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Separar-se dos pais e construir seu próprio caminho tem sido definido por diversos

estudiosos da família (CERVENY; BERTHOUD, 1997; BOWEN, 1991; MINUCHIN,

1982) como uma vivência essencial para que o filho atinja a condição de adulto. No

entanto, a necessidade de pertencer, de se sentir incluído num grupo, é uma necessidade

básica do ser humano. A família, segundo Minuchin (1982), é o contexto natural para

crescer e receber auxílio, e é ela quem garante a pertença do indivíduo ao mesmo tempo

que promove a sua individuação. Para que o filho possa separar-se dos pais, pelo menos em

parte, é necessário um certo nível de autonomia e independência, que permite por sua vez, a

elaboração da sua própria identidade.

Pesquisando sobre o fenômeno do prolongamento do tempo de permanência do

filho na casa dos pais, Ramos (2005), socióloga portuguesa radicada na França,

desenvolveu o trabalho intitulado: “Continuar criança, tornar-se adulto: a coabitação dos

estudantes na casa dos pais” (Rester enfant, devenir adulte: la cohabitation des étudiants

chez leurs parent). No decorrer da sua pesquisa a autora discorre sobre os conceitos de

autonomia e independência do filho adulto no contexto da coabitação com os pais. Esses

conceitos, conforme afirma, precisam ser relativizados, uma vez que existem muitas formas

de “ser adulto”. Segundo Ramos apud Pimenta (2005):

A autonomia remete à idéia de que o indivíduo determina a si mesmo as próprias regras, enquanto a independência é um estado no qual o indivíduo se encontra desde que disponha de recursos (nomeadamente econômicos) suficientes para estar livre para atar laços com quem quiser. A autonomia é considerada uma percepção positiva de si à qual o indivíduo tende e difere da independência na medida em que esta aparece como emancipação da casa dos pais. A autonomia refere-se a categorias subjetivas, enquanto a independência se refere a categorias objetivas(p.401).

Para tanto, a autora apresenta uma nova definição de autonomia, a qual adotaremos

neste trabalho, que remete à capacidade do filho adulto de julgar a si próprio e de reajustar

seus métodos em função dos seus objetivos. Esse conceito é baseado na capacidade

reflexiva, que confere ao filho poder sobre si mesmo (PIMENTA, 2005).

Um processo importante que envolve o jovem na sua transição para a vida adulta é o

processo de diferenciação de si mesmo, o qual, dependendo da forma como ocorre,

resultará em maior ou menor autonomia para o filho adulto. Para que possa ocorrer uma

separação saudável da família de origem, Bowen (1991) propõe que o filho deve alcançar

um bom nível de diferenciação de si mesmo em relação à própria família. Da mesma forma,

para que o filho possa alcançá-lo, é essencial que seus pais também o tenham atingido em

relação às suas famílias de origem.

De acordo com a teoria boweniana, a família constitui uma unidade emocional e é

no relacionamento familiar multigeracional onde são observados os processos emocionais

de uma pessoa. O eu (ou si-mesmo) “está ligado aos pais na geração passada, ao cônjuge na

presente e aos filhos na futura” (BOWEN, 1991, p. 70). A família é vista como um sistema

na medida em que o funcionamento de cada integrante afeta o dos demais. Os sintomas são

portanto fruto desse contexto e não uma experiência isolada do indivíduo. Esses conceitos

são influenciados por dois movimentos contrários observados nas famílias, o de união dos

membros e o de busca pela individualidade.

Bowen (1991) enfatizou que quanto maior o grau de diferenciação que se é capaz de

estabelecer em relação à família de origem mais adequada e livre de sintomas será a pessoa.

Sendo assim, o filho adulto diferenciado demonstrará uma maior liberdade para

desenvolver seus projetos de vida e desempenhar seus papéis sociais, emocionais,

relacionais, entre outros.

A diferenciação do eu é um conceito intrapsíquico e interpessoal. Intrapsíquico na

medida em que a pessoa diferenciada é capaz de separar de forma equilibrada

sentimento/emoção de pensamento/razão e assim também diferenciar-se de outros,

(diferenciação interpessoal). As pessoas diferenciadas são capazes de tomar posições

definidas sobre as questões sem serem guiadas exclusivamente por suas emoções, uma vez

que conseguem pensar nas coisas e decidir por si próprias e não apenas decidir com base na

influência dos outros ou do que sentem. São também menos afetadas pelas condições de

estresse e pelas mudanças nos seus sistemas de relacionamentos. Já as pessoas

indiferenciadas têm pouca identidade autônoma e tendem a estar fusionadas

emocionalmente com outras, fazendo sempre eco a elas. Um baixo nível de diferenciação é

encontrado muitas vezes em pessoas que apresentam ligações emocionais não resolvidas

com seus pais. O eu indiferenciado é mais vulnerável às aflições da vida e apresenta uma

maior tendência à disfunções, sejam físicas ou sociais.

