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CHAPTER 2. METHODOLOGY

2.2. G ENERAL METHODS

A perspectiva determinista tecnológica (FORTË, 1992, apud ROCHE, 2004, p. 33) como vimos, surgiu nos anos 1950 na França após a publicação dos relatórios das pesquisas realizadas por Friedmann, Naville e Touraine (ARAUJO, 1999, p. 174; PAIVA, 1993, p. 312). Ela tem como fundamento empírico às mudanças processadas na produção industrial dos países de capitalismo avançado, produto da transferência para a indústria civil de importantes avanços da ciência e da tecnologia militar, desenvolvidos durante a segunda guerra mundial, os quais seriam responsáveis segundo Mandel102 (1985) pela terceira revolução técnica vivenciada pelo modo de produção capitalista desde a sua gênese.

Esta perspectiva ganha força nos anos 1960 após a publicação por Braverman103 do livro “Trabalho e Capital Monopolista”, nele o autor, dizendo basear-se na concepção marxista das relações sociais de produção, aponta para a permanente introdução de novas tecnologias nos processos de produção e de trabalho como sendo a força responsável pela tendência inexorável à desqualificação do trabalhador. Essa leitura economicista da dinâmica do desenvolvimento capitalista deu origem no campo da sociologia do trabalho à “tese da

desqualificação dos trabalhadores”.

A concepção de Braverman (1987) sobre a tendente desqualificação do trabalhador em função das inovações científico-tecnológicas foi assumida e relativizada –

102 Mandel utiliza como base de sua análise sobre as revoluções tecnológicas a transição da base energética da produção social. Assim a primeira revolução tecnológica teria por base a substituição da força motriz animal pelo vapor, a segunda pela substituição deste pela energia do petróleo e a terceira pela introdução da energia atômica no lugar do petróleo.

103 Braverman em seu estudo questiona a validade científica da caracterização do trabalhador enquanto qualificado, semiqualificado e não qualificado criticando a origem burocrática e estatística desta caracterização.

persistindo de forma mitigada - pela “tese da polarização das qualificações104” desenvolvida nos anos 1970 por Freyssenet (1977), H. Kern e M. Schumann (1980), e A. Sorge et. Alli (1983). Para esses autores a introdução de novas tecnologias de produção não tenderia a promover uma desqualificação geral no trabalho, mas somente uma polarização no seio da classe trabalhadora com a crescente inflação da massa de trabalhadores desqualificados ao lado de uma pequena quantidade de trabalhadores superqualificados105 (HIRATA, 1994, p. 131).

Nos anos 1980, com a divulgação do resultado de inúmeras pesquisas empíricas sobre o tema, surgem as bases para a efetivação de um amplo consenso a respeito do peso da tecnologia na redefinição das qualificações. É claro que esse consenso não anulava o reconhecimento da influência de outras variáveis econômicas como o mercado de produtos e de trabalho e os fatores extra-econômicos como a posição dos sindicatos e as estruturas organizacionais, entre outros, na definição dos níveis de qualificação e do conteúdo das tarefas. (PAIVA, 1993, p.316).

Como fruto desse consenso emerge a “tese da requalificação do trabalhador” nos textos de Zarifian (1990) e Freyssenet (1992), os quais associam a adoção de novos modelos de organização industrial a um movimento de re-profissionalização tido como qualificador do trabalho.

Shiroma e Campos (1997, 16), apoiando-se em outro estudo de Paiva (1989), indicam ainda uma quarta tese a respeito dos impactos causados pela crescente introdução de novas tecnologias, a “tese da tendência à qualificação absoluta e a desqualificação relativa

do trabalho”.

Essa multiplicidade de teses sobre a qualificação, desenvolvidas desde meados dos anos 1940, reflete não fortuitamente, guardadas as proporções, dois momentos semelhantes na história recente do capitalismo monopolista, todos dois assentados na idéia motriz da eclosão de revoluções tecnológicas em função das quais teria se sucedido, por desdobramento, uma série de eventos e processos; a primeira revolução, situada no pós- segunda guerra, seria o eixo da idéia do surgimento da sociedade pós-industrial; a segunda, percebida desde o final dos anos 1960, se estabeleceria como o fundamento das distintas

104 Machado (1996, p.19) nos informa que Tourraine (1954, 1955, 1966) teria sido o pioneiro na formulação dessa tese apresentada como original no debate sociológico atual.

105 Manfredi associa as noções de supereducação e superqualificação a posições que buscam respaldar cientificamente as atuais políticas neoliberais de educação. (1998, P. 17)

formulações a respeito da sociedade informacional e dos processos de reestruturação produtiva e seus corolários teórico-ideológicos plasmado nas concepções pós-fordistas.

