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r~~RGES STATSBANER Kass.kodi 1 5 MARS 1993

A reflexão sobre a estreita relação entre informação e conhecimento tem conduzido a refletir também sobre a relação entre as disciplinas que se ocupam da gestão de ambos ativos: a GI e a GC. Vamos estabelecer as linhas fundamentais do debate produzido dentro da CI.

No que tange aos fundamentos epistemológicos da CI, o campo compõe-se por diferentes correntes teóricas: estudos dos fluxos de informação científica; representação e recuperação da informação; estudos de usuários da informação; gestão da informação e do conhecimento; economia política da informação; estudos métricos da informação. Cada qual discute os distintos conceitos de informação e de conhecimento trazendo a cada um e à CI uma identidade própria, determinando seus limites e diversidade de elementos, determinando as distintas tendências.

Araújo (2014) afirma que as origens da GC coincidem com a origem do campo de estudo intitulado ‘Gestão da informação e do conhecimento’ dentro da CI, que enfoca a informação e o conhecimento como centro de importância social contemporânea. Isso significa que a GC recebe influências da GI e tornam-se, na maioria das vezes aliadas. Especificamente

[...] a área de gestão da informação e do conhecimento tem sua origem em estudos também norte-americanos (embora inicialmente fora do escopo da information science) e desenvolvimentos em diferentes contextos, destacando-se, principalmente, o Canadá. Seu ponto de partida foi a percepção da importância da informação como recurso dentro das organizações. Relacionada a um campo especialmente sensível às exigências de eficácia e eficiência dos vários recursos organizacionais (o campo da administração), esta área sentiu fortemente os efeitos da chamada “explosão da informação” (ARAÚJO, 2014, p. 63).

Este fato trouxe à expressão GIC um conjunto de termos aproximados que se destacam por terminologias diversificadas e relacionadas entre si e que refletem a importância da informação e do conhecimento na sociedade contemporânea.

Dentre esses, destacam-se documentação, gerência de recursos informacionais, organização do conhecimento, biblioteconomia, organização aprendente, gestão de documentos, organização da informação, arquivologia, ciência da informação, conhecimento tácito, conhecimento explícito, representação do conhecimento, aprendizagem organizacional, inteligência organizacional, organização inteligente, gestão do saber, dentre outros (BARBOSA, 2008, p. 2).

Além disso, trouxe também a possibilidade de estudar os termos separadamente: GI e GC. Nesse sentido, o autor afirma que a origem da GI pode ser encontrada nos trabalhos de Paul Otlet e seu Traité de Documentation (1934), considerada uma disciplina conhecida como

documentação e, que as primeiras reflexões sobre a área incidiram sobre sua natureza física: reduzir o excesso, otimizar a circulação, identificar com precisão as necessárias e descartar as inúteis ou redundantes, seguindo de numerosos estudos empíricos para determinar os tipos e a importância estratégica das diversas fontes de informação utilizadas no ambiente interno e externo organizacional, baseados nos pioneiros de Henry, Cook, Berry e Taylor.

Alvarenga Neto, Barbosa e Pereira (2007) consideram a GI como ponto de partida para a implementação de programas de GC, uma vez que norteia e valida amplamente outras atividades e temas vinculados à GC, como por exemplo, a gestão do capital intelectual, a aprendizagem organizacional dentre outros.

Portanto, Araújo (2014) afirma que com a passagem da sociedade da informação para a pós-industrial, ou a do conhecimento, não bastava gerir os recursos informacionais, era preciso também gerir o conhecimento, criando as condições propícias para transformá-lo em informação. Daí, diversos modelos definindo as ações necessárias para a execução da GC foram surgindo e sendo refletidos, a exemplo da espiral do conhecimento de Nonaka e Takeuchi, os modelos de serviços de informação, de sistemas digitais de informação, de intervenções organizacionais, entre outros.

Para Araújo (2014), é importante salientar que esses modelos apresentaram ênfase na questão da aprendizagem ou organizações aprendentes (Learning Organizations) apresentada por Senge (1998), nos princípios que regem a gestão do conhecimento organizacional (DAVENPORT; PRUSAK, 1998) e do capital intelectual (STEWART, 1998). E, que algumas contribuições teóricas importantes para a GC entendem a importância dos contextos interacionais para a explicitação de conhecimentos e também para a criação de novos conhecimentos. São elas as de Taylor e sua abordagem sobre “valor agregado” e o conceito oriental de “ba” desenvolvido por Nonaka e Konno (1998).

