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CHAPTER 1. INTRODUCTION

1.3. R ATIONALE OF THE RESEARCH

A falência do padrão fordista de acumulação, sinalizada desde os anos 1970 e manifesta na queda de lucratividade do capital, forçou muitas das empresas capitalistas a buscarem alternativas viáveis à sua sobrevivência. Nesse contexto a flexibilidade da produção e a elevação dos ganhos de produtividade se colocaram como objetivos centrais das estratégias dos grandes grupos capitalistas.

A introdução de tecnologias de base microeletrônica substituindo a automação rígida de base eletromecânica somadas às novas formas de organização do processo de trabalho em detrimento das formas taylorista-fordistas, condensam as iniciativas implementadas no sentido de flexibilizar a produção; delas emerge o novo modelo de acumulação capitalista indistintamente denominado de neofordismo, especialização flexível, Ohnismo, toyotismo etc., ou, segundo Braga (1996, p. 120), genericamente chamado de pós- fordismo.

A reestruturação produtiva é aqui sintetizada como o conjunto dessas transformações orgânicas processadas no interior das empresas capitalistas no sentindo de responder de maneira eficiente às exigências impostas pelo novo padrão de acumulação gestado pelo movimento de valorização do capital em suas esferas de produção e circulação. A reestruturação produtiva é dessa forma um processo que está umbilicalmente vinculado às necessidades de intensificação da produtividade do trabalho, fundamento do aumento da lucratividade do capital.

O gasto com novas tecnologias físicas e de processo78 enquanto estratégia para o aumento da produtividade do capital nos supermercados acompanha a lógica identificada por Marx (1985) quando analisou o circuito descrito pelo capital total.

Segundo essa lógica a esfera da circulação aparece como inextricável barreira à valorização do capital, e, por isso, todo e qualquer esforço para o avanço da produtividade do capital implica, por sua vez, na redução do tempo de circulação através da aceleração de sua rotação:

O principal meio de redução do tempo de produção é a elevação da produtividade do trabalho, o que normalmente se chama de progresso da indústria. [...] O principal meio para reduzir o tempo de circulação é o aperfeiçoamento das comunicações. E nestas os últimos 50 anos testemunharam uma revolução que só pode ser comparada com a Revolução Industrial da segunda metade do século passado. [...] O tempo de rotação do comércio mundial global abreviou-se na mesma medida e a capacidade do capital que dele participa foi aumentada mais que o dobro ou o triplo. Que isso não tenha ficado sem efeito na taxa de lucro é obvio (MARX, 1985, v.3, p. 56).

A reestruturação produtiva no comércio busca realizar esta potência assinalada por Marx, e nos supermercados, em particular, ela compõe-se de três movimentos distintos, a saber: a introdução de tecnologias de comunicação, a automação comercial, e a logística; estes movimentos se integram, combinam e complementam dentro de uma racionalidade econômica específica. A decomposição analítica destes movimentos cumpre aqui somente a função de melhor identificar a especificidade de cada processo dentro dos supermercados, os quais já foram pré-caracterizados como sendo de grande heterogeneidade, e por isso mesmo de difícil generalização em seus elementos conclusivos.

O processo de automação no comércio data dos meados dos anos 1990, e pressupôs, enquanto fator determinante para sua ocorrência o desenvolvimento e a utilização

78 Ver “Tecnologias Organizacionais e Qualificação: os Aspectos Atitudinais da Qualificação”. (ARAUJO, 1996)

de tecnologias de informação. As bases materiais para a eclosão desse processo estavam dadas desde que o computador pessoal (PC) e o modem79, criados respectivamente em 1975 e

1976, invadiram o mundo produtivo e se transformaram em importantes ferramentas de trabalho; o ano de 1991 marcou a data da primeira conexão de internet feita no Brasil, realizada pela Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e o de 1995 indica quando esta tecnologia de informação foi aberta ao público pela Embratel.

As bases econômicas e políticas do processo de automação comercial surgiram com a queda relativa da inflação no período pós-Real, quando os supermercados, assim como outras empresas, ao perderem a parte da receita oriunda da especulação financeira, tiveram que ajustar suas contas, tanto pela adequação de suas margens de comercialização quanto pela busca de ganhos de eficiência operacional e de produtividade.

