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4. DEL 3: SIMULERING OG ANALYSE AV RESULTATER

4.4. R ESULTATER OG ANALYSER FRA SIMULERINGENE

Jamais poderíamos concluir este capítulo sem nos referirmos a outros centros de criação de eticidades que não faziam parte dos sistemas inter-regionias antigos,

38 As reflexões feitas naquela apresentação foram publicadas posteriormente como capítulo de livro que trata de epistemologia da bioética latino-americana (39).

embora já existissem desde então. Durante o período correspondente ao estágio I, fora de sua inter-região correspondente, houve uma vertiginosa produção de conteúdos de eticidades também na Índia, na China e na Ameríndia (que começou a ser povoada após o término da ultima glaciação, com a passagem através do estreito de Behring há mais de 50 mil anos). Por um critério de interesse, em face da ambientação gestacional da Bioética de Intervenção na latino-américa, trataremos brevemente – uma vez que o pensamento ameríndio será retomado em capítulos posteriores – das eticidades ameríndias.

Embora que de forma desconectada do sistema asiático-afro-mediterrâneo, a Ameríndia pode ser considerada como uma espécie de prolongamento daquele sistema inter-regional, visto que nela se constituíram reconhecidas grandes áreas culturais como a Asteca, Maia e Inca. Entre elas há em comum um determinante cultural importante para a definição de um núcleo ético-mítico que é o princípio da dualidade (diferentemente de dualismo). Este pode ser considerado como inerente às mais variadas visões de mundo de diferentes povos ameríndios. Das três culturas citadas, discorreremos apenas sobre a última. Essa seleção guarda relação direta com os conteúdos dos capítulos 5 e 6 quando abordaremos a temática do bom viver e as experiências de refundação do Estado, em que as filosofias Quíchua e Aymara aportarão grandes contribuições. Dada a dificuldade de acessar fontes documentais escritas mais antigas, estaremos nos reportando a períodos mais recentes, observando, contudo, que as culturas que os invasores europeus irão encontrar nos séculos XV e XVI constituem-se legados de uma multiplicidade de povos ameríndios conformadas durante vários milênios. As informações apresentadas a seguir têm como fonte principal as publicações de Josef Estermann, que durante décadas se dedica a pesquisar as filosofias andinas.

Historicamente, a cultura Inca-quíchua está associada ao Tawantinsuyo39, referido por alguns historiadores como Império incaico, também conhecido como Império do Sol (aproximadamente 1300-1535), localizado no coração da Cordilheira dos Andes. A sua expansão cultural, deflagrada por Pachakuti desde Cuzco, ocorreu em meados do século XV após a vitória militar sobre os Chancas, chegando a uma extensão territorial correspondente aos atuais territórios da Colômbia, Equador,

39 Tawantinsuyo significava a terra dos quatro cantos, como era definido pelos incas. A denominção “Império do Sol” foi dada pelos conquistadores.

Peru, Bolívia, Chile e Argentina. Por cerca de cem anos as tropas Inca sob a liderança sucessiva de Pachakuti, Tupac Yupanqui e Wayna Qhapac impuseram uma cultura com mais de 10 mil anos de história, repleta de valiosos aportes de antigas civilizações coma os Chavín, Pararas, Mochica, Tiawanaku, Nazca, Wari, Chimú y Lambayeque. No final do século XV o Tawantinsuyo impôs uma política de padronização cultural mítica (inti – culto imperial ao sol) e uma filosofia que resultou na imposição de Runa Simi (Quíchua) como a língua imperial oficial. Todavia, não conseguiu subjugar as minorias culturais, linguísticas e sapienciais, como as Aymara, o Uru, o Pukara e outros povos que continuaram a fazer uso de suas línguas originárias, assegurando também suas próprias visões de mundo. Todavia, “na cultura inca-quíchua [...] exprimiu-se de uma maneira paradigmática a concepção moral universal do império – sobre centenas de culturas particulares – com os três imperativos formais: Ama Llulla; Ama kella; Ama Sua (Não mentirás; Não deixarás de trabalhar; Não roubarás)” (36) [p.31].. Aqui vale a pena deixar registrado que há outra expressão Ama Qhilla (não sejas frouxo) que foi inserida na constituição da Bolívia em substituição à expressão Ama Kella. Talvez isso possa ser compreendido como uma predominância da primeira nas zonas de maior influência Aymara e da segunda nas zonas de influência Quíchua.

