Desde a publicação de Psychanalyse, son image et son public por Moscovici, no início da década de 60, um número cada vez maior de trabalhos sobre representações sociais passou a apresentar uma variedade de abordagens metodológicas102 a ponto de Martínez Garcia e García Ramírez afirmarem que tanto o
procedimento científico como os instrumentos de coleta deveriam ser caracterizados pela plurimetodologia, uma vez que, de acordo com esses autores, “[...] ainda não nos encontramos diante de um corpo teórico capaz de gerar uma metodologia de estudo própria e específica adaptada ao seu objeto de estudo” (1992: 400),103 observação
essa ainda hoje atual.
Essa característica plural se estende também para as próprias linhas de pesquisa em representações sociais que podem ser divididas em quatro grandes vertentes: a primeira, pautada pelos estudos de Denise Jodelet, encaminha-se para uma orientação processual, em que se examina o papel regulador das representações sobre as interações sociais; a segunda, que tem em Jean-Claude Abric um de seus expoentes, preocupa-se em analisar a dinâmica representacional por meio de suas características estruturais relacionadas, sobretudo às práticas sociais; a terceira delas, de cunho mais sociológico, é representada por Willem Doise e tem como foco investigar a atuação da estrutura social na elaboração das representações; e, por fim, a quarta, atualmente desenvolvida por Ivana Marková, preocupa-se com o processo de comunicação, explorando o conceito de dialogicidade.
Ainda que estas linhas sejam complementares, tende-se aqui a utilizar a perspectiva processual como referência de investigação por três razões principais: A primeira delas é porque ela parte de uma “[...] abordagem hermenêutica, entendendo o ser humano como produtor de sentidos e focalizando-se na análise das produções simbólicas, dos significados, da linguagem, por meio dos quais os seres humanos
102
A respeito, ver Abric (2003) e Martínez Garcia e García Ramírez (1992).
103 Cf. original: “[...] Nos encontramos ante un cuerpo teórico que no ha sido aún capaz de generar una
Metodologia
constroem o mundo em que vivem” (Banchs, 2000: 3.6-3.7),104 o que permite a análise
tanto dos aspectos constituídos quanto dos aspectos constituintes das representações. A segunda, é porque o estudo Imaginário e representações sociais de
jovens universitários sobre o Brasil e a escola brasileira (Sousa e Arruda, 2006), do
qual a presente pesquisa é derivada, foi concebido e desenvolvido nessa perspectiva. A terceira razão decorre do fato de que é nela que se concentram os trabalhos que têm a preocupação de analisar a historicidade das representações sociais,105 haja
vista que, para tanto,
[...] é preciso recorrer tanto à base que dá as condições de produção da representação quanto ao estudo dos mecanismos que vão desenhá-la, e mais ainda: o desenho que deles resulta. Trata-se de um movimento para trás, para os lados e para a frente. Para trás, na busca do passado que dá o chão deste pensar. Para os lados, no sentido de situá-lo em sua inserção social, sua inscrição cultural, institucional etc. e no momento de produção daquela representação. E para a frente, ao vislumbrar, a partir da atribuição de sentido e do esquema que desenha a representação, a nova grade de leitura do mundo que ela levanta (Arruda, 1999: 9).
Evidentemente que não se trata de afirmar que as vertentes sociológica e estrutural consideram a teoria das representações sociais como um fenômeno anistórico. O próprio Abric, representante da linha estrutural, alega que “[...] as representações sociais são fortemente marcadas por sua inscrição em um processo temporal e histórico” (1994c: 220)106 motivo pelo qual a teoria do núcleo central,
tributária dessa linha, propõe variados mecanismos de coleta e análise dos dados para a identificação dos elementos que compõem seu núcleo e seu sistema periférico (Abric, 2003 e 1994d).
Nesse sentido, trabalhos fundamentados em uma abordagem estrutural, se apresentam uma preocupação com a dimensão histórica de uma determinada representação, não podem basear-se apenas na técnica de associação livre,107 uma
104 Cf. original: “[...] abordaje hermenéutico, entendiendo al ser humano como productor de sentidos, y
focalizándose en el análisis de las producciones simbólicas, de los significados, del lenguaje, a través de los cuales los seres humanos construimos el mundo en que vivimos”.
105
Dentre eles, podem-se citar os de Jodelet (2005b), os de Bertrand (2002 e 2003/2) e os de Herzlich (2001).
106
Cf. original: “[...] les représentations sociales sont fortement marquées par leur inscription dans un processus temporel et historique”.
107
Em linhas gerais, essa técnica, determinada pela combinação proposta por Grize, Vergès e Silem (1987) entre três indicadores, quais sejam a freqüência de um dado elemento, seu ranking de aparição na evocação do sujeito e a importância que este atribui ao item evocado, consiste em solicitar que o respondente diga quatro ou cinco palavras que lhe vêm à cabeça diante de um termo indutor específico (Abric, 2003 e 1994d).
Metodologia
vez que considerar apenas os indicadores de freqüência e de posição de evocação é enfatizar o conhecimento inferido de uma experiência direta dos sujeitos em relação às informações disponíveis na atualidade, o que pode fazer com que se considerem permanentes e, portanto, estáveis ou centrais, elementos advindos não necessariamente da vida social dos pesquisados.
