MESES MILÍMETROS Janeiro 33,75 Fevereiro 73,15 Março 100,56 Abril 109,81 Maio 95,42 Junho 77,20 Julho 61,39 Agosto 33,05 Setembro 18,31 Outubro 16,87 Novembro 24,06 Dezembro 30,57 TOTAL 674,14
Fonte: SANTA CRUZ, Pedro et al. Op. Cit., pp. 49-50.
Observando a tabela, percebe-se a volubilidade das chuvas no município, chovendo razoavelmente bem entre fevereiro e julho e muito pouco entre agosto e janeiro. Esse tipo de variação pluviométrica impossibilita um bom aproveitamento agrícola.
No Brasil, até meados dos anos de 1950, dois terços de nossa população habitava o campo, proporção que se inverteu em cerca de 30 anos, principalmente no Nordeste. A falta de perspectiva, as desigualdades regionais e a seca foram fatores que expulsaram as pessoas de suas localidades, provocando uma migração em massa do nordestino rumo a regiões mais atrativas do país. E em Pesqueira não foi diferente, pois a partir da década de 1950 as indústrias alimentícias do município diminuíram a contração de operários e também reduziram as atividades de milhares de pessoas que indiretamente
dependiam de trabalhos ligados à indústria. Destarte, Pesqueira foi perdendo sua população, que migrava principalmente para São Paulo, em busca de melhores condições de vida 159.
A seca, incontestavelmente, sempre se configurou como o maior obstáculo ao crescimento do Semi-Árido. A economia da região Semi-Árida caracteriza-se, como já diagnosticou Celso Furtado no GTDN, por uma baixa produtividade e sujeita a crises periódicas de produção. Segundo Furtado:
“O tipo da atual economia da região semi-árida é particularmente vulnerável a esse fenômeno das sêcas. Uma modificação na distribuição das chuvas ou uma redução no volume destas que impossibilite a agricultura de subsistência bastam para desorganizar toda a atividade econômica. A sêca provoca, sobretudo, uma crise da agricultura de subsistência. Daí, suas características de calamidade social” 160.
O GTDN trouxe à tona também as possíveis causas e explicações do atraso da economia do Nordeste, estabelecido em indicadores que evidenciavam a disparidade de riquezas entre as regiões brasileiras. Isso se tornava evidente na medida em que os números demonstravam o distanciamento de bem-estar entre as regiões. O próprio GTDN apontou elementos, já mencionados no item anterior, determinantes dessa condição desigual: relações econômicas desfavoráveis do Nordeste com o Centro-Sul do país; os gastos públicos prestigiavam a região rica do país; a existência de um arcabouço institucional que perpetuava, na Região Nordeste, o atraso econômico e social.
_______________________
159 Vê-se que o Nordeste tinha “condições que favoreciam a migração: forte pressão demográfica e alta concentração
fundiária. Desse modo, o Nordeste, por seu processo histórico-social-político e econômico, transforma-se numa área caracterizada por transferir mão-de-obra rural para os centros urbanos mais dinâmicos do país, perdendo, assim, a capacidade de retenção de população e se transformando em uma área com altos índices de pobreza e de perdas de população”. CAVALCANTI, Helenilda & GUILLEN, Isabel. Atravessando fronteiras: movimentos migratórios na história do Brasil. Disponível em: < http://www.imaginario.com.br/artigo/a0061_a0090/a0086-01.shtml >. Acesso em: 25 jul. 2005.
160
A partir do final da década de 1950, com a criação da SUDENE, várias ações de desenvolvimento foram implantadas no Nordeste. Através dos Planos Diretores, a SUDENE e seu operador financeiro, o Banco do Nordeste, conduziram os investimentos públicos na região, o que amenizou a difícil situação nordestina. Entretanto, as diferenças regionais não foram dirimidas por essas ações, que também foram insuficientes na resolução de problemas tão graves como a seca.
Em meados de 1960, a SUDENE e a FAO fixaram um acordo para a realização de estudos sobre o desenvolvimento agrícola no Vale do São Francisco, a fim de analisar as potencialidades de recursos naturais e a infra-estrutura da região. Os crescentes empreendimentos no Vale foram transformando o submédio São Francisco numa das áreas mais produtivas do Estado de Pernambuco, cujo eficiente e cada vez mais abrangente sistema de irrigação, agregado a numerosos incentivos públicos, fez com que Petrolina e municípios adjacentes se tornassem um pólo agroindustrial 161.
