1. INTRODUCTION TO THE ENERGY SUPPLY SYSTEM TOOL FOR ZEB
1.2 R ESEARCH BACKGROUND
Reconhecimento é a tecnologia de obtenção de informações sobre a superfície terrestre a partir de uma perspectiva vertical, ou seja, aquela que imprime à observação o sentido único que vai do “topo para a base”, de “cima para baixo”. Surgida no século XVIII, esta tecnologia, também chamada de “fotografia aérea”, passou por um forte desenvolvimento no século XIX, mas aguardou até a segunda metade do século XX para ser empegada de forma permanente e sistemática com o objetivo de produzir dados e informações sobre alterações e mudanças ocorridas na superfície terrestre. Ao longo deste período, sucederam-se vários modos de registro das transformações observadas na superfície, como veremos a seguir.
A fotografia aérea, conforme explica o pesquisador Sebastian Grevsmühl (2014), aparece na conjunção do uso de balões e câmeras fotográficas para a obtenção de informações, tanto para uso militar quanto cartográfico.
Uma das primeiras referências históricas sobre o reconhecimento diz respeito apenas ao uso de aeróstatos em confrontos bélicos. Na batalha de Fleurus, de 1794, os franceses teriam usado estes veículos aéreos para observar e depois comunicar ao comandante, informações relevantes sobre as movimentações do exército austríaco. Ao contrário desta experiência fortuita dos franceses, os balões teriam sido usados de maneira mais regular durante a Guerra de Secessão, nos Estados Unidos, de 1861 a 1865.
No campo cartográfico, o fotógrafo francês Gaspard-Félix Tournachon, conhecido como Félix Nadar, registrou fotos aéreas de Paris embarcando um daguerreotipo em um balão no final da década de 1850. Nadar defendia a aplicação da fotografia aérea na cartografia, mas reconhecia o seu valor para usos militares.
Fonte: http://etudesphotographiques.revues.org/docannexe/image/916/img-3.jpg
A partir dos anos 1870, a fotografia passou a dispor de meios secos para o registro da imagem, o que permitiu diminuir o tempo de exposição e retratar com mais qualidade objetos móveis, bem como registrar imagens a partir de um ponto em movimento. Aproveitando-se desta inovação, Gaston Tissandier e Jacques Ducom utilizaram em 1885 um balão para atravessar Paris pelos ares e fotografá-la. Com uma câmera que utilizava placas de brometo de prata instalada perpendicularmente na cesta do balão, ou seja, com sua lente objetiva voltada para o solo, registraram sete fotos.
Fonte: http://etudesphotographiques.revues.org/docannexe/image/916/img-5.jpg Figura 1. Vista aérea do bairro de l’Etoile, em Paris, registrada por F. Nadar em um voo de balão (1868) Figura 2. Vista aérea do Sena e de parte da ilha de Saint- Louis em Paris feita durante voo de balão realizada por Tissandier e Ducom. (1885)
A mais célebre delas é a fotografia que, de uma altura de 600 metros, pode-se ver com impressionante nitidez parte da ilha de Saint-Louis (Figura 2). O Bulletin de la Société
française de photographie daquele ano chamou atenção para esta fotografia e ressaltou todo o proveito que poderia ter para “a Geografia, a Topologia e a Arte Militar” (Gervais, 2001).
Com a fotografia aérea emergiu uma perspectiva de visão radicalmente nova no final do século XIX: a vista vertical (vue plongeante). Segundo Grevsmühl (2014), a perspectiva vertical foi responsável pela configuração de um novo regime escópico1, o planisfério, que
subverte o regime de representação clássico da paisagem:
Nesta perspectiva, as fotografias aéreas verticais aparecem então como uma inversão da ordem representacional clássica. Não conhecem nem alto, nem baixo, nem direita e nem esquerda, a fotografia vertical abala de maneira estrutural o regime de representação clássico. Assim, através da vista vertical, o simples fato de se perder o solo abaixo dos pés leva à perda do horizonte e de todo ponto de fuga e a uma transformação fundamental da representação do mundo (Grevsmühl, 2014:116).
No planisfério, as imagens não são mais um conjunto composto segundo a ótica de um observador, como ocorria com o regime da paisagem. A subversão da paisagem pelo planisfério, como destaca o autor, diz respeito ao surgimento de um novo modo de leitura das imagens, no qual elas se tornaram, nas palavras do engenheiro e pioneiro do filme falado na Alemanha, Hans Wohlrab, “um amontoado de detalhes em mosaico” (Idem: 139).
