5. CONCLUSIONES GENERALES
5.4. R EFLEXIONES FINALES
Como vimos, Cândido Motta Filho55 publicou, em 1931, um livro intitulado Alberto
Torres e o thema da nossa geração. Motta Filho “segue” o mestre já na introdução, quando
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O paulistano Cândido Motta Filho (1897-1977) foi advogado, político, professor, jornalista e ensaísta. Desse modo, seguiu os passos de seu pai, Cândido Nogueira da Motta, também advogado, político e professor da Faculdade de Direito de São Paulo. Trabalhou na imprensa desde jovem, escrevendo artigos, crônicas, crítica literária e assumindo cargos de direção em vários periódicos. Dirigiu, com outros escritores, as revistas Klaxon e
afirma que seu livro é uma contribuição que pretende oferecer para sua geração. Nesse trecho, transparece toda a incerteza que se vivia no pós-1930 e a forte inquietação que caracterizava aqueles homens, dispostos a contribuírem nos novos destinos a serem traçados para a nação.
Em 24 de outubro, a velha republica se desfez deante de um movimento militar (...). O que veiu depois? O que virá? No meio das afflicções dos desesperados e das maguas dos desilludidos, no meio dessa inquietação geral, que ameaça (...) a unidade secular da pátria, eu me lembrei de entregar ao publico este pequeno ensaio, contribuição de esforço, appello de minha intelligencia para o que resta de optimismo e de fé em nossa geração.
O texto é recheado de elogios a Torres, sempre apresentado como o mestre e guia da geração a qual Motta Filho pertenceria.
A nossa geração viu em Alberto Torres um mestre para a reorganização moderna do Brasil, capaz de suggerir uma nova vida mais ampla e mais confortadora (Motta Filho, 1931, p.17). Há, sem dúvida, um processo de mitificação de Torres, que aparece como um homem superior e bem à frente de seu tempo.
Alberto Torres (...) Viu os avanços e os recuos, as crises financeiras, as crises políticas, as crises moraes e religiosas. Observou a grande anarchia do mundo contemporaneo. E procurou semear o seu pensamento como o bom semeador da Bíblia (Motta Filho, 1931, p.25).
Alberto Torres presentiu a compressão dos acontecimentos e denunciou essa política como errada (ibidem, p.29).
Alberto Torres é um despertar de consciência (ibidem, p.131).
Ao longo do livro, são apresentadas algumas idéias de Torres, com muitas citações, e essas idéias são então reafirmadas por Motta Filho. A principal idéia destacada de Torres é o
artificialismo que tem marcado nosso país, desde a Independência. Nosso estrangeirismo,
nossa mania de copiar. Motta Filho reafirma que nossas instituições, leis, preocupações, modas, costumes, são sempre copiados do estrangeiro, não sendo próprios à nossa especificidade. Não conhecemos nossa terra, nossa gente e somos estrangeiros em nosso Política. Participou do movimento modernista, integrando a corrente do “verde-amarelismo”, junto com Cassiano Ricardo, Menotti Del Picchia e Plínio Salgado, de quem foi companheiro próximo. Embora tenha participado da SEP, onde gozou de muito prestígio, nunca aderiu à AIB (Trindade, 1974, p.127-128 e p.152). Participou do PRP e ocupou diversos cargos públicos. Participou da Revolução Constitucionalista, no gabinete do Governador Pedro de Toledo, juntamente com Cassiano Ricardo e Menotti del Picchia. No Estado Novo, substituiu Cassiano Ricardo no DIP. Foi ministro do trabalho do governo Dutra e ministro da educação e cultura do governo Café Filho Paralelamente, continuou a exercer a advocacia e o magistério, em várias universidades, tendo sido professor catedrático da Faculdade de Direito de São Paulo. Foi também membro da ABL e do IHGB, ministro e vice-presidente do Supremo Tribunal Federal, e presidente do Tribunal Superior Eleitoral.
próprio país. A esse alheamento da realidade, combinado com o artificialismo de nossas instituições, o autor chama de nosso excesso de “imaginação”.
Sempre a falta de tradição, procurando apoio na tradição alheia; sempre a imaginação substituindo a visão da realidade. Assim, o brasileiro, para viver, precisa do extrangeiro, mas por sua vez, é ameaçado de morte por elle! (Motta Filho, 1931, p.32).
