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R HEOLOGY – RESULTS AND DISCUSSION

5. RESULTS AND DISCUSSION

5.5. R HEOLOGY – RESULTS AND DISCUSSION

Este eixo foi construído para tentar compreender como o tema do abuso sexual é percebido pelos pediatras, e entender o que acontece com os pediatras, em relação à questão do abuso sexual infantil.

Quando perguntados como se sentiam atendendo casos de abuso sexual contra a criança, a maioria dos profissionais falou de sentimentos desagradáveis.

Eu fico ansiosa (Pe 1).

[...] a gente fica chateado com essa situação (Pe 1).

[...] a gente fica, é difícil, você começa a ficar meio psico (Pe 2). [...] a gente fica assustado (Pe 4).

[...] foi uma coisa de arrasar qualquer um (Pe 4). [...] porque eu chorava tanto (Pe 6).

[...] coisas que me dão arrepio quando penso (Pe 6).

[...] essas coisas mexem muito com o profissional que está atendendo (Pe 6).

[...] a gente tinha muitas angústias, muito receio (Pe 7). [...] eu tenho uma revolta muito grande (Pe 9).

[...] eu fico angustiada quando vejo isso, eu quero arrumar aquilo, eu quero consertar aquilo (Pe 9).

[...] uma monstruosidade (Pe 4). [...] é muito grave, é feio (Pe 5).

[...] eu acho que a gente comove as pessoas primeiro, é muito impressionante isso, primeiro a gente age pela emoção, pelo humano, para depois se colocar como profissional (Pe 5).

[...]muito impactante, porque a gente tinha dificuldade de lidar (Pe 7).

A pediatra Pe 6 falou como se tivesse acontecido com ela:

[...] acho que foi marcado de ferro.

[...] é uma violência também para mim, porque, além de pediatra eu sou mãe, então eu me coloco no lugar daquela mãe.

[...] eu acho que eu faria o meu papel se eu fosse lá, pegar o cara que judiou da criança e fazer com ele a mesma coisa que ele fez com a criança, esse seria o meu papel, como mãe, como pediatra, como ser humano.

Farei uso de alguns conceitos da psicanálise para pensar as questões suscitadas nos pediatras.

O conceito de identificação projetiva, de acordo com Silva Filho (2003), é cada vez mais utilizado por todos os analistas das várias correntes da International Psychoanalytical Association (IPA), por ter se mostrado de grande importância para se entender o inter-relacionamento emocional entre paciente e analista, e como essas trocas contribuem para o progresso ou a paralisação de uma análise.

Para o autor, na clínica psicanalítica, o conceito da interação entre identificações projetivas e introjetivas entre analista e analisando torna-se hoje soberano. Um coloca no outro seus objetos internos10, imagos11 de representações,

experiências e fantasias inconscientes do passado infantil. Pela assimetria da situação analítica, o paciente o faz com maior intensidade.

Considerando os sentimentos evocados nos pediatras durante os atendimentos de crianças abusadas sexualmente, recorremos ao auxílio da psicanálise tomando o conceito da contratransferência, importante instrumento de

10 Objetos internos - algo que é trazido do meio externo e com o qual o indivíduo passa a se

relacionar desde dentro (Fairbairn, 1980).

diagnóstico terapêutico, que informa ao analista sobre o mundo interno do paciente. Segundo Fédida (1991), ―é a capacidade do analista de observar e de compreender suas próprias reações íntimas àquilo que o paciente lhe comunica‖; ou seja, para cobrir todos os sentimentos que o analista experimenta em relação ao paciente.

