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Questionnaire for Tenants

In document Shopping malls inefficiencies (sider 148-158)

A partir das rememorações dos entrevistados em 2011/12, foi possível aprofundar a questão da arbitrariedade e do estigma acarretado no processo de despejo da favela JMV em 1999. A arbitrariedade registrada na ação dos agentes da Prefeitura (engenheiros e assistentes sociais), e dos representantes do aparelho de repressão do Estado foi tema recorrente. Juliana, por exemplo, lembrou quando as casas foram identificadas com a letra “S” e o pedido da equipe da Prefeitura para as pessoas assinarem um papel de despejo. Ela relatou que seu marido não sabia ler e acabou por assinar o papel. “Esse “S”, olha esse “S”, “S” de sai!!! Jesus. [mais silêncio enquanto ela folheia as fotos]. Esse “S” bem grandão botaram na nossa parede” (Juliana). Sem maiores informações sobre indenização ou outro local para morar, as casas eram “carimbadas” burocraticamente, segundo critérios técnicos que desrespeitavam não só os investimentos realizados por parte dos moradores na construção da casa e como também os direitos à moradia.

Em 1999, Juliana tinha três filhos pequenos e tinha muito medo de ficar na rua sem ter onde morar com seus filhos e seu companheiro. Ela não tinha mais condições de trabalhar em paz, uma vez que não sabia se na volta sua casa estaria no mesmo lugar, ou se restaria somente os destroços. Juliana, em 2011/12, lembrou que o cenário vivido em 1999 dava indícios de uma guerra. A ação de intimidação e pressão por parte do Estado também causava medo, porém os moradores organizaram-se na defesa pacífica das suas moradias:

Foi... nós nos sentimos como se nós estivéssemos no Iraque, era muito medo, muito medo mesmo. A gente tinha medo de dormir, de repente acordar com as máquinas entrando, aquele barulho, nossa! (Juliana)

É disso que a gente tinha medo. O policiamento ferrado em cima. Quando vinha parecia tropa de elite, cavalos!!!, cachorro!!!, máquinas!!!. Dava medo. (Juliana) Aí veio polícia montada, veio a polícia civil, veio máquinas, veio cachorro, veio cavalo, veio tudo. Eles não chegaram a invadir a favela, porque em cada entrada, vinha um monte de pessoas e ficavam... isso sem violência nenhuma graças a deus ninguém saiu machucado. (Juliana).

A narrativa de Juliana, ao olhar para as imagens fotográficas do despejo em 1999, e sobre as fotografias que ela escolheu como mais relevantes, remeteram à força de repressão do Estado agindo no sentido de intimidar e causar pânico entre os moradores, o que demonstrou o uso excessivo da força. “Foram poucos dias que pareceram séculos”. Nesses poucos dias, ocorreu um estado de suspensão dos direitos e do próprio tempo no momento do perigo. Recuperando a perspectiva benjaminiana, as imagens fotográficas do despejo remeteram ao momento de perigo em que os instantes de fulguração e suspensão do tempo abriram a possibilidade de transformação e ressignificação do presente e do passado.

É neste estado de suspensão do tempo e dos direitos que surge uma reflexão sobre a condição de vida e as adversidades a que os moradores estavam sujeitos: “Os moradores foram muito heróis por eles e para muita gente”. Na adversidade, os moradores transformaram-se em heróis dispostos a vencer e enfrentar a adversidade: “Assim nós fomos vivendo aos pouquinhos e estamos aqui até hoje com a graça de Deus”.

Ao olhar as fotografias do despejo, Lúcia sensibilizou-se por uma que, segundo a sua perspectiva, traduzia uma espécie de síntese do que ocorreu durante os tensos dias em que os moradores viveram sob a ameaça do despejo. Lúcia escolheu a Fotografia 5.

Quadro 5- Fotografia 5, escolhida por Lúcia, com seu respectivo comentário.