O conjunto dessas teses se baseia tanto sobre o binômio qualificação/desqualificação quanto no intervalo das múltiplas proporções em que a combinação das mesmas podem se manifestar. Todas elas possuem inspiração marcadamente macroeconômicas por assentarem-se nas transformações colocadas pelo progresso científico- tecnológico do desenvolvimento capitalista e resultam, na análise empreendida sobre os autores acima citados, das relações existentes entre o desenvolvimento tecnológico, a divisão técnica do trabalho e o controle dos conhecimentos requeridos pelos processos de trabalho. Elas expressariam ainda uma racionalidade de viés algébrico onde a divisão do trabalho e o controle sobre o conhecimento do processo de trabalho aparecem numa relação determinada pela proporcionalidade inversa com o índice de qualificação atribuído ao trabalhador.

O parâmetro de qualificação adotado nessas teses é alusivo ao trabalho de natureza artesanal106 (MACHADO, 1996, p. 16), o qual possui como correspondente na esfera da circulação as atividades dos mercadores; nas palavras de Ferreti:

[...] o esquema sugere que a desqualificação se origina na progressiva divisão técnica do trabalho, apartando-se com isso, da elaboração por inteiro dos produtos, e uma vez que a requalificação supõe que a desqualificação

106A transição da produção artesanal, baseada na integralidade do processo do trabalho individual e na propriedade dos meios de produção pelo artesão, para a forma capitalista de produção, implicou tanto no desapossamento total do trabalhador por parte do capital em relação a sua atividade laborativa, quanto uma acentuada fragmentação do processo do trabalho. Se o surgimento do sistema de cooperação enquanto forma de organização da produção social possibilitou primitivamente ao capital exercer e viabilizar sua lógica de valorização através do controle do produto e não sobre o processo de trabalho, deixando dessa forma intacto o processo de trabalho do artesão, foi somente com o desenvolvimento dos sistemas de produção manufatureiro e industrial que o capital conseguiu intervir no âmago do processo de trabalho subordinando-o a seu controle na manufatura e dominando-o integralmente na indústria. Esse processo é definido nas obras de Marx como a transição da subordinação formal do trabalho para sua subordinação real e teve como efeito para o trabalhador tanto a perda de propriedade de sua própria força de trabalho, vendida ao capitalista enquanto mercadoria, quanto a perda do sentido de seu trabalho, intensificando dessa forma a alienação do trabalho frente ao capital. Esse processo de expropriação foi tão profundo que o trabalhador nesse percurso passou por uma plena re- configuração do seu papel social na produção de bens e serviços, sendo destituído da condição de sujeito do processo para a simples situação de objeto do mesmo. Como parte indissolúvel desse processo o capital desenvolve, para além da divisão social do trabalho, uma divisão técnica do mesmo, buscando responder tanto a suas necessidades econômicas de produção quanto suas necessidades políticas de dominação e controle. Se na manufatura, no processo de divisão técnica do trabalho, primava à contradição econômica existente entre a necessidade de aumentar a produção e a escassez de trabalhado qualifica para a realização desse fim, daí a introdução de camponeses adestrados somente para a execução de uma parte do produto, sob controle e supervisão do mestre; na indústria sua finalidade primeira é a dominação política do trabalhador, visto que nesse sistema, a ciência do processo de trabalho reside centralmente na máquina sendo o trabalhador não mais que um apêndice desse autômato. A divisão do trabalho assim vista, sob a determinação da lógica produtiva do capital, na fábrica, vai atingir um inimaginável nível fragmentação e colocar-se como uma necessidade técnica da produção, construindo desde então um substrato ideológico que até hoje domina o discurso da racionalização produtiva do capital.

pode ser superada pelo retorno, de alguma forma ao domínio de fases inteiras da produção, o artesanato põe-se, simbolicamente, como referência de trabalho qualificado. Apesar de, evidentemente, não mais se poder tomar, nas sociedades modernas, o artesanato como referência para a produção social como um todo [...] (2004, p. 406).

Todas as teses acima anunciadas, como vimos, possuem por traço comum, a ênfase no progresso da ciência e da tecnologia e seus desdobramentos sobre a lógica do desenvolvimento capitalista, mesmo assim, ainda que reconhecendo a especificidade do contexto atual, marcado pela idéia de uma revolução científico-tecnológica e pelo papel privilegiado atribuído à dinâmica tecnológica na determinação dos perfis ocupacionais, achamos ser necessário e prudente considerar outras variáveis que, mesmo possuindo um menor poder relativo de determinação, detêm clara capacidade de influenciar nos processos de redefinição da qualificação e possibilitam melhor aproximação da realidade vivenciada pelo mundo da produção/circulação do capitalismo operante.