Não temos assim cultura, mas a falsa cultura, o Larousse, a Encyclopedia Britannica, o estilo Luis XV (...), as meninas que tocam piano pelo methodo Schmall, (...) os romances de Pierre Loti para a gente rica e Michel Zevaco para a gente pobre56 (ibidem, p.33).
Ver o Brasil com os olhos de brasileiros é realizar o sonho de Alberto Torres, é desprezar o dogmatismo farfalhudo dos nossos falsos doutores e dos nossos falsos problemas (ibidem, p.40).
Também é sublinhado o tratamento de Torres da questão racial, que recebe uma abordagem bem “progressista” de Motta Filho. É claro que já estávamos então em 1931, enquanto o auge da moda das teorias raciais importadas em nosso país foi no início do século. Todavia, os escritos examinados por nós de Alceu Amoroso Lima e Oliveira Vianna são desse mesmo período, e apresentam uma visão bastante diferente.
O nosso problema racial, para ser resolvido (...) tem que ser orientado da mesma maneira. Sem discutir raças puras e outros bysantinismos de civilizações extenuadas. (...) Torres já pensava assim. Seu espirito sempre combateu esses preconceitos (...) (Motta Filho, 1931, p.68).
É um excesso o encarar-se a raça como (...) uma entidade em si (ibidem, p,70). Porém, Motta Filho nem sempre concorda com Alberto Torres.
Eu bem comprehendo que a obra de Alberto Torres tem, para muitos, como tem para mim, pontos de discordâncias. Nem tudo o que elle escreveu está certo. (...) Foi Alberto Torres quase que um isolado. Incomprehendido e despresado pelos homens publicos de sua geração, não podia, é bem certo, fixar o seu constructivismo, apanhando com rigorosa exactidão, todas as verdades nacionaes. Não teve estimulo. Não teve ambiente propicio. Não foi um genio. De modo que em sua lucta bellissima e heroica, no sentido mais elevado desta palavra, foi excessivo algumas vezes (Motta Filho, 1931, p.106).
Assim, Alberto Torres não era um gênio! Contudo, mesmo os erros de Torres são imputados ao ambiente inóspito em viveu, que não o valorizou, não o estimulou. Por isso, em sua luta heróica e bela, ele cometeu alguns “excessos”. Motta Filho não especifica quais seriam essas deficiências, esses excessos de Torres. Afirma apenas que o “largo trabalho que
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elle executou sobre o problema da economia nacional tem muitos pontos que me parecem exaggerados” (Mota Filho, 1931, p.107). E logo em seguida a esses “poréns”, seguem-se derramados elogios e a explicação de que a obra de Torres não vale por seus detalhes, mas por seu conjunto, seu espírito realista e sua demanda de um Estado harmônico.
Mas o que destaco em Alberto Torres (aliás o que predomina vantajosamente em sua obra) é o seu constructivismo, o seu aguçado senso de realidade. (...) Elle é consagrado pela nossa geração. Elle se impoz deante de nós. (Motta Filho, 1931, p.107).
Vale muito mais, no entanto, a sua obra no seu conjuncto, no seu aspecto geral, na totalidade que abrange, no plano que offerece para as conquistas da verdade brasileira e para o reerguimento de um Estado harmônico com a Nação (ibidem, p.161).
Outras idéias de Torres, destacadas e reafirmadas por Motta Filho no livro são: a crítica ao bacharelismo, a constatação de que não há uma nacionalidade formada, a crítica à nossa desorganização política e econômica, a crítica à Primeira República, com sua descentralização dissolvente e seu reduzido grau de governo, suas fraudes e conchavos, e a necessidade de um governo mais forte.