Eu escolhi essa foto aqui porque ela foi muito triste de ver as pessoas. (...) Eles ficaram aqui só esperando a ordem dele [o comandante] para eles entrarem, e as máquinas também estavam aqui, porque não aparece, mas as máquinas também estavam aqui, aquelas máquinas de derrubar, elas estavam desse lado aqui [não aparece nas fotos]. E os policiais só esperando a ordem para soltar os cachorros no povo, aqui desse lado aqui tinha um poste que estava os pneus e tudo para poder colocar fogo. Aqui olha o fundo da casa da Nathalia, esse portãozinho aqui. Essa hora aqui era só esperando a ordem para soltar. E a gente que via isso, a gente falava assim: “vai acontecer um massacre” os moradores falavam: “a gente vai morrer mas não vai sair”. Então a gente achava que ia acontecer mortes. E a morte que a gente achava que ia acontecer ia ser mais da população, porque os policiais estão armados, os cachorros eles vão lutar vai sobreviver. Eu vi essa cena aqui eu lembro até hoje, quando eu vi os policiais eu olhei assim, eu falei: “meu Deus vão acontecer mortes aqui hoje”. Por conta disso e essa hora que tava tudo isso aqui, foi a hora que o comandante deles saiu e entrou lá dentro, para ver como era. Quando eles chegaram e tudo, aí a população que tava mais para cá falou: “gente, aqui tem pessoas deficientes, tem crianças deficientes, tem adulto deficientes. Não dá para gente sair assim”, aí chamaram ele: “o senhor venha ver olha o que vocês vão fazer”, vocês vão ver isso aqui dentro. Foi onde ele saiu e os policiais ficaram esperando a volta dele para decisão. Ele falou quando voltou: “eu vou conversar lá fora com meus superiores”. Aí foi que depois disso aqui, quando ele saiu, ele se reuniu e foi embora, aí o povo ficou feliz, gritando e tudo. Foi aí que veio a ordem que era para eles irem falar com esse Juiz. Foi a partir desse momento aqui, dessa foto aqui, depois desse momento, que esse homem saiu lá de dentro que ele foi, e declarou que realmente tinha pessoas deficientes na favela. Aí foi onde ele falou assim: “então faça um levantamento de quantos tem”. Foi feito o levantamento, e até eu na época me surpreendi com a quantidade que tinha, porque eu não via. (Lúcia).

Os motivos que levaram Lúcia a escolher a Fotografia 5 revelam um conjunto de cenas não expressas na imagem fotográfica escolhida. Ela descreveu o cenário de conflito instalado na favela e detalhou um dos momentos de maior tensão vivido pelos moradores. Dentre os elementos ausentes na fotografia escolhida por Lúcia, foi possível reconstruir o clima de apreensão e tensão com relação ao despejo: as máquinas, que não apareciam na foto, esperavam a ordem para destruir as casas da favela JMV; o poste recoberto por pneus

para serem queimados como forma de resistência dos moradores, além do fato de eles insistirem em não abandonar suas casas mesmo diante do risco de morte.

Lúcia depreendeu das imagens presentes na foto o processo de negociação entre os moradores e o comandante responsável pela operação para suspender a operação por causa do grande número de pessoas deficientes, resultando no adiamento da execução do despejo naquele momento.

A partir de apenas uma fotografia escolhida, Lúcia foi capaz de recontar e mostrar inúmeras cenas do processo de despejo não contidas nas imagens objetivadas na fotografia escolhida. Suas lembranças extrapolaram a concretude das imagens da foto e revelaram mais que o clima tenso, a capacidade de negociação e resistência dos moradores na defesa de suas casas. Olívia também escolheu a Fotografia 5. Sobre essa imagem fotográfica, ela fez os seguintes comentários:

E essa daqui que é a coisa assim de... que eu vi das fotos, os caras mobilizaram uma série de policiais e tudo o mais, mas é... primeiro que se é uma desocupação, teoricamente deveria ser tranquila, não vejo porque da necessidade e a coisa do... essa foto dá impressão do... o crime de morar no lugar errado. Seu crime qual é? Mora no lugar errado. E aí eles tem que disponibilizar essa quantidade de pessoas e... enfim... para que você seja punido pelo seu crime de estar morando no lugar errado. Acho que é isso... (Olívia)

É que se você... na época essa é a Guarda Civil [Metropolitana]. De repente você teoricamente você acha que a polícia é uma questão de proteção... de... de... para prender bandido digamos assim, e de repente você vê numa situação dessa... mas, porque tanta polícia se a coisa tende a ser pacífica? Qual que é o crime? É morar no lugar errado. (Olívia)

Ah eu acho que é difícil dizer. Não tem lugar certo, mas é como eu te falei que a favela em si já tem esse rótulo, e muitas vezes as pessoas não fazem muita questão de perder isso, de perder esse rótulo... só tem bandido, então tudo bem. Para algumas pessoas é até conveniente... enfim não sei, não tem lugar certo. (Olívia).

Ao perguntar os motivos que a levaram escolher a Fotografia 5, Olívia hesitou em responder. Ela não achava necessário tantos policiais para lidar com os moradores da favela. Eram trabalhadores, não bandidos. A força policial dessa natureza era para tratar com bandidos, no caso da favela JMV, não havia necessidade de tanto. Ocorria, portanto, a representação do uso exagerado da força de repressão.

