4 DISCUSSION
4.2 General discussion
4.2.2 The role of vitamin A in CVID-derived B cells
4.2.2.2 The clinical potential of RA, CpG-ODN and anti-RP105 in treatment of CVID
Agora que viemos de apreciar a crítica à escola capitalista que será adotada como referência neste trabalho, podemos extrair as categorias de análise para um estudo sobre as práticas de resistência desenvolvidas em oposição a esse tipo de escola. Essas categorias serão ferramentas que auxiliarão para observar se as práticas desenvolvidas pelo Liceu Autogerido de Paris em seus processos, formas de organização e valores, apontam para outros objetivos.
As críticas mencionadas destacam uma grande quantidade de aspectos que poderiam ser elencados como categorias de análise. Sem ter a pretensão de abarcar todos esses aspectos, extraímos pontos recorrentes para orientar os trabalhos em campo.
A primeira categoria deve investigar os processos de seleção para o ingresso no Liceu e em seguida investigar os possíveis mecanismos de marginalização após o ingresso. O objetivo será entender qual é o perfil de estudante valorizado dentro dessa instituição. Não havendo um sistema rígido de classificação e recompensação, quais seriam os educandos que essa escola valoriza? Conhecendo aqueles estudantes que são valorizados dentro do Liceu, poderemos entender também se existem aqueles que são marginalizados. Tentaremos saber sobre os motivos que explicariam essa marginalização, a maneira como ela ocorre e os dispositivos adotados pela instituição para lidar com ela, se houverem.
As questões colocadas são inspiradas por Bourdieu (1998), ao falar sobre a marginalização daqueles que não foram familiarizados com a cultura dominante e também por
Apple (2003) ao mencionar as estratificações sociais que podem se reproduzir dentro da escola em função de fatores como gênero, raça e classe social. Além desses autores, alguns mecanismos de marginalização foram descritos também por Paro (2010) como a responsabilização dos estudantes que não assimilaram conteúdos, sendo culpados por sua defasagem ou por seu desinteresse.
A segunda categoria de análise está relacionada a burocracia, abordada por Tragtemberg (2002) e Lobrot (1966). Aqui distinguiremos dois níveis, o primeiro nível deve indagar sobre a burocracia dentro da instituição, e o segundo, sobre a burocracia existente na relação entre os órgãos governamentais e a instituição.
No primeiro nível, devemos explorar (1) as relações entre os agentes, ou seja, entre estudantes e professores, entre professores e pais, e entre pais e estudantes, assim como os mecanismos de tomada de decisão existentes dentro do liceu, que são a face formal dessas relações; (2) se existe um sistema de ameaças que perpassa essas relações, e de que tipo poderiam ser essas ameaças; (3) ou se, ao contrário, os agentes se reconhecem dentro dessa forma de funcionamento e se eles reivindicam esse modelo de funcionamento de instituição, o que aponta para um questionamento quanto à qualidade da adesão a essa instituição.
O segundo nível dessa categoria é a relação da instituição com as instâncias de gestão do sistema de ensino. Aqui as tensões com a secretaria de educação e com o ministério da educação serão exploradas buscando compreender se elas existem e de que forma interferem no cotidiano do Liceu. As formas de resistência que podem ter sido desenvolvidas nessas tensões estão aí implicadas.
Finalmente, a terceira categoria será a consonância ou dissonância entre as exigências de um perfil de trabalhador, exploradas por Dias (2010), mas também por Lobrot (1966), Apple (1982) e Tragtemberg (2002), e o tipo de formação fomentada dentro do Liceu. Essa última categoria relaciona-se com as demais na medida em que a marginalização e a burocratização podem ser estratégias para fornecer esse perfil de trabalhador exigido pela empresa capitalista. Mas a questão central que nos colocaremos é a seguinte: caso os processos de marginalização e burocratização encontrem-se neutralizados, ou ao menos neutralizados em grande medida dentro do Liceu, é possível que ele ainda proporcione uma nova maneira de chegar aos mesmos resultados que atinge a formação da escola capitalista? Se não forem esses os resultados encontrados, caberia ainda perguntar se tais resultados pertencem às expectativas dos pais dos estudantes, ou dos próprios estudantes.
Essa investigação, necessariamente inconclusa, sobre os resultados e expectativas, será utilizada como uma referência para auxiliar no trabalho de verificação dos objetivos da instituição. E, em particular se eles se aproximam dos objetivos da escola capitalista ou se deles se distanciam, sejam esses objetivos identificáveis a partir da instituição ou a partir dos estudantes que optam por estudar no LAP.