Esse “governo fortíssimo” que reclamava Alberto Torres, e que nós todos hoje reclamamos, e que a própria Europa reclama, no que chamei “a inquietação da autoridade”, resultava como uma necessidade da nossa politica pilherica e pervertida. Essa politica de camaradagens, de compadres, de coroneladas, de explorações continuadas, devorava toda força governativa (...). Essa governava por violências e solicitações. Ou agradava ou feria (Motta Filho, 1931, p.142). Um ponto do pensamento de Torres também muito sublinhado por Motta Filho é a defesa da importância fundamental do meio na formação das sociedades. Temos que conhecer bem nossa terra, nossas condições climáticas, nosso solo, a fim de nos adaptarmos bem em nosso “habitat”. Daí a importância fundamental da geografia. Como Torres, Motta Filho também sublinha a necessidade de haver adaptação e harmonia entre a terra e a gente, e entre estas e suas instituições. É possível notar em Motta Filho sua grande admiração pela concepção orgânica e harmônica da realidade social por parte de Torres. Para Motta Filho, esse é um ponto que deve constar, seguramente, no projeto da nação a ser construída. Segundo ele “deve-se, primordialmente, averiguar si povo está em harmonia com a terra em que vive” (1931, p.47). Quanto a nosso país, “soffriamos de um desequilíbrio organico
profundo” (ibidem, p.11). Mas Alberto Torres “viu no nacionalismo a conjugação orgânica das forças dispersas do pais” (ibidem, p.20). Dessa forma,
Nós precisamos crear esse quadro organico de vida. Sermos identicos com a nossa geographia. Estabelecermos um estilo. Sem discrepâncias. (...) Precisamos crear esse espírito de integração, essa “marca de fabrica”, esse privilegio de uma nacionalidade (ibidem, p.59). Por isso deduzia, amparando-me em Alberto Torres, que o Brasil, em harmonia com a terra, poderia offerecer para a historia uma civilização marcada pela solidez e pelo espirito creador (ibidem, p.66).
Uma nação harmônica não só em relação à adaptação das gentes e suas instituições ao meio, mas que consagra a harmonia entre seus habitantes. Uma nação sem conflitos, onde todos colaboram para o interesse maior do país.
O homem typo racial não é o que nos interessa. (...) O que nos interessa é exclusivamente o typo nacional, o homem que se forma e vive no ambiente brasileiro. O homem-contribuição para a unidade do corpo social (Motta Filho, 1931, p.87).
Para corroborar seu argumento, o autor cita Simmel, segundo o qual dentro de um círculo ligado pela comunhão de fins e interesses, cada membro se vê no outro, não de um modo empírico, mas porque esse círculo impõe essa obrigação a todos que dele participam (ibidem, p.88). Para Motta Filho (ibidem), “é essa grande e espontânea collaboração commum, é esse espírito idêntico, que animam a Alberto Torres e a todos nós a affirmar a vitalidade brasileira”. Em sua opinião é esse, definitivamente, o caminho a ser seguido:
A concepção de uma politica orgânica estudada por Alberto Torres, deante dos factos brasileiros, é uma das concepções mais expressivas que conheço. Os beneficios della são immensos. E é para elles que pensamos caminhar (ibidem, p.135).
Finalmente, outra questão ressaltada no livro, e que dá um tom bastante particular (já que não aparece em Alberto Torres), específico de Motta Filho, é o elogio ao paulista e, daí, ao bandeirante57. Assim, segundo esse autor, quanto mais civilizada é uma sociedade, menos “imaginação” e artificialismo ela produz. Desse modo,
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Como mostrou De Luca (1999), essa identificação automática entre bandeirante = paulista é uma construção das primeiras décadas do século XX. Há um processo de mitificação da figura do bandeirante, heróica e na qual residiria a origem da nação. As bandeiras seriam o acontecimento fundante, a partir do qual se inicia a narração de como a nação começou a existir (ibidem, p.102). Paralelo a isso, o bandeirante vai se tornando sinônimo de paulista. Essa identificação transferia toda a carga simbólica do termo aos paulistas, que nele se reconheciam como herdeiros e continuadores dos feitos gloriosos de seus antepassados (ibidem, p.103). Uma construção
São Paulo que é um dos Estados mais progressistas do Brasil, onde a cultura é mais sólida, onde o nacionalismo é mais coordenado, – a imaginação é mais enxuta. Há, em São Paulo, uma inclinação natural para repellir a rhetorica, a literatura adjectivosa e brilhante, as divagações bysantinas, que observamos (...) em certos núcleos brasileiros, mais pobres e mais politiqueiros. São Paulo é um Estado onde (...) os seus filhos cuidam de sua terra (Motta Filho, 1931, p.42).
O bandeirante (...) conhece o território palmo a palmo. (...) É elle uma força impetuosa (...) o autor da primeira e commovedora tragédia da formação brasileira e que, semeando a nacionalidade por todos os recantos (...) (ibidem, p.53).
