O olhar de Juliana para as fotografias do despejo de 1999 proporcionou-lhe a possibilidade de fazer uma reflexão sobre a força que os moradores da favela JMV possuíam, pois eles conseguiram enfrentar as adversidades ao recomeçarem e reconstruírem o que foi destruído. Juliana escolheu três fotografias e fez comentários, apresentados no quadro a seguir:
Quadro 3- Fotografias 1, 2 e 3, escolhidas por Juliana, e seus respectivos comentários.
1
Os blocos que ficaram inteiros [comentando os blocos recolhidos por Dalva]. Agora a casinha dela está toda murada, arrumou a casinha, mas era tudo pedacinho de madeira. Essa é batalhadora essa dona Dalva, ela perdeu um filho num afogamento. O filho dela morreu afogado, ela quase enlouqueceu, mas ela superou a dor. Superar totalmente nenhuma mãe supera, mas a gente olha para trás e vê que tem outros filhos que a gente tem que ser forte por eles, não é fácil não. Mas ela nunca perdeu o pique, sempre trabalhando, sempre buscando o melhor para a família, uma pessoa admirável. (Juliana).
2
Isso aqui que era triste, sabia? Às vezes, a gente vê os próprios donos das casas, derrubando sua casinha, cada vez que ele batia na parede pra derrubar um pedaço era uma lágrima que descia. E isso foi bem pesado. (Juliana).
Às vezes leva anos e anos, para construir um barraquinho, quer dizer uma casa, barraquinho quem tem é João de Barro, uma casinha para sua família, de repente ele tem que destruir o que ele construiu com tanto sacrifício. Mas é a vida moço. Perde depois ganha, não se pode ganhar sempre, nem perder sempre, mas a vida continua e vamos fazer de novo. (Juliana).
3
Deixaram o rio limpinho, limpinho. [limpeza realizada pela Prefeitura]. Aí falaram que quem jogar lixo no rio, levaria uma multa. Poucos dias depois que a caçamba saiu, os moradores voltaram a jogar mais lixo no rio. É por isso que eles estão do jeito que estão. Agora eu vou passear, vim de lá o morador jogou um saco grande de entulho dentro do rio. Com saco plástico. O outro do outro lado fez a portinha dele, pegou o papelão e jogou dentro do rio, coisas que dá para reciclar, mas eles não pensam no meio ambiente, não pensam na própria saúde, que se o rio entope vai encher de água, a água vai trazer doenças e provavelmente a morte. Até para crianças que não tem como se defender, e agora o rio está sujo ! sujo ! sujo! (Juliana).
As fotografias escolhidas por Juliana demonstraram as consequências do despejo para aqueles que tiveram que destruir as moradias localizadas a três metros das margens do córrego. Na segunda fotografia, Juliana comenta: “isso foi bem pesado”. Os moradores tendo que destruir o que foi construído com “tanto sacrifício”. Ao olhar-se para a imagem pode-se ficar em dúvida se se trata de uma construção ou de uma destruição. A foto retirada do seu contexto pode sugerir uma dúvida, no entanto, a “tristeza” da destruição comentada por Juliana em sua narrativa conduz para a esperança de reconstrução: “Perde depois ganha, não se pode ganhar sempre, nem perder sempre, mas a vida continua e vamos fazer de novo”.
É a partir da possibilidade de “fazer de novo”, do refazer que entra a primeira fotografia escolhida por Juliana. A foto de Dalva recolhendo e organizando a pilha de blocos (tijolos de cimento empregados na construção da moradia) que sobrou do cômodo destruído à época do despejo. Ela considera Dalva uma “batalhadora” que enfrentava as adversidades da vida. Os blocos organizados por Dalva sugerem a possibilidade de reuso desse material em outro momento, o que reforça a possibilidade de reconstrução, dando um sentido mínimo para o caos do momento, além de permitir reunir as forças necessárias à superação das adversidades encontradas no caminho.
As adversidades e os infortúnios parecem fazer parte da vida dos moradores da favela JMV, o que torna suas vidas um eterno recomeço, como o trabalho infindável de Sísifo, ao continuar construindo uma moradia sempre inacabada. A casa inacabada retrata, de certo modo, a fragilidade social dos moradores da favela JMV, pois eles, em geral, contam com uma condição socioeconômica mais precária em decorrência da instabilidade no emprego e longos períodos de desemprego.