A internacionalização do setor trouxe consigo a intensificação da concorrência. A fim de se adaptar ao novo contexto e evitar uma possível “guerra de preços”, as empresas começaram a perseguir por meio dos serviços que prestavam, diferenciações no atendimento, no mix80 de produtos, na facilidade de pagamento e etc. deslocando dos preços a percepção de único fator ponderável de competição. Os recursos adotados, por serem medidas que dependem precisamente do feed back do consumidor, mostraram grande fragilidade na capacidade de racionalização e na consecução de metas e objetivos.

Entre tantas outras estratégias embaralhadas, a automação comercial foi a que apresentou resposta mais viável; isso se deu tanto em função de que a automação comercial como meio de ampliação da produtividade do trabalho apresentou um alto grau de racionalização, quanto sua facilidade de aplicação, dependendo ela unicamente de fatores objetivos, tais como a capacidade de investimento do capital e o nível de concorrência estabelecido.

A automação comercial determina-se pela necessidade imanente e permanente do capital de, na busca de sua valorização, revolucionar as condições técnicas e sociais do processo de trabalho a fim de, na relação quantitativa que compõe a jornada de trabalho, reduzir a fração correspondente ao tempo de trabalho necessário destinado à reprodução do trabalhador, aumentando absoluta e relativamente a proporção do tempo de mais-trabalho, fundamento e substância da mais valia81. Por essa razão, a automação comercial, assim como

79 Modulador que permite a transmissão de dados pela linha telefônica. 80 Cesta de produtos oferecida pelo supermercado.

81 Desde a subsunção real do trabalho ao capital, a mais valia relativa tem se apresentado como característica fundamental do modo de produção capitalista. Isso se deve prioritariamente a transformação dos meios de

a industrial, teve início nas grandes firmas, no entanto, o baixo custo de instalação da automação comercial, se comparado à industrial, possibilitou sua disseminação pelas empresas de menor porte, como nos demonstra o gráfico 3, ao quantificar a dinâmica da automação comercial nos supermercados.

Gráfico 3: Número de lojas automatizadas no Brasil, período 1992 a 2005.

41 92 203 504 1654 2036 27242916 3140 38134013 4638 3174 4700 0 500 1000 1500 2000 2500 3000 3500 4000 4500 5000 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005

Fonte: Ranking Abras – Fundação Abras/ACNielsen, 2005. Base: 482 empresas ou 64,52% do setor.

A automação comercial dos supermercados pode ser dividida basicamente em duas partes:

1- Automação da frente82 da loja: uso de caixas eletrônicos, leitores de código de barras e preenchimento de cheques, cujo objetivo é o atendimento mais rápido do cliente, e a geração de informações sobre as vendas.

2- Automação de retaguarda: sistema integrado de compras/transferências, vendas e estoque, com leitores óticos (scanners), cujo objetivo principal é excelência no gerenciamento e dinamismo no relacionamento com os fornecedores.

A automação comercial buscou responder a dois aspectos básicos que compõem a definição de logística83: a centralização ou não das operações de distribuição, e o nível ótimo trabalho em maquinário o qual vai dominar todo o processo produtivo transformando o trabalhador num apêndice de si mesmo.

82 Segundo dados do Ranking 2005 da Abras, praticamente 100% das lojas já fizeram sua automação de frente. Esse elevado índice responderia as exigências legais de emissão de cupons fiscais nas vendas realizadas (ÂNGELO; SIQUEIRA,2000, p.103).

83 Segundo o Council Management dos Estados Unidos, defini-se logística como “o processo de planejamento, implementação e controle, de forma eficiente e eficaz, do fluxo e armazenamento de bens, serviços e

de utilização das tecnologias de informação. Ao primeiro ela respondeu com a centralização das operações, e ao segundo com a quase universalização de seu uso.

A automação comercial e o uso de tecnologias de informação possibilitaram, no terreno da logística, também o desenvolvimento do ECR (Efficient Consumer Response) para o gerenciamento e controle da cadeia de abastecimento:

O ECR propõe quatro diferentes estratégias: reposição, sortimento, promoção e introdução eficiente de produtos. Com a reposição eficiente, de acordo com o manual da Associação ECR do Brasil (1998), busca-se otimizar o tempo e o custo do sistema de reposição. O sortimento eficiente visa a otimizar os estoques e espaços da loja. A introdução eficiente de novos produtos objetiva maximizar a eficácia do desenvolvimento e lançamento de novos produtos. Por último, por promoção eficiente entende- se maximizar os benefícios de todo o sistema de promoção de venda ao varejo e ao consumidor final. (ÂNGELO; SIQUEIRA, 2000, p. 94).