Alberto Torres: intelectual e pensador
Falamos sobre a negativização da política que ocorre nas primeiras décadas do século XX, identificada à politicalha, vícios, corrupção e ineficiência, enquanto há uma valorização do mundo da ciência, dos intelectuais, dos técnicos, identificado à razão, pureza, neutralidade, eficiência. Também comentamos que Torres procurou construir, através de seus textos, a imagem de que era sobretudo um pensador, um intelectual, e não um político. É claro que os dois fatos estão absolutamente ligados. Na medida em que há uma forte negativização do campo tradicional política, da forma como esta vinha sendo praticada na Primeira República, expressa nas críticas ferozes dos intelectuais (das quais Torres não apenas compartilha como reforça fortemente), enquanto há uma valorização do mundo das idéias, da técnica, da razão, é como intelectual que Torres procura se identificar. Como intelectual, pensador e sociólogo. Nas décadas seguintes, essa dicotomia política X ciência ainda permanece. Com isso, os “discípulos’ de Alberto Torres vão então reafirmar a imagem criada pelo “mestre” (tanto nesse como em outros aspectos). Além disso, é preciso lembrar que tal dicotomia abre espaço, como já comentamos, para a justificação da intervenção do intelectual na arena pública.
No livro de Motta Filho, é como pensador que Torres é identificado, e não como político. Para provar isso, o autor chegar a criticar a atuação de Alberto Torres em seus cargos políticos, incluindo a presidência do Estado do Rio de Janeiro.
histórica com claras implicações políticas, contribuindo para explicar e justificar a supremacia econômica de São Paulo e para legitimar as pretensões da elite local de conduzir politicamente o país (ibidem, p.106).
Cuidando, como elle cuidou, do problema político brasileiro, com tanta superioridade, (...) sabedoria, não era, com tudo isso, um homem político... Exerceu a política, discretamente,
mediocremente. Foi presidente do Estado do Rio de Janeiro, foi parlamentar, ministro (...)
mas, em todas as funcções políticas em que esteve, não deixou um traço que o distinguisse da mediania dos políticos brasileiros. No governo do Estado escreveu magníficas mensagens; isto quer dizer que elle só se destacou na política, quando poude apresentar-se como pensador. Há homens que se bastam a si mesmos, pensando. (...) Alberto Torres podia ficar muito bem entre esses (Motta Filho, 1931, p.17-18, grifo nosso).
Alberto Torres (...) Tem mesmo outro campo de acção. É um homem que pensa (...) sua obra é um primoroso surto de intelligencia. É uma elaboração methodisada e constante. (...) Não pedanteia. (...) Não procura adornar. (...) Não he nelle a violencia do batalhador, a aspereza do homem de luta, mas aquella tranquillidade emotiva do homem de estudo, do homem que sente a necessidade de dizer o que pensa. De modo que, participando directamente da vida política do pais, dava a essa participação um caracter de estudo experimental (ibidem, p.19).
Alberto Torres foi medíocre como político! É interessante que tal crítica aparece em livro apologético, recheado de elogios ao “mestre” Alberto Torres. Sua carreira política teve assim, muito mais um caráter “experimental”! Esse esforço nítido de colocar Torres como pensador e não como político se justifica, como dissemos, pela negativização da política que ocorria então, e valorização da ciência. Além disso, é como grande guia intelectual, ideólogo e inspirador que Motta Filho toma Torres nesse livro. Não como um político, que negocia, que contemporiza, que possuí a “aspereza” da luta. Afinal, para o espírito de Torres, “não havia interesses partidários possíveis” (Mota Filho, 1931, p.20). Torres deve ser visto como um mentor de doutrinas e idéias – idéias como crítica ao liberalismo, fortalecimento do Estado, centralismo, nação orgânica e harmônica, dirigida por ilustrados – dele, Motta Filho, e de toda uma geração.
Não sendo assim um político militante, nem um poeta, mas um eminente sociólogo (...). Como o que elle diz é simples e sensato, (...) em sua maioria, baseado em material brasileiro –, a nossa geração, tão agitada e inquieta, desilludida pelas velhas idéia e confundida pelas novas, socorre-se delle ou, senão, prega doutrinas inspiradas nas suas (Motta Filho, 1931, p.20-21, grifo nosso).