam ser protegidos, conduzidos, orientados. E aí encontraremos as raízes do sistema de ensino, o qual deriva de um sistema que possui determinada ideologia e que educa seus indivíduos.
Algumas das características de um regime burocrático são a desconfiança, a angústia, todos devem fazer bem seu trabalho e não se deve pôr em risco o interesse geral, o “bem comum”. Isso significa que regras gerais e abstratas são impostas a todos, independentemente das particularidades de cada um. Na “pedagogia burocrática” isso configura uma economia das aparências. Os professores devem seguir o programa, o educandos devem obedecer aos professores e as provas devem verificar se tudo transcorre em conformidade. O balanço que indicaria se o aprendizado está realmente acontecendo, que é algo que só poderia ser avaliado em longo prazo, é reduzido a procedimentos de verificação em curto prazo.
Dentro de uma sociedade burocrática, a organização do ensino se dá através de uma estrutura igualmente burocrática e que, ao mesmo tempo, funciona como um dos instrumentos dessa sociedade. Na prática, isso significa que os que estão na base da pirâmide burocrática, ou seja, professores e estudantes, devem responder às demandas daqueles que estão no topo, como o ministério da educação por exemplo. Com isso instituem-se programas, currículos, exames, séries, fiscalização, inspeção e metas: formas que tentam padronizar e circunscrever o fenômeno pedagógico, tornando mais simples o acompanhamento externo e o balanço dos
processos de ensino. Ou, se preferir, mais fácil de ver do alto. Isso resume um significado importante daquilo que chamamos de escola, ainda que não seja o único possível.
A aceitação de tal sistema por parte da clientela e dos seus trabalhadores, para Lobrot, tem raízes que devem ser buscadas na psicologia. Os professores querem educar seus educandos, sem dúvida, mas antes, e mais do que isso, querem ser aceitos e reconhecidos pela sociedade da qual fazem parte, aquela obcecada pela valorização do “bem comum”. Os educandos trabalham para responder ao professor e aos seus pais, para os quais devem obediência e dos quais também pleiteiam aceitação – nesse contexto, o tipo de trabalho que é realizado acusa uma motivação bem distinta daquela que é necessária para o trabalho destinado ao aprendizado.
As mães e pais esperam que seus filhos adquiram os conhecimentos necessários para integrar a sociedade, como eles próprios julgam tê-lo feito, e para tal é comum que as mães e pais não depositem toda sua confiança nos professores, os quais frequentemente são culpabilizados pelos insucessos dos educandos. Nesse caso, a maior garantia que os pais possuem contra os professores é a própria existência da burocracia, a qual vai estabelecer parâmetros “objetivos” que tornem visíveis os resultados, bem como oferecer as alternativas cabíveis para cada caso no qual os resultados não estejam em acordo com a média.
Em suma, trata-se de uma economia das ameaças, que faz perpetuar esse sistema de ensino no qual a possibilidade de uma relação direta entre os educandos e o conhecimento é remota, assim como a possibilidade de procurar um ritmo próprio de aprendizagem. A obediência ao professor torna-se um valor fundamental para possibilitar rotinas de memorização, essas por sua vez aumentam os coeficientes de sucesso nos exames periódicos.