Entretanto, para que essa possibilidade se realizasse, haveria que se superar importantes barreiras vinculadas tanto a problemas intrafirma como interfirmas.

Na frente intrafirma o principal problema estava relacionado com o baixo índice de automação de retaguarda; porém, segundo o Ranking da Abras, esse problema já começou a ser eliminado se considerarmos que dos participantes da pesquisa realizada em 2005, 96,7% responderam positivamente à questão sobre automação de retaguarda.

Na linha interfirmas o problema situava-se na parca utilização do EDI (Eletronic

Data Interchange), troca eletrônica de dados entre fornecedores e firmas, em virtude tanto da

grande quantidade de fornecedores contatados por cada empresa84 quanto da qualidade das informações partilhadas entre os agentes, restritas a transmissões de notas fiscais, vendas e promoções, não se estendendo ao planejamento de vendas das firmas.

O ECR conjuga uma série de ferramentas gerenciais que se compõem da troca eletrônica de dados (EDI), dos check outs automatizados, de leitores óticos e recepção eletrônica das mercadorias, dos códigos de barras, cross docking85, gerenciamento do estoque pelo fornecedor, emissão do pedido de compras pelo computador, reposição contínua, nível de serviço adequado na carga e descarga dos caminhões e entrega direto na loja.

A implantação do ECR é custosa e seu retorno demorado, contudo, no curto prazo, seu potencial de redução de custos, diga-se trabalho, nos supermercados com informações a eles relacionados, desde o ponto de origem até o ponto de consumo, com vistas a se adequar às necessidades do cliente” (op. cit., p. 90).

84A média por empresa é de 2.123, sendo o valor máximo de 6.800 (ÂNGELO; SIQUEIRA, 2000, p.98). 85 Procedimento de mover mercadorias do caminhão do fornecedor para o caminhão com destino a loja sem a utilização das áreas de armazenamento ou de preparação de pedidos.

inventários, requisição de produtos, fatura, e pagamento pode atingir nos Estados Unidos 30 bilhões de dólares e 33 na Europa (KUMAR, apud SESSO FILHO, 2003, p.35).

As tecnologias de informação, a automação comercial e a logística, como já afirmarmos anteriormente, apresentam-se aos olhos do capital comercial como meio essencial para auferir ganhos com a produtividade do trabalho e a ampliação de sua competitividade em função da inovadora possibilidade de racionalização da organização do trabalho nas empresas localizadas na esfera da circulação; contraditoriamente, no que diz respeito ao campo da gestão do trabalho, elas têm aberto possibilidades de promover, na contramão da gestão do trabalho industrial, a organização do trabalho nos supermercados de maneira mais racional, aos moldes do taylorismo.

As tecnologias de informação, a automação comercial e a logística representam um importante investimento em capital constante, o qual na relação estabelecida com o capital variável, implica sempre num aumento da composição orgânica do capital, pois como nos lembra Rosdolsky (2005):

O emprego de maquinaria para aumentar a mais-valia implica, pois, uma contradição: dos dois fatores que determinam qual será a mais-valia produzida por um capital de magnitude dada, ele aumenta um (a taxa de mais-valia) e diminui o outro (o número de trabalhadores).

No entanto, dada a especificidade do capital atuante na esfera da circulação, sua natureza improdutiva na criação de valor e mais-valia, tal argumento torna-se inapropriado. Na circulação não se distingue capital constante do capital variável, conta-se todo investimento somente como investimento de capital que passa a ser remunerado pela taxa média de lucro, apesar da renitente grita dos comerciantes.

A reestruturação produtiva nos supermercados traz, contudo, para o âmbito das empresas do setor necessidades de ajustamento, que só com o tempo poderão ser melhor explicitadas, estejam elas relacionadas ao processo de organização do trabalho nas firmas ou vinculadas às demandas de qualificação do trabalhador.