Portanto, a observação da historicidade das representações sociais gera parâmetros que permitem interpretar como permanentes apenas aqueles elementos que efetivamente emergem da vida social, o que leva à conclusão de que mesmo uma abordagem estrutural – ou ainda sociológica que trabalha em torno da idéia dos princípios organizadores das representações (Doise, 1986) – não prescinde de um exame histórico desses elementos, ainda que, evidentemente, este esteja atrelado também à pergunta elaborada pelo pesquisador. Assim, se a intenção é investigar processos de generatividade, bem como a construção da estabilidade ou mesmo dos princípios organizadores das representações sociais, então, não há como desconsiderar a dimensão histórica.
Contudo, essa dimensão apresenta também problemas intrínsecos de análise que podem ser exemplificados por meio da seguinte afirmação de Bertrand: “se o mundo social se constrói por meio de pré-construções passadas, essas formas não são estáticas, elas são transformadas e reapropriadas em nossa atualidade” (2003/2: 134).108 Ora, se essas formas não são estáticas, como compreendê-las em
sua historicidade? Como analisá-las levando-se em conta esse movimento de transformação e reapropriação?
Foi, portanto, a partir dessas questões que a trajetória metodológica da presente pesquisa, sintetizada no quadro a seguir, foi sendo construída com a intenção de analisar a historicidade das representações sociais de Brasil associadas ao nódulo elementar de sentido “diversidade”.
108 Cf. original: ”Si le monde social se construit à partir de préconstructions passées, ces formes ne sont
Metodologia
QUADRO 1 - Síntese Esquemática da Trajetória Metodológica
Procedimentos
metodológicos Objetivos Referencial teórico-metodológico
1. Estudo exploratório das respostas dos 976109 estudantes às
questões “Por que você acha que isso tudo é Brasil?” e “O que, para você, diferencia o Brasil dos outros países? Por quê?” obtidas no banco de dados da pesquisa Imaginário e representações sociais de jovens universitários sobre o Brasil e a escola brasileira (Sousa e Arruda, 2006) - selecionar um nódulo elementar de sentido expressivo na organização das representações sociais de Brasil analisadas na pesquisa coordenada por Sousa e Arruda (2006)
- abordagem processual da teoria das repre- sentações sociais (Moscovici, 1978 e Jodelet, 2005b e 2001)
2. Montagem de um dicionário por meio de lista de associações contendo os atuais sinônimos e atributos do nódulo selecionado - identificar o universo semântico do nódulo selecionado na produção textual dos universitários tendo, como apoio, dicionários contemporâneos considerados de uso corrente - identificar critérios para seleção e análise das fontes históricas
- dicionários contempo- râneos da língua portuguesa (séculos XX e XXI)
- exploração das repre- sentações sociais por meio dos dicionários (Lahlou, 2003 e 1995) - abordagem da história
dos conceitos (Koselleck, 2006a e 1992) - abordagem da história efeitual (Gadamer, 2002) 3. Construção de um quadro de análise que oriente a investigação da historicidade do nódulo elementar de sentido visando sua identificação nas fontes históricas selecionadas
- fichamento das fontes históricas selecionadas - construção de uma matriz de
análise para compreender o nódulo selecionado no contexto de uso das fontes históricas atentando para a transferência descuidada para o passado de expressões contemporâneas
- dicionários da língua portuguesa (século XIX) - fontes históricas: Carl
Friedrich Phillip von Martius, Francisco Adolfo de Varnhagen, Joaquim Manoel de Macedo e Affonso Celso
- abordagem da história dos conceitos (Koselleck, 2006a e 1992)
- abordagem da história efeitual (Gadamer, 2002)
109
O número total de respondentes era 1.029. A diferença em relação ao número de respostas efetivamente obtidas (976) deve-se ao fato de que nem todos os universitários responderam as questões selecionadas. Lembrando ainda que se trata de alunos do 1.º ano dos cursos de Enfermagem, Engenharia, Medicina, Pedagogia e Serviço Social de instituições públicas e privadas dos seguintes Estados brasileiros: Pará, Pernambuco, Bahia, Goiás, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul.
Metodologia
continuação Procedimentos
metodológicos Objetivos Referencial teórico-metodológico
4. Preparação do
material de análise - compreender selecionado no contexto de o nódulo uso, no caso, a produção textual dos universitários - compreender a estrutura
dessa produção com o auxílio de uma análise informatizada
- programa informatizado Alceste para análise estatística textual
5. Análise dos dados por meio da “fusão de horizontes interpre- tativos”
- compreender o nódulo selecionado como efeito de uma idéia construída no passado - abordagem processual da teoria das representações sociais (Moscovici, 1978 e Jodelet, 2005b e 2001) - abordagem da história
dos conceitos (Koselleck, 2006a e 1992)
- abordagem da história efeitual (Gadamer, 2002)
Acredita-se que essa trajetória metodológica, detalhada a seguir, favoreça a investigação de como o passado se integra às formas atuais de pensar nossa “comunidade imaginada”, segundo expressão de Anderson (1991), chamando a atenção para aquilo que Moscovici (2003) denominou de “regularidade de estilo”, ou seja, a permanência de determinadas categorias de pensamento nas representações sociais e que fazem referência a períodos anteriores de sua produção, de modo a permitir a discussão de sua historicidade.