que, para você, diferencia o Brasil dos outros países? Por quê?” obtidas no banco de dados da pesquisa Imaginário e
representações sociais de jovens universitários sobre o Brasil e a escola brasileira (Sousa e Arruda, 2006).
Inicialmente, retomou-se o banco de dados organizado quando da pesquisa Imaginário e representações sociais de jovens universitários sobre o Brasil e
a escola brasileira, desenvolvida entre 2003 a 2006 sob a coordenação das
Metodologia
selecionar um elemento que fosse expressivo na organização das representações sociais de Brasil.110
Foram pesquisados 1.029 universitários do primeiro ano dos cursos de Enfermagem, Engenharia, Medicina, Pedagogia e Serviço Social de 23 instituições, sendo 9 públicas e 14 privadas, dos Estados do Pará, Pernambuco, Bahia, Goiás, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul, distribuídos da seguinte forma:
TABELA 1 - Distribuição do Número de Alunos
Curso Participantes % Enfermagem 236 22,9% Engenharia 192 18,7% Medicina 154 15,0% Pedagogia 267 25,9% Serviço Social 180 17,5% Total 1.029 100,0%
Fonte: Sousa e Arruda (2006).
Os instrumentos de coleta do estudo eram compostos por três blocos: o primeiro, denominado “QP”, referia-se à identificação do perfil do participante; o segundo, “Q1”, solicitava realização de desenho, de associações livres e de questões abertas e, por fim, o “Q2”, apresentava tabelas, questões e mapas com a intenção de detalhar aspectos apontados nos blocos anteriores. A seguir, descreve-se sucintamente o instrumento “Q1” (Anexo 1), uma vez que a presente pesquisa fará uso apenas do banco de dados dele derivado, circunscrito ainda a duas questões a serem apresentadas adiante.
O “Q1” foi composto por um caderno de questões em que, inicialmente, foi feita a seguinte solicitação: “Na folha em branco ao lado, desenhe o mapa do Brasil sem se preocupar com a exatidão. Faça somente o contorno do mapa, sem dividir por
110
Em suas etapas de coleta, processamento e análise dos dados, a referida pesquisa contou com a colaboração das seguintes pessoas: Adelina de Oliveira Novaes, Aline dos Santos Brito, Amanda Cerdeira Pilão, Ana Carolina Dias Cruz, Angela Maria Martins, Carolina Fernandes Pombo de Barros, Cristal Oliveira Moniz de Aragão, Euricilda de S. P. Del Bel, Glaucia T. Franco Novaes, Joana Coelho Barbosa, Juliana Maria Santos Rodrigues, Leon Bizzocchi, Luana Pedrosa Vital Gonçalves, Lúcia Pintor Santiso Villas Bôas, Marcia Inês da Silva Ribeiro, Marialva Rossi Tavares, Miriam Bizzocchi, Patrícia Simon Lorenzutti, Paula Brito Cordeiro, Paulo Cardoso Ferreira Pontes, Renilma Coelho, Sara Costa Cabral Mululo, Tamara Galieta Nascimento, Thiago Francisco Abraira Crespi, Thiago P. D. B. Belluz e Verônica Braga dos Santos.
Metodologia
Estados” (questão 1).111 Após essa primeira atividade, pediu-se que o respondente
desenhasse, nesse mesmo mapa, o que ele achava que existia espalhado pelo Brasil, numerando os desenhos na seqüência de sua realização (questão 2). A intenção com tais enunciados, de acordo com os objetivos da pesquisa proposta por Sousa e Arruda (2006), era acessar o mapa imaginário112 construído sobre o Brasil, percepção esta
que talvez não se expressasse com a utilização de um questionário que privilegiasse somente a via escrita, ainda que os problemas teórico-metodológicos colocados pelo uso do desenho na pesquisa sejam similares àqueles apontados para a utilização do material discursivo (cf. Ibáñez Gracia, 1988).
