O trabalho da Segunda Igreja Presbiteriana de São Paulo e da Igreja Presbiteriana Filadelfa iam bem. Contudo, no dia 25 de agosto de 1900, as lideranças das duas igrejas acordaram em realizar uma nova fusão, formando assim uma nova Igreja: a Igreja Presbiteriana Unida de São Paulo, organizada no dia 26 de agosto de 1900 (OLIVETTI, 2000, p. 29).55
O Rev. Odayr Olivetti, autor do livro Na esteira dos passos de Deus que narra a história da Igreja Presbiteriana Unida de São Paulo, revelou dificuldade em admitir que a Igreja Presbiteriana Unida de São Paulo é resultado de desunião. Olivetti optou propositadamente pelo uso do termo “fusão” em detrimento do termo “divisão” e pela omissão de que as congregações e igrejas que se uniram para formar a Igreja Unida eram resultado de divergências eclesiásticas com a Primeira Igreja Presbiteriana de São Paulo. Olivetti optou também pela omissão do amoldamento maçônico da Igreja Presbiteriana Unida de São Paulo. Essa é a denúncia feita por Guedes (2013, p. 47) justificada da seguinte maneira: o livro de Olivetti não é um tratado de cunho científico, mas um relato comemorativo da história da Igreja Presbiteriana Unida de São Paulo, publicado no ano 2000, ano do centenário da organização da referida comunidade.
Guedes (2013, p. 47-48) elenca outros dois fatores que influenciaram a criação da Igreja Presbiteriana Unida de são Paulo:
1) A necessidade do estabelecimento de uma Igreja que tivesse condições de fazer frente aos obstáculos que haveriam de surgir no desenvolvimento do protestantismo em São Paulo, visto que no período, a cidade crescia vertiginosamente, transformando-se em uma metrópole;
2) Em 1900, a ruptura no presbiterianismo brasileiro já podia ser prevista (o que de fato ocorreu em 1903), e caso não existisse uma segunda igreja presbiteriana em São Paulo, o “cisma” de 1903 ocasionaria um grande retrocesso para a difusão do presbiterianismo no território paulistano, paulista e de outras regiões do Brasil.
55 “A organização da Unida deu-se [...] no prédio da alameda ou rua dos Bambus, número 4, no salão ali
utilizado para os cultos, salão que, para a cerimônia de fusão das duas igrejas, fora alargado e preparado. Estavam ali reunidas as duas igrejas, estando presentes o Rev. J. Zacharias de Miranda (pastor da Igreja Filadelfa), o Rev. Modesto Perestrello Barros de Carvalhosa (pastor da 2ª Igreja), os presbíteros Augusto F. Shaw e Anders Jansen e o Diácono Baldomero Garcia. Presidiu à reunião o Rev. Carvalhosa. O pregador foi o Rev. Zacharias. O Rev. Carvalhosa declarou unidas as duas igrejas, sob o nome de Egreja Presbyteriana Unida de São Paulo, segundo a Palavra de Deus e a constituição e ordem da Egreja Presbyteriana do Brazil em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. E concluiu, dizendo: O que Deus ajuntou, não o separe o homem” (OLIVETTI, 2000, p. 29).
Como o presente trabalho pretende investigar a história do presbiterianismo na cidade de Jundiaí, município do interior paulista, fez-se necessário a menção do presbiterianismo de São Paulo, uma vez que foi a partir dessa cidade que o presbiterianismo espalhou-se para as demais regiões do estado de São Paulo e do Brasil.
No próximo capítulo, a cidade de Jundiaí será o objeto de estudo e no terceiro e último capítulo, a história da difusão do presbiterianismo nessa localidade até a ocasião de sua organização tardia no ano de 1951.
2 APONTAMENTOS SOBRE A HISTÓRIA DE JUNDIAÍ
O estudo a respeito da cidade de Jundiaí revela traços marcantes da história do próprio país, a saber: a palavra tupi guarani, que lhe serve de nome56 registra a gênese
indígena dos primitivos moradores da região; o prédio da Catedral Nossa Senhora do Desterro, o templo religioso mais antigo da cidade, aponta para o fato dos antigos povoadores portugueses terem buscado refúgio nessas terras; a fundação da cidade no período da expansão bandeirante no século XVII; a chegada volumosa de imigrantes na segunda metade do século XIX para o emprego como mão de obra; a consolidação do empreendimento ferroviário no mesmo período e a expansão industrial ainda na primeira metade do século passado são exemplos de que a vida numa cidade, de fato, pode ser um espelho da história de uma região maior (SCHNEIDER, 2008, p. 9). Acerca desse fato, a afirmação de Iani é interessante:
A história de uma cidade pode ser um espelho da história de uma província, estado, região, nação. Se não um espelho fiel, ao menos um reflexo de muitos traços, que a história da nação às vezes esconde. A sociedade nacional, em suas diversidades, articulações e antagonismos, tem sempre algo a ver com a cidade. A Colônia, o Império e a República, conforme as especificidades de cada época, inscrevem-se no todo e nas partes (IANI apud SCHNEIDER, 2008. p. 9).
O presente capítulo pretende oferecer um panorama histórico a respeito da cidade de Jundiaí. Oracy Nogueira, notável acadêmico brasileiro, costumava orientar seus alunos da seguinte forma: "Toda cidade tem o seu historiador".57 A cidade de
Jundiaí, no interior do estado de São Paulo, não foge do padrão apontado pelo experiente professor da área de Humanas da Universidade de São Paulo, o que se evidencia na contribuição dos historiadores e cronistas locais na preservação da memória da história jundiaiense. Trata-se aqui da contribuição de historiadores locais tais como Mário Mazzuia, Geraldo Barbosa Tomanik e etc., bem como a colaboração resultante de pesquisa acadêmica, como é o caso da contribuição de Marília Schneider e etc.
56 A palavra Jundiaí é de origem tupi guarani e significa “rio que tem muitos jundiás” (JÚNIOR, 2006. p.
16). Jundiás são peixes da mesma família dos bagres, bastante comuns nos rios brasileiros.
57 Conforme declaração do Prof. Dr. João Baptista Borges Pereira, aluno do Prof. Oracy Nogueira e
orientado pelo mesmo por ocasião de seus estudos em nível de pós-graduação na década de 1960 na Universidade de São Paulo.