A partir da segunda metade da década de 1990, a evolução destes estudos foi conduzindo à percepção de que os processos de GC não poderiam se dar de forma isolada, atuando sobre cada indivíduo da organização, isoladamente. Isso porque percebeu-se que também o conhecimento não é algo individual, isolado: os conhecimentos tácitos das pessoas que compõem as organizações são construídos coletivamente, aplicados no contexto de intervenções concretas dos sujeitos interagindo uns com os outros (ARAÚJO, 2014, p. 64).

Nesse sentido, o autor vem afirmar que

[...] o que deve ser gerido já não é nem o acervo físico de recursos informacionais nem o conhecimento tácito presente na ‘mente’ das pessoas que compõem a organização: é a própria ‘cultura organizacional’, o coletivo de interações por meio do qual conhecimentos tácitos nascem,

conhecimentos explícitos são avaliados, utilizados, descartados, complementados (ARAÚJO, 2014, p. 64).

O autor afirma que essas ideias levaram a reflexões sobre as organizações como capazes de gerenciar os contextos nos quais o conhecimento acontece e Choo (2003) passa a ser considerado um dos mais significativos teóricos que as representam.

Com esta abordagem ampliam-se as pesquisas no campo da GIC em que se caracterizam estudos sobre: cultura informacional baseados nas reflexões de Choo, Bergeron, Detlor e Heaton (2006); inteligência competitiva baseados, entre outros autores, em Bergeron e Hiller, (2002); comunidades de prática por Fahey, Vasconcelos e Ellis (2007); serviços de inteligência e segurança baseados em Esteban Navarro e Navarro Bonilla (2003); orientação informacional por Marchand; Kettinger; Rollins (2000); e gestão de informações pessoais através das reflexões de Whittaker (2011).

Barradas e Campos Filho (2010) afirmam que a difusão da GC se deu a partir do clássico “Criação do Conhecimento na Empresa”, de Nonaka e Takeuchi (1997), que inseriu o modelo de criação do conhecimento. Segundo Henrique e Barbosa (2005), tal modelo foi recebido pela comunidade acadêmica como um marco no campo da CI. A parti daí outros modelos foram difundidos por autores de grande importância na área como os de Davenport; Prusak (2001), Sveiby (2001) e Stewart (1998).

Nessa perspectiva, a GC se converteu em um dos principais temas de investigação e, “como se pode verificar, tanto a GI quanto a GC surgiram das contribuições de pensadores que viveram muito antes da introdução dos computadores e da recente explosão informacional” (BARBOSA, 2008, p. 6). Na verdade, “su nacimiento es resultado de la evolución, por ampliación de su ámbito de acción, de la gestión de los recursos de información, cuya práctica está en su base (ESTEBAN NAVARRO; NAVARRO BONILLA, 2003. p. 272). Os autores acrescentam que o termo ‘gestão do conhecimento’ se generalizou desde 1999, em áreas diversificadas como a organização de empresas, a documentação, a informática e a ciência da administração. A verdade é que a importância da informação e do conhecimento para as organizações estabelece vínculos com a sociedade contemporânea e com o modo de produção vigente.

Para além das origens da GC e da GI, ditas no início desta seção, outras aproximações são evidentes. A partir das ideias acima apresentadas se pode perceber que a GC e a GI focalizam aspectos complementares entre dois importantes processos organizacionais. Para Barbosa (2008), embora tanto a informação quanto o conhecimento sejam aspectos importantes do ponto de vista da estratégia organizacional, acredita-se que a GI e a GC

estabelecem-se em processos únicos e peculiares para a gestão estratégica de uma organização.

No entanto, o autor enfatiza que a GI e a GC apresentam suas diferenças. Por exemplo, enquanto a GI focaliza a informação ou o conhecimento registrado, a GC destaca o conhecimento pessoal, muitas vezes tácito, e que, para ser efetivamente utilizado, antes precisa ser descoberto e socializado. Sendo assim, o que se deve levar em consideração na diferença entre as duas áreas é o fato de que o fenômeno central da GI é a informação ou o conhecimento explícito, e o fenômeno central da GC é o conhecimento tácito.