2.1.2 Fontes
O esforço de produção de um retrato do Liceu Autogerido de Paris, realizado ao longo das próximas páginas, teve como suporte o uso de diferentes fontes. Entre elas as principais foram: o Projeto de Estabelecimento; o Livro redigido por professores e estudantes do LAP; uma reportagem em forma de história em quadrinhos; uma tele-reportagem realizada em 1996; o site do Liceu; e o diário de campo do período de visitas no Liceu, elaborado no presente trabalho de pesquisa. Listaremos aqui cada uma das fontes principais discriminando o caráter do material e os usos que foram feitos de cada um deles.
O Projeto de Estabelecimento é um documento periodicamente atualizado por membros da equipe pedagógica. Esse documento aproxima-se daquilo que seria o denominado Projeto Político Pedagógico, no Brasil. Nessa pesquisa ele foi utilizado principalmente como fonte de consulta para precisar as informações relativas à forma de organização do Liceu e, eventualmente, sobre o posicionamento oficial do LAP com relação a algumas questões. Contudo, em algumas de suas versões estão contidos dados como o perfil sócio econômico dos estudantes, perfil etário, indicadores de desempenho em comparação com a média nacional e a distribuição geográfica das residências dos estudantes, dados que podem ser melhor explorados em futuros trabalhos de pesquisa. As versões que tivemos acesso para esta pesquisa, datam dos anos escolares de 2004/200514, 2005/2006 e 2009/2010.
A obra Une Fabrique de Libertés- Le Lycée Autogéré de Paris, de 2012, foi escrita por um coletivo de alunos e professores do LAP. Essa obra é dividida em duas partes. Na primeira, há a apresentação do Liceu a partir de diversos aspectos que caracterizam a experiência daquela instituição. Os escritos dessa parte estão impregnados da interpretação dos autores de cada um dos textos e os processos e fatos descritos foram selecionados de forma difusa. O estilo textual dos relatos nessa obra aproxima-se daquele utilizado em narrativas literárias. A experiência do LAP parece estar ali exposta para os diversos perfis de leitor para os quais ela
poderia ser objeto de interesse. Utilizamos conteúdos dessa obra para precisar informações e para melhor definir algumas das posições defendidas pelos membros do Liceu.
A segunda parte da obra narra a gênese da experiência do LAP. A narrativa inicia-se nos meses que antecederam o seu surgimento, e conclui-se ao final do seu primeiro ano de funcionamento. Ela é uma reconstituição dos fatos, realizada por um ex-professor do LAP que recorreu para isso às anotações de seu diário pessoal. Essa parte foi utilizada aqui como a principal fonte para reproduzir o histórico da gênese dessa escola.
Um documentário em forma de história em quadrinhos intitulado LAP! un roman d'apprentissage, produzido por Aurelia Aurita e editado em 2014, foi utilizado como referência por conter casos que auxiliam a conhecer algumas das formas de relacionamento entre os membros do Liceu. Além de apresentar algumas dimensões da experiência cotidiana no LAP, a autora retrata nesse trabalho sua relação pessoal com as pessoas do Liceu, durante o período de visitas que realizou para a sua reportagem. Encontramos ali também informações relevantes, em particular, quanto ao processo de seleção para o ingresso de novos estudantes.
Uma reportagem intitulada Lycées de Rêve? realizada em 1996 por Bernard Nauer (televisionado pela emissora France 2 em seu programa Envoyé spécial15) foi apreciada nesta pesquisa por nela serem exibidas situações e entrevistas com os membros do Liceu pertinentes à nossa abordagem. O objetivo mais geral da reportagem parece ser demonstrar como o Liceu Saint Nazaire e o Liceu Autogerido de Paris distinguem-se dos liceus tradicionais. Aparentemente, a reportagem é voltada para uma audiência relutante em admitir a possibilidade de que tais escolas possam existir e de que elas possam ser consideradas experiências escolares sérias.
No site do LAP, http://www.l-a-p.org/, encontramos descrições de como as atividades são construídas dentro do Liceu. Além disso, lá encontramos relatos e pareceres advindos diretamente de membros do LAP. Outra vantagem dessa fonte foi a sua atualização frequente.
Diversos outros sites e fóruns com pequenas reportagens, breves relatos e entrevistas com professores, ex-professores e estudantes do LAP, foram visitados. Nesses, a finalidade era principalmente consultiva, embora tenhamos encontrado documentos interessantes como o Projeto de Estabelecimento do ano letivo 2004/200516 e um esboço do pré-projeto do Liceu autogerido17.
15 Acessível no endereço: http://vimeo.com/10649038
16 Encontrada nesse endereço http://www.recit.net/IMG/projet_lycee_autogere_Paris.pdf , via wikipédia:
https://fr.wikipedia.org/wiki/Lyc%C3%A9e_autog%C3%A9r%C3%A9_de_Paris