Ao contrário do que ocorria com as paisagens, geralmente produzidas por um “autor” para expressar uma narrativa, a fotografia aérea é uma imagem produzida de forma automática, com uma composição aleatória de elementos submetidos a uma escala, os quais necessitam de metadados (coordenadas geográficas, altitude, resolução das lentes) para serem interpretados, e cuja interpretação deve ocorrer em série, na qual a imagem está inserida em uma cadeia de tomadas feitas ao longo do tempo, com um “antes” e um “depois”.
1 Por “regime escópico”, Christian Metz (1984) e Martin Jay (1993), propõem denominar o “olhar” que uma
certa época produziria, levando em conta que mesmo a produção de modelos dominantes no campo visual está submetida a disputas com uma série de subculturas visuais.
Este novo regime escópico teve um grande impacto no modo de se fazer guerras. Data da Primeira Guerra Mundial a utilização de aeronaves em confrontos, empregadas originalmente com a função de reconhecimento do terreno inimigo para depois serem utilizadas como veículos transportadores de bombas.
Com a adoção de trincheiras na arte da guerra, as aeronaves surgiram para os britânicos como o único modo de se verificar o que acontecia atrás da linha de frente alemã, já que balões e dirigíveis, por serem veículos lentos, eram facilmente abatidos. No início, o piloto era acompanhado por um observador que registrava em um caderno as informações sobre a tropa inimiga, objeto que rapidamente foi substituído por câmeras fotográficas. Além disso, com o uso do rádio, os aviões ajudavam na correção da orientação dos projéteis da artilharia. Menos de um ano após o início do conflito, os dois lados já haviam criado patrulhas aéreas para abater as aeronaves de reconhecimento inimigas (Hart, s/d: 72).
Foi da primeira para a segunda Grande Guerra que o ar consolidou-se como mais um campo de batalhas, repleto de perigos iminentes, porém um espaço privilegiado para a observação. Na Segunda Guerra, o reconhecimento foi utilizado pelos nazistas para acompanhar o movimento das tropas inimigas, informação necessária para melhor planejar a expansão das tropas alemã pelo continente.
Do lado dos Aliados, as fotografias aéreas foram principalmente registradas pela britânica Royal Air Force, que ficara responsável pela coleta de informações sobre as instalações das forças armadas nazistas para municiar a elaboração de missões de bombardeamento. A Royal Air Force concentrou-se na busca das instalações onde ficavam os radares, na identificação dos locais de produção de armamentos para a avaliação das capacidades bélicas alemãs. Foi por meio do reconhecimento aéreo que os aliados descobriram a produção secreta dos foguetes nazistas V-1 e V-2. Neste conflito, os bombardeios estratégicos de alvos terrestres tornaram-se sistemáticos para atingir não apenas
instalações militares, mas também fábricas, ferrovias, represas, refinarias, etc., qualquer alvo cuja destruição afetaria diretamente a capacidade de resistência do inimigo (Idem).
No imediato pós Segunda Guerra, ao sentirem-se ameaçados pela sua ex-aliada na derrota a Hitler, os Estados Unidos obtiveram informações sobre a União Soviética com prisioneiros de guerra ou por meio de fotografias feitas pelos britânicos e pelos próprios alemães. No final dos anos 1940, as Forças Aérea e Naval estadunidenses iniciaram missões de reconhecimento do território soviético com aviões bombardeiros Boeing B-47 Stratojet, especificamente adaptados para câmeras fotográficas. Aproveitaram que o sistema de radares soviéticos ainda não estava inteiramente operante, sobretudo na região nordeste da costa pacífica russa. A URSS respondeu aos EUA com o recrudescimento de sua política de defesa aérea, atacando as aeronaves estrangeiras que insistiam em violar seu espaço aéreo.
Sobretudo nos Estados Unidos, o estímulo para a ocupação do espaço sideral esteve atrelado ao interesse do Estado de possuir meios de reconhecimento, ou seja, meios para a produção de informações e dados sobre outros Estados então considerados “inimigos”. Os Estados Unidos se mobilizaram para elaborar amplos programas de inteligência para espionar o potencial bélico e tecnológico da União Soviética. No entanto, era necessário que a forma adotada para a obtenção de informações não representasse um custo a mais para o complicado equilíbrio da segurança planetária nos tempos de Guerra Fria.