Na perspectiva de Renata, os moradores tiveram uma vitória em 1999, porque eles permaneceram em suas casas, assim como aqueles que tiveram uma parcela da casa destruída na “parte de baixo” e na “parte do campo de futebol” que acabaram por reconstruí-las aos poucos. Em alguns casos, as áreas construídas foram aumentadas. É o caso da área onde o cômodo de Dalva foi destruído. Depois de vender esta parte do seu terreno, os compradores construíram dois sobrados geminados, dos quais um deles faz divisa com o córrego.
Hoje eu acho que para a gente passar por tudo isso, eu acho que tem que dar graças a Deus, foi uma vitória. (Renata).
Teve umas que derrubaram, mas acho que mesmo os moradores voltaram atrás e arrumaram eu acho que... porque a maioria que aconteceu alguma coisa que derrubaram foi a parte de lá de baixo e acho que daquela... como é que fala, perto do campo assim sabe, muitas as coisas aconteceram para aquele lado, porque aqui não chegaram, e se chegaram a derrubar foi antes de eu chegar aqui. (Renata).
A narrativa de Juliana a respeito das fotografias que ela escolheu e a fala de Renata demonstraram que os moradores enfrentaram a adversidade ao longo do tempo, pois aqueles que foram afetados diretamente pelo despejo reconstruíram suas moradias.
Havia um ciclo recorrente na trajetória de vida dos moradores da favela JMV: construção-destruição-reconstrução. O córrego que atravessa a favela era um dos meios que alimentavam o circuito da reconstrução, pois ele foi o motivo da decretação da favela como área de risco. Era no córrego que a empresa poliquímica despejava resíduos tóxicos que comprometiam a saúde dos moradores da favela JMV; era nele que os moradores lançavam os dejetos e os entulhos; era o córrego que enchia, vez por outra, devolvendo para as moradias o que não lhe pertencia. O córrego retroalimentava o circuito da reconstrução à medida que destruía o que foi construído, para dar início à reconstrução.
A necessidade de preservar aquilo que, porventura, pudesse ser reaproveitado dos escombros da destruição provocada pelo despejo era comum na narrativa dos entrevistados e repunha a questão do recomeçar e a esperança de reconstrução, pois procurava-se preservar o que fosse possível para reiniciar o ciclo da reconstrução, na chave da construção-destruição-reconstrução. Dentre as fotografias escolhidas por Olívia, a Fotografia 4, em particular, relacionava-se com a temática da preservação.
Quadro 4- Fotografia 4, escolhida por Olívia, com seu respectivo comentário.
Tem várias aqui que pela situação é bem... é bem complicado mas, essa daqui é interessante porque você vê as próprias pessoas cuidando de preservar o mínimo que ficou depois de quebrar, e essa coisa da criança aqui. Eu acho que talvez ela nem soubesse, ou nem tivesse entendendo o que estava acontecendo, ou o que significaria. (Olívia).
Como observado por Olívia as pessoas estavam em busca da preservação do que fosse possível para reorganizar o que foi perdido. A preservação era o ponto de partida do ciclo construção-destruição-reconstrução. As práticas e representações sociais dos moradores da favela JMV pareciam estar revestidas pelo movimento do jogo da vida constituído na chave do “perde depois ganha”.
A destruição dos três metros de cada margem do córrego em 1999, na parte de baixo da favela e na região do campo de futebol, levou os moradores a voltarem a construir suas moradias e novamente a beira do córrego foi tomado por casas.
Construíram de novo. (...) E o senhor vê como agora, tá todo mundo morando na beira do rio, tá todo mundo morando na beira do rio e sempre eles estavam falando que não é para fazer casa na beirada do rio, que as terras estão muito molhadas, está muito fofa, mas eles continuaram fazendo a mesma coisa. (Dalva).
De certa forma, o ciclo do processo de construção-destruição-reconstrução relaciona-se com a questão do inacabado e do improviso, da instabilidade na moradia e na vida. A presença das moradias inacabadas contribui para a instabilidade que parece traduzir as práticas e representações sociais na favela JMV em 2011/12.