Observando esses processos, Bowen (1991) desenvolveu uma escala de

diferenciação do eu, na qual avalia, numa variação de 0 a 100, o nível que uma pessoa se

funde a outra da família para criar um “eu comum”, denominado na teoria de Bowen de

“massa egóica familiar indiferenciada”. A escala de diferenciação é um dos conceitos mais

importantes da teoria e não se propõe a ser diagnóstica, mas representa o modo humano de

funcionar em um mesmo 'continuum'.

Na parte mais baixa da escala, que vai de 0 a 25, situam-se as pessoas com um nível

profundo de “fusão do eu” e baixa diferenciação. Este grupo de pessoas é pouco adaptável e

cai com facilidade em desequilíbrios emocionais, uma vez que estão sustentados numa vida

de sentimentos. No segundo quarto da escala, de 25 a 50, encontram-se os que têm uma

fusão do eu menos intensa. Do nível 50 da escala para baixo, o mundo sensitivo predomina.

Entre os níveis 50 e 75 estão as pessoas que possuem opiniões bem definidas em relação a

temas fundamentais mas que quando submetidas à pressões podem tomar decisões

puramente emocionais assumindo outras convicções a fim de não desagradar aos demais.

Essas pessoas, apesar de sob pressão desenvolverem sintomas emocionais, solucionam-nos

com maior rapidez. No último quarto da escala, de 75 a 100, encontram-se as pessoas mais

diferenciadas; apesar de na prática o nível 100 não se concretizar. São pessoas que estão

sempre seguras de suas opiniões sem serem rígidas. Estão abertas para novos pontos de

vista sendo livres para moverem-se em qualquer sistema de relação. Assumem

responsabilidade por si mesmas respeitando a si e ao outro.

Seguindo o conceito de Processo Emocional da Família Nuclear da teoria de

Bowen, as pessoas, de forma geral, tendem a se desenvolver naturalmente em um

movimento de maior autonomia, resultando em um bom nível de diferenciação do eu. No

entanto, um nível baixo de diferenciação dos pais em relação aos seus próprios pais e a

ansiedade crônica dos mesmos são os fatores que impedem esse bom desenvolvimento na

criança. Portanto, um baixo nível de diferenciação do eu pode ser transmitido de geração a

geração.

O modo pelo qual é feita essa transmissão aos filhos do grau de diferenciação dos

pais, recebe o nome na teoria boweniana de Processo de Projeção Familiar. De acordo com

esse conceito, os pais podem transmitir para seus filhos diferentes níveis de diferenciação

do eu, dependendo da forma como cada filho foi exposto à ansiedade dos pais. Geralmente

o filho mais exposto será aquele menos diferenciado e por conseqüência, mais ligado aos

pais e sob o controle dos mesmos. Seus irmãos, por outro lado, apresentam maior

autonomia emocional e maior liberdade para investir em seus próprios projetos. Quanto

mais os pais necessitam do filho para completar os seus eus parciais, mais o filho também

precisará de outros para completar o seu. A necessidade que uma pessoa tem de uma outra

para se completar é dessa forma trazida da família de origem e influenciará os

relacionamentos futuros.

Bowen (1991) propõe um nível funcional de diferenciação do eu. Este tanto pode

ser mais alto como mais baixo do que o nível de diferenciação básico da pessoa,

dependendo das pressões internas do sistema. Se este funcionar de forma a, em condições

de estresse, apoiar a pessoa, ela pode funcionar em um nível de diferenciação superior ao

seu nível básico. No que diz respeito ao desenvolvimento familiar ideal, este ocorre quando

os membros da família possuem um bom nível de diferenciação, baixa ansiedade e

relacionam-se de forma saudável com suas famílias de origem.

Dessa forma, o processo de diferenciação do filho adulto, bem como do restante do

sistema familiar – um baixo nível de diferenciação nos pais de suas famílias de origem

influencia o mesmo movimento nos filhos – passa a ser uma das tarefas essenciais a ser

cumprida nesta etapa da transição para a vida adulta do filho e da iminência de sua saída da

casa dos pais. Conforme afirmam Anderson e Sabatelli apud Jablonski, Féres-Carneiro e

Henriques (2004):

[...] sair da casa paterna representa um passo significativo em direção à diferenciação das figuras parentais. O estabelecimento de casa própria permite e requer independência financeira, funcional e emocional, como também, propicia a expansão da vida social para além dos limites do círculo familiar (p.10).

Porém, é importante ressaltar, concordando com Bowen (1991), que o fato da saída

da casa dos pais e a conseqüente independência econômica não implica necessariamente

dizer que o filho seja diferenciado ou mesmo tenha atingido um bom nível de autonomia, já

que para o autor, a distância física e a autonomia financeira ainda podem incluir uma

dependência emocional da família de origem.