111
Houve a preocupação de que o desenho do mapa do Brasil fosse a primeira atividade a ser realizada pelos respondentes para que o mapa produzido não tivesse nenhuma referência visual que pudesse interferir nesta atividade. A utilização, portanto, do mapa visava responder, em linhas gerais, às seguintes questões: Quais são as imagens que os participantes da pesquisa produzem sobre o Brasil? Quais são os elementos acionados por eles para compor essa imagem, haja vista as dimensões do país? Como eles desenham o que há no Brasil e como isso organiza o campo imagético dessas representações? A respeito, ver Sousa e Arruda (2006).
112
A noção de “mapa imaginário”, similar ao que acontece com as representações sociais, apresenta-se como um conceito polissêmico, a ponto de Guerrero Tapia considerá-lo sinônimo de mapa mental, como pode ser observado no trecho a seguir: “Contudo, é necessário reconhecer que o ‘mapa imaginário’ (ou também ‘mapa mental’) é um construto teórico formulado para referir-se a um fenômeno complexo psicológico e psicossocial. Como disse Aragonés (1986), ninguém nunca viu um mapa mental, e agregamos, nem um mapa imaginário. Do mesmo modo que muitos outros conceitos e categorias teóricas dentro da disciplina psicológica, os mapas mentais são úteis para explicar como se constroem as estruturas (cognitivas, sociocognitivas, mentais, imaginárias, representacionais) nos indivíduos, nos grupos e nas sociedades, sobre o espaço, o lugar, o território, o ambiente, o planeta, o mundo, e tudo o que ele contém. Em outras palavras, estes construtos servem para compreender a forma como os sujeitos (indivíduos, grupos, sociedades) internalizam as formas objetivadas da cultura e as formas físicas do meio ambiente, e constroem suas imagens mentais. Desse modo, se conhecem mais dos processos psicossociais que intervêm na construção do pensamento social. Mas também os mapas mentais são úteis para conhecer a elaboração imaginária do objeto mesmo, ou seja, o que existe apenas como construção imaginária (Durand, 1964; Lizarazo, 2004). Assim, o mapa imaginário encerra em seu conteúdo não apenas informação sobre o espaço territorial e o meio ambiente, mas também aspectos histórico-culturais (alegóricos, míticos, emblemáticos, estéticos etc.) porque não apenas é produto do conhecimento e informação que os sujeitos possuem sobre esse objeto, mas também produto da
imaginação, é criação humana (Castoriadis, 2002)” (2005: s.p.).Cf. original: “Sin embargo, es necesario
reconocer que el ‘mapa imaginario’ (o también ‘mapa mental’) es un constructo teórico que se han formulado para referir un fenómeno complejo psicológico y psicosocial. Como dice Aragonés (1986) nadie ha visto nunca un mapa mental, y agregamos, ni un mapa imaginario. Al igual que muchos otros conceptos y categorías teóricas dentro de la disciplina psicológica, los mapas mentales han sido útiles para explicar la forma como se construyen estructuras (cognitivas, sociocognitivas, mentales, imaginarias, representacionales) en los individuos, los grupos y las sociedades, sobre el espacio, el lugar, el territorio, el ambiente, el planeta, el mundo, y todo lo que en ello se contiene. En otras palabras, estos constructos sirven para comprender la forma como los sujetos (individuos, grupos, sociedades) internalizan las formas objetivadas de la cultura y las formas físicas del medioambiente, y construyen sus imágenes mentales. De ese modo, se conoce más de los procesos psicosociales que intervienen en la construcción del pensamiento social. Pero también los mapas mentales son útiles para conocer la elaboración imaginaria del objeto mismo, es decir, lo que no existe mas que como construcción imaginaria (Durand, 1964; Lizarazo, 2004). Así, el mapa imaginario encierra en su contenido no sólo información sobre el espacio territorial y el medioambiente, sino también aspectos histórico-culturales (alegóricos, míticos, emblemáticos, estéticos, etc.) porque no sólo es producto del conocimiento e información que los sujetos poseen sobre ese objeto, sino es también producto de la imaginación, es creación humana (Castoriadis, 2002)”.