De acordo com Zaslavsky e Santos (2005), o encontro analítico passou a ser observado e estudado como uma relação que produz um impacto emocional mútuo, no qual ocorrem trocas de informações, ou seja, comunicações, em nível verbal e não-verbal, intencionais ou não. A contratransferência possibilita que o analista escute, através de seus sentimentos, não só o que o paciente diz, mas, mais ainda, o que ele não diz, por ignorá-lo no plano do consciente. Os aspectos inconscientes do paciente poderiam não estar somente em seu inconsciente reprimido: ―essas partes ou sentimentos ausentes poderiam, algumas vezes, estar

bem mais longe, nos sentimentos de outra pessoa‖, Seu significado não se prende

apenas à técnica. Esta abordagem psicanalítica muda a partir dele, tornando-se uma teoria da dupla, ou do vínculo, isto é, dos fenômenos que ocorrem no par analítico, e não mais apenas no paciente.

Para Junqueira (2002), o olhar dirigido à vítima deve transpor a violência sexual vivida e a cicatriz impingida por esta. É necessário, diferentemente, viabilizar a construção de identidades diversas da de vítima sexual.

Com base nessa abordagem psicanalítica, nos é autorizado entender que nas relações pediatra-paciente, que são abordadas nesse estudo, os pediatras, quando falam, estão podendo trazer à tona o estado emocional suscitado pela questão do abuso sexual.

Dentro da maneira de abordar a questão do abuso sexual nas entrevistas, quando surge a situação em que as crianças têm relações sexuais com seus pais, as manifestações dos pediatras explicitam sua posição diante do horror ao incesto. Por outro lado, nota-se a dificuldade de ser percebida e ouvida a família como destrutiva, frente ao imaginário da família adequada e segura.

[...] mas você não está treinado para pensar que aquela pessoa que deveria mais proteger, que seria a mãe, a família, o pai, é a pessoa que põe em risco a vida da criança (Pe 5).

[...] eu não fico nada bem (Pe 1).

[...] deprimente, frustrante porque eu não posso fazer nada para voltar a situação... É o desespero de querer poder ajudar a criança, a cabecinha dela, para que ela não tenha traumas terríveis na vida

dela é aquela coisa de querer proteger, e é frustrante porque você não tem... O que você pode fazer (Pe 1)?

[...] um absurdo... Pessoalmente eu não aceito (Pe 3). [...] é um crime, uma monstruosidade (Pe 4).

[...] às vezes eles nem acreditam que aquilo está acontecendo (Pe 8).

Essas colocações nos remetem à proibição do incesto, tão marcada em nossa cultura. O desejo incestuoso, presente em todos os seres humanos, deve ser reprimido para a sobrevivência da civilização: ―o incesto é antissocial, e a civilização consiste numa progressiva renúncia a ele‖ (Freud, 1974).

Freud (1924) considera a proibição do incesto como um estruturador mental, pois é por meio da repressão dos desejos incestuosos que se estrutura o aparelho mental em suas três instâncias: id, ego e superego. O id constitui o polo pulsional12; o superego é a instância formada pela internalização da lei, sendo o ego responsável pela intermediação entre as leis internas e as leis externas. O não à atuação dos desejos edípicos delimita as fronteiras entre o desejo e a realidade.

Segundo o autor, existe um antagonismo entre as exigências dos impulsos e a inserção do indivíduo na cultura, e o indivíduo sempre deverá lidar com esse conflito. A proibição do incesto recai não só sobre o ato, mas também sobre a fala, de tal modo que falar no assunto também é tabu.

Evocando Freud (1974), em Totem e Tabu,

[...]as proibições e evitações são regras para a consolidação de uma moral sexual, necessária para a criação de vínculos sociais: tendo no horror ao incesto e na exogamia a base para a delimitação das relações entre os clãs totêmicos como também entre as pessoas de uma mesma família.

O horror ao incesto obrigava o homem primitivo a criar estratégias para evitar a violência que a expressão de seus desejos provocariam.

12

Processo dinâmico que consiste numa carga energética que faz tender o organismo para um alvo. Segundo Freud, uma pulsão tem a sua fonte numa excitação corporal (estado de tensão); o seu alvo é suprimir o estado de tensão que reina na fonte pulsional; é no objeto ou graças à ele que a pulsão pode atingir o seu alvo. (LAPLANCHE & PONTALIS, 1970)