Portanto, Souza, Dias e Nassif (2011, p. 60)afirmam que

[...] da mesma forma que o conhecimento se coloca em uma escala qualitativamente superior à informação, a gestão do conhecimento se localiza em um estágio posterior a gestão da informação. Contudo, esta corresponde a um dos condicionantes daquela, na mesma perspectiva que a gestão dos recursos informacionais compõe às estruturas da gestão da informação.

Outra importante diferença para o autor está no fato de que uma vez que as organizações contemporâneas se caracterizam pela contínua produção, processamento e uso da informação, se pode considerar que os processos críticos da gestão da informação sejam a organização e o tratamento da informação. Por outro lado, descobrir onde se encontra o conhecimento bem como o seu compartilhamento constituem aspectos essenciais para a gestão do conhecimento.

Além dessas, outras diferenças estão evidentes no quadro a seguir: Quadro 5: Comparação entre GI e GC

Critério Gestão da informação Gestão do conhecimento

Fenômenos centrais Informação ou conhecimento

explícito competências pessoais Conhecimento tácito,

Visibilidade dos fenômenos Baixa Muito baixa

Processos críticos Organização e tratamento da informação

Descoberta e compartilhamento do conhecimento Nível de centralidade para a gestão

estratégica Mediana Alta

Influência da cultura organizacional

sobre processos e resultados Mediana Alta

Possibilidade de gerenciamento Baixa ou mediana Baixa ou muito baixa Outros conceitos relacionados Sistemas de informação,

gestão eletrônica de documentos

Capital intelectual, ativos intangíveis, aprendizagem

organizacional Principais campos disciplinares

envolvidos da informação, biblioteconomia, Ciência da computação, ciência arquivologia

Administração, ciência da informação Fonte: Barbosa (2008, p. 14)

Dentre as semelhanças, as mais evidentes se fazem presentes na cultura organizacional. A cultura de uma organização, entendida como um conjunto de pressupostos e valores compartilhados por um determinado grupo exerce impactos tanto sobre a GI quanto sobre a GC (BARBOSA, 2008).

Além disso, pode ser destacado o fomento de uma cultura informacional favorável, o que envolve o apoio e o incentivo ao compartilhamento da informação, a administração do excesso e da sobrecarga informacional, bem como o controle de múltiplos significados de conceitos e termos que caracterizam contextos organizacionais complexos e por consequência o compartilhamento e a criação de novos conhecimentos (DAVENPORT, 1998).

Vale lembrar que as próprias origens e a evolução da GI e da GC destacam os aspectos interdisciplinares dessas disciplinas que se caracterizam, ao mesmo tempo como diferenças e como semelhanças. Com relação à semelhança é fato de que se inter-relacionam com diferentes disciplinas e com diferentes conceitos. Com relação à diferença, podemos afirmar que essa relação é estabelecida de maneira diferenciada, mesmo quando, por vezes, utilizam- se dos mesmos conceitos.

Por exemplo, segundo Barbosa (2008), enquanto a GI se associa intimamente com a gestão eletrônica de documentos e os sistemas de informação, a GC relaciona-se com a gestão do capital intelectual e de ativos intangíveis, bem como a aprendizagem organizacional. Na GC, fica evidente a influência de disciplinas relacionadas à administração; das finanças, no caso do capital intelectual e do comportamento organizacional; e da gestão estratégica, no caso da aprendizagem organizacional. Por outro lado, a GI mantém estreitas conexões disciplinares com a CI, a ciência da computação, a biblioteconomia e a arquivologia.

Acredita-se que essas trocas interdisciplinares se intensifiquem no futuro. Um possível indicador dessa tendência se faz presente no número de escolas e departamentos da área de ciência da informação e/ou biblioteconomia que se agregam a departamentos de administração, computação, comunicação ou educação. Devido a isto, nota-se que o perfil do corpo docente desses programas de ensino também tem se tornado multidisciplinar, o que contribui para aumentar as interfaces entre as disciplinas (BARBOSA, 2008).