Metodologia
Após essa atividade, era solicitado ao respondente que desse um título ao mapa por ele elaborado (questão 3) e que indicasse e justificasse a seleção dos dez primeiros elementos desenhados como fazendo parte do Brasil escolhendo, dentre estes, os quatro mais importantes segundo sua opinião (questões 4 e 5). A seguir, ele deveria responder ainda a duas questões abertas, quais sejam: “Por que você acha que isso tudo é Brasil?” (questão 6.1) e “O que, para você, diferencia o Brasil dos outros países? Por quê?” (questão 6.2).
O modo como a seqüência foi encadeada, ainda que não intencionalmente, fez com que estas duas últimas questões funcionassem como uma espécie de síntese das anteriores, permitindo, com isso, a identificação dos elementos organizadores das representações sociais de Brasil denominados, por Lahlou (2003), de “nódulos elementares de sentido” (nodules élémentaires de sens), identificação esta fundamental para a análise de sua historicidade.
Isso porque, como as representações sociais possuem um caráter modal, uma vez que elas são constituídas por aspectos sensoriais, motrizes, emocionais, cognitivos, lingüísticos etc. (cf. Lahlou, 2003), sua análise requer que elas sejam decompostas de modo a selecionar um dos nódulos que a integram com o objetivo de compreender como ele se constitui historicamente, uma vez que cada nódulo tem a sua própria historicidade.113 Isso pressuposto, é preciso concordar com
Lahlou quando ele afirma que
precisamos, entretanto, abandonar a esperança de determinar os elementos atômicos em virtude mesmo da natureza fractal do sentido: todo elemento, visto de perto, cinde-se, por sua vez, em outros elementos. Toda descrição de uma representação social é forçosamente aproximativa justamente por esta razão; ela o é a fortiori pois, por sua natureza e razões relacionadas à sua própria função – a capacidade de se adaptar a toda uma categoria de ocorrências reais do fenômeno – a representação social é um objeto de contornos fluídos (2003: 38 – grifos do autor).114
113
Algo, aliás, passível de ser estendido ao conhecimento histórico na medida em que, de acordo com Schaff, “[...] o conhecimento histórico têm sempre como objeto um processo histórico na sua totalidade se bem que nos apercebamos desse objeto através do estudo de fragmentos dessa totalidade” (1995: 308).
114 Cf. original: “Il nous faut cependant abandonner l´espoir de déterminer des éléments ‘atomiques’, en
raison même de la nature fractale du sens: tout élément, vu de près, se scindera à son tour en éléments. Toute description d´une représentation sociale est forcémment aproximative pour cette raison; elle l´est a fortiori car, par nature et pour des raisons qui tiennent à sa fonction même – la capacité à s´adapter à toute une catégorie d´ocurrences réelles du phénomène – la représentation sociale est un objet aux contours flous”.
Metodologia
Para a seleção, portanto, de um dos nódulos das representações sociais de Brasil, identificados a partir da pesquisa elaborada por Sousa e Arruda (2006), optou-se pelo uso do banco das questões “Por que você acha que isso tudo é Brasil?” e “O que, para você, diferencia o Brasil dos outros países? Por quê?”, dada a possibilidade de analisar seus aspectos constituídos.
Assim, a leitura do banco de dados dessas duas questões, em conjunto com a análise da matriz de interpretação do desenho realizado pelos respondentes no “Q1”, matriz essa elaborada por Arruda et al. (2004 – Anexo 2), orientaram a escolha do nódulo elementar de sentido “diversidade” como um dos eixos organizadores das representações sociais de Brasil.115 Contudo, a multiplicidade de sentidos conferida à
palavra “diversidade” faz com que o “estado de coisas”116 que ela expressa não esteja
claramente explicitado, gerando a necessidade de investigar como ela é apresentada nas respostas dos universitários. Para tanto, construiu-se uma lista de associações por meio de consultas a dicionários de uso corrente, visto que estes, ao se configurarem como uma construção coletiva por excelência, terminam por fixar formas compreensíveis por todos em uma referência social comum, permitindo, com isso, compreender como essa palavra foi utilizada (cf. Lahlou, 2003), procedimento este que passa a ser descrito a seguir.
2.2.2 Montagem de um dicionário por meio de lista de associações