O Pensamento Quíchua tem uma racionalidade sui generis que é construída em torno de um conceito manifesto pela palavra Pacha (também da língua Aymara). Esta palavra é polissêmica, por isso de difícil tradução para outras línguas. Filosoficamente, Pacha significa "universo ordenado em categorias espaços- temporais", mas não simplesmente como algo físico e astronômico. Ela engloba toda a natureza dentro da qual se inserem os humanos, assim como as demais espécies. Pacha talvez possa ser compreendida como tudo o que existe no universo, a Pacha Mama (mãe terra, mãe natureza etc.). Na racionalidade andina a relacionalidade é um conceito constitutivo de toda a realidade cósmica, onde tempo, espaço, ordem e estratificação são elementos imprescindíveis para a racionalidade do todo. Com base nessa compreensão relacional, o universo encontra-se ordenado a partir dos seguintes princípios e diretrizes: relacionalidade, correspondência, complementaridade, reciprocidade e ciclicidade. Estes servem de referência paradigmática aos comportamentos éticos (50).

Na filosofia andina um ente não pode ser o princípio em si mesmo, mas está sempre em relação com outros e é regido por uma normatividade exterior (heteronomia). A relacionalidade é manifestada em nível cósmico como a correspondência entre o micro e o macro-cosmos. A ordem cósmica dos corpos celestes, as estações, a circulação da água, os fenômenos climáticos e até o divino têm sua correspondência (encontra resposta correlativa) nos seres humanos e suas relações econômicas, sociais e culturais. O princípio da correspondência questiona a validade universal da causalidade física, não há uma causalidade mecânica entre o micro e o macro-cosmos, mas sim simbólico-representativa. Cada ente e cada acontecimento têm um complemento (complementaridade) como condição do seu existir no cosmos e tornar-se capaz de atuar (intervir). Um ente individual, isolado está incompleto e é incapaz de estabelecer um relacionamento com o seu oposto. Diferentemente da lógica ocidental, a oposição não paralisa a ação, mas pelo contrário a dinamiza, como ocorre na perspectiva da lógica dialética do pensamento oriental: Céu e terra, homem e mulher, noite e dia, bem e mal, etc. Por isso, bem e mal são considerados inseparáveis para o pensamento andino. A complementaridade cósmica ocorre na interação entre o lado esquerdo e o lado direito, como se traduz na compreensão da sexualidade, o lado esquerdo corresponde ao gênero feminino e o lado direito ao gênero masculino, portanto, tudo é sexuado e complementar (50).

Os princípios de correspondência e complementaridade se manifestam no nível ético como princípio da reciprocidade: a cada ação corresponde complementarmente outra ação recíproca. Tal princípio rege tanto as relações dos humanos entre si e com a natureza, o divino. Daqui pode-se deduzir que a reciprocidade é um princípio de validade universal e que a ética não é exclusiva do ser humano, mas possui dimensões cósmicas. Há nesse sentido o estabelecimento de uma justiça cósmica como normatividade subjacente à multiplicidade relacional. Ou seja, o princípio da reciprocidade é a própria ordem cósmica em formato de um sistema harmonioso e equilibrado de relações. E tudo isso se dá dentro de um tempo cíclico, numa sequência de ciclos descontínuos (dialética), que são interrompidos por cataclismos e dão origem a novas eras. As categorias avançado e atrasado, desenvolvido e não desenvolvido, não são importantes. O tempo tem uma ordem qualitativa, entre o antes e o depois. Importa o tempo de maior densidade

analisada pelo grau de importância dos acontecimentos, reconhecendo que cada tempo possui o seu propósito específico (50).

Entendemos que a proposta de Ética da Libertação como a definiu Dussel, para que possa de fato concretizar seu projeto, deverá obrigatoriamente incluir em sua formulação as contribuições éticas das culturas ameríndias, mesmo porque nas últimas décadas vem ocorrendo na América Latina um movimento crescente de aproximação, conhecimento e aprofundamento do pensamento ameríndio como forma de luta descolonial, onde os direitos políticos e os direitos epistêmicos são colocados em mesmo grau de importância. A mesma exigência também se apresenta para uma bioética que se pretende libertadora em sua prática, como se aplica à Bioética de Intervenção. Desse modo, o esforço teórico empreendido nesse capítulo teve como finalidade indicar alguns referenciais que consideramos ser necessários explicitar em vistas do que iremos desenvolver nos capítulo 4 a 6 quando pretendemos aprofundar a teoria da Bioética de Intervenção.

3. A BIOÉTICA DE INTERVENÇÃO NO CONTEXTO DO PENSAMENTO LATINO-