Por vezes, as semelhanças se estabelecem de tal maneira, que se usa a expressão unificada ‘gestão da informação e do conhecimento’. Porém,

[...] quando de se fala em gestão da informação e do conhecimento – expressão composta – está se referindo, notadamente, à relação informação e conhecimento, na dinâmica do processo de conhecer. Isso não implica, contudo, que outros processos em seu entorno sejam desconsiderados. Ao mesmo tempo em que se movimenta no processo de diferenciação, mais de

ordem metodológica, faz-se necessário pensar na complementaridade desses conceitos e práticas, porque a informação se apresenta como substrato material do conhecimento. Por outro lado, a informação como estrutura significante é condicionada à apreensão do sujeito conhecedor (SOUZA; DIAS; NASSIF, 2011, p. 59-60).

Para os autores, a GICse apresenta como um complexo de gestão de processos, que, em última análise, “promovem o desenvolvimento de competências em informação e conhecimento, nas diversas esferas organizacionais, possibilitando a criatividade e a competitividade” (SOUZA; DIAS; NASSIF, 2011, p. 68). Em resumo às reflexões de Barbosa (2008) e Souza, Dias e Nassif (2011), estabelecemos um quadro comparativo que aborda algumas diferenças e semelhanças entre a GI e GC, ao longo de seu percurso reflexivo evolutivo.

Quadro 6: Quadro comparativo de diferenças e semelhanças entre GI e GC

Diferenças

GI

- Estudos e práticas gerenciais que permitem a construção, disseminação e uso da informação;

- Processos que envolvem a gestão de recursos informacionais e de conteúdos; - Envolvem como subprocessos a gestão de TIC e de pessoas;

- É mais consolidada que a GC;

- Associa-se com a gestão eletrônica de documentos e os sistemas de informação; - Mantém conexões disciplinares com a CI, a ciência da computação, a biblioteconomia e a arquivologia.

GC

- Se dá por intermédio da convergência de outros processos gerenciais, como a GI, gestão de conteúdos, gestão de pessoas, gestão de TIC;

- Se realiza num contexto imbricado de culturas organizacionais; - Se realiza no espaço da organização do conhecimento;

-Está condicionada ao planejamento e construção de um espaço organizacional direcionado à cultura de aprendizagem;

- Apresenta o conhecimento como elemento principal na competitividade sustentável; - Relaciona-se com o capital intelectual, com os ativos intangíveis e com a aprendizagem organizacional;

- Contribui para que a organização se adapte às condições mutáveis do seu ambiente por intermédio da aprendizagem organizacional.

Semelhanças GI

e GC

- Focam dois fenômenos organizacionais importantes: informação ou conhecimento registrado, e conhecimento pessoal;

- Tem a CI como base estrutural; - São áreas interdisciplinares;

- Críticas em torno das aproximações e diferenças entre ambas;

- Podem-se destacar imprecisões conceituais, metodologias inadequadas, relações disciplinares confusas;

- Dinâmica estrutural constituída por pessoas, conteúdos e tecnologias;

- Informação e conhecimento como fatores integrantes do processo de produção. - Utilizam como elemento importante as TIC;

- Lidam com processos complexos, elusivos e de difícil observação; - Se relacionam com diferentes conceitos;

- Relação entre o processo de informar e conhecer.

Para além das diferenças e semelhanças estabelecidas, no perceber de Valentim (2007), a GI e a GC são entendidas como ações complementares. Segundo a autora, se a GI atua diretamente com os fluxos formais da organização, e se seu foco é o negócio da organização, e sua ação é restrita às informações consolidadas em algum tipo de suporte (impresso, eletrônico, digital etc.), ou seja, o que está explicitado, a GC atua diretamente com os fluxos informacionais da organização. Seu foco é o capital intelectual corporativo e sua ação é restrita à cultura e comunicação corporativa, ou seja, o que não está explicado. E, por isso, se complementam nas ações. Nesse sentido, a GI e a GC “atuam objetivando diminuir situações ambíguas e com alto índice de incerteza, possibilitando às pessoas da organização o acesso e o uso de informações que agirão sobre essas situações” (VALENTIM, 2007, p. 23).

Isso faz com que aconteçam fortes conexões intelectuais e práticas entre as disciplinas, que, segundo Barbosa (2008), vem se estreitando ao longo de seu desenvolvimento e evolução. Esse estreitamento tem se dado por diversas publicações em diversos periódicos científicos, no campo das instituições acadêmicas, nos programas e ofertas de disciplinas universitárias. E, por isso, o autor propõe uma visão integrada entre as áreas.