Olívia, indiretamente, sugeriu uma legenda que poderia vir a designar a fotografia 5: “o crime de morar no lugar errado”. Olívia completou: “Seu crime qual é? Morar no lugar errado. E aí eles tem que disponibilizar essa quantidade de pessoas e... enfim... para

que você seja punido pelo seu crime de estar morando no lugar errado”. Sua indignação estava relacionada ao fato de ela perceber que a polícia era para prender bandido, se tinha tanta polícia no processo de despejo era por que havia, em decorrência, a ideia de que se tratava de uma operação para “eliminar bandidos”, ou mesmo de que a favela era um lugar perigoso, o que, por sua vez, reforça o estigma, o “rótulo” que os vizinhos possuíam em relação à favela JMV e aqueles que lá conviviam.

A singularidade da fotografia 5 foi traduzida por Olívia, pois ela consistia em apresentar o quanto o povo da periferia, em geral, e o favelado, em particular, era estigmatizado e tratado com arbitrariedade pelos órgãos de repressão do Estado. Tratava-se das classes perigosas, para as quais se devia “soltar os cachorros” para manter a ordem. Se há um lugar errado para morar, deve haver um certo, ou um lugar onde morar não seja um crime. Então qual é este lugar? Olívia não sabe, mas guarda uma convicção de que a favela era um lugar estigmatizado como um reduto de bandidos.

De certo modo, a experiência de Olívia, na favela JMV, foi marcada pelo estigma de morar na favela86. Seus amigos de escola nunca foram à sua casa fazer um trabalho. Eles tinham medo de entrar na favela. As famílias dos seus amigos de escola, por sua vez, não permitiam que seus filhos entrassem e frequentassem o espaço da favela JMV.

Então para mim no começo foi difícil essa coisa da adaptação. E não em função de ser... por que eu não tinha esta... essa... a maldade... porque essa descriminação que se tem hoje... olha mora na favela, ou não mora na favela. (...) Algumas coisas só foram... o tempo é que foi me dando essa percepção de que a favela era um lugar de descriminação. (Olívia).

Então, assim... eu.. nesse período de escola para mim é claro assim, evidente, nenhum amigo que estudou comigo não frequentou a minha casa e muitas vezes não... não por eles, mas pela família, a mãe e o pai não queriam que o filho entrasse na favela. (Olívia).

A circulação de Maria, irmã de Olívia, na favela JMV, consistia nos arredores da sua casa e o caminho para entrar e sair, pois sua mãe não permitia o acesso a outros espaços da favela. A casa em que Maria vivia tinha um diferencial com relação às outras: possuía um quintal e a casa era murada. Ter quintal na favela parecia ser, ao que tudo indicava, um grande privilégio e uma marca de distinção em relação aos demais moradores. Pelo fato de ter uma casa destacada, só brincar do muro para dentro, por estar

86 A questão da estigmatização da favela foi marcante na experiência de vida de Olívia, pois, em vários

trabalhando e praticamente só dormir na favela, Maria comentou que as demais meninas a classificavam de “metida”. Ao ser taxada como “metida”, as outras meninas que moravam na favela estigmatizavam Maria, como alguém diferente.

Eu comecei a trabalhar com quinze para dezesseis anos, então eu estudava trabalhava, eu não tinha nem muito tempo de ficar ali. E algumas pessoas na mesma idade que eu nem estudava. Então aí começa mesmo aquilo, que as pessoas têm uma visão: ah ela é metida, ela quer ser melhor que as outras, e não sei o quê, porque, até assim a minha própria casa o meu pai construiu, tinha um quintal, era murado, tinha um quintal que nem eu te falei que quando a gente mudou ainda tinha espaço. Então as pessoas já falava: aí achava que a gente se sentia melhor, porque a casa era um pouco melhor (...). (Maria).

Os muros da casa também eram um sinal de delimitação do espaço com relação aos de dentro e os de fora. Muro na favela JMV era algo raro. As casas tendiam a “grudar-se” umas às outras, sendo difícil a distinção onde uma começava e outra terminava. O muro separa e distingue, pois os que se encontram para dentro do muro são vistos pelos demais como diferentes e, conforme o caso, privilegiados.

A mãe de Olívia e Maria sempre restringiu a circulação delas aos limites da área da casa, intramuros, as brincadeiras com seus irmãos e uma tia da mesma idade. A mãe definia com quem se podia, ou não, brincar. As demais crianças da favela, por sua vez, não queriam brincar com ambas, pois elas praticamente não brincavam fora do espaço da casa. Neste sentido, a mãe de Olívia e Maria reproduzia, na educação das filhas, o estigma da favela como lugar perigoso, que exigia controle constante sobre as amizades estabelecidas.

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