Para Pesqueira o desenvolvimento do Vale do São Francisco foi mais um fator agravante na já complicada situação das fábricas, pois o município sofria com a falta de água e não conseguia competir com a produtividade de Petrolina. Dr. Moacyr conseguiu desenvolver diversos tipos de tomates para aumentar a área plantada em Pesqueira, mas mesmo assim a produtividade do município não se igualava a de Petrolina, que produzia 80 toneladas por hectare e tinha três safras de tomate por ano, enquanto Pesqueira só recolhia 25 toneladas por hectare e tirava apenas uma safra por ano. O município, então, não podia competir com o plantio de frutas e tomate do Vale 162. Há de se ressaltar que o município de
Petrolina, até a década de 1960, possuía uma população bem inferior ao de Pesqueira. ________________________
161 O sucesso agroindustrial do Vale do São Francisco deve-se à integração dos setores público e privado, que desenvolveram
em conjunto estudos e investimentos na região. As ações governamentais na área do Vale intensificaram-se a partir da década de 1960 por meio de empreendimentos, preponderantemente, em transportes, energia e irrigação. “(...) na década de 70, além das bases de conhecimentos técnicos, ocorridas devido à instalação de campos de experimentação, inicialmente pela SUDENE e CODEVASF e, posteriormente, pelo Centro de Pesquisas do Trópico Semi-árido (CPATSA), da EMBRAPA, criaram pré-condições para a enorme mudança no padrão de crescimento e desenvolvimento na área do Submédio São Francisco, especialmente no complexo Petrolina/Juazeiro”. SUDENE. SUDENE: Uma Parceria de Sucesso no Vale do São
Francisco. Recife: SUDENE, 1995, p.27.
Para alguns antigos citadinos 163, outros dois fatores também contribuíram
fundamentalmente para o desfecho trágico da industrialização pesqueirense, seriam eles: a inabilidade de gestão empresarial dos dirigentes das fábricas do município e a falta de interesse político em ajudar a resolver ou minimizar, de alguma forma, a difícil situação das indústrias locais.
Comentam tais citadinos que as tradicionais famílias de Pesqueira, proprietárias das fábricas, começaram a se desestruturar, tendo a maioria de seus membros saído do município para viver em metrópoles. Em relação à Fábrica Peixe, diz-se que os membros mais jovens da família, a partir dos idos de 1940, saíam de Pesqueira para estudar em regiões mais desenvolvidas do país e não mais retornavam, perdendo o vínculo com o município e o interesse na administração do complexo fabril. Relatam ainda que os herdeiros da família Britto começaram a retirar grandes somas de dinheiro da fábrica para manterem suas vidas fora da cidade e, com isso, contribuíram na descapitalização da indústria, sem nenhum comprometimento com os problemas existentes.
Para muitos desses antigos e observadores moradores da cidade, a governança empresarial, ou melhor, a ineficiente gestão empresarial foi o fator chave para o declínio da indústria pesqueirense, pois não houve interesse da nova geração de herdeiros das indústrias em dar continuidade a tais atividades.
Tal fator ressaltado pelos entrevistados talvez explique porque os industriários de Pesqueira não se interessaram em investir em terras no Vale do São Francisco para o plantio de frutas e tomate, o que evitaria os altos custos e a pouca produtividade do município, ou ainda, porque não ampliaram os investimentos para a Região Sudeste, onde possuíam várias fábricas e a logística favorecia a produção industrial. São questões que ficam sem respostas e sem uma apuração precisa, mas que certamente muito ajudariam a esclarecer o declínio da agroindústria de Pesqueira.
________________________
163
Entrevistas realizadas com comerciantes, funcionários públicos, ex-operários das fábricas alimentícias e aposentados, todos residentes no município de Pesqueira.
Quanto ao aspecto político, questiona-se porque os políticos locais não atuaram de forma mais incisiva em busca de investimentos públicos para o município, como a perfuração de poços públicos 164, que serviriam tanto ao abastecimento humano como para a
irrigação, e incentivos que possibilitassem às fábricas a manutenção, mesmo que reduzida, de suas atividades industriais.
Em meados de 1960, o empresário João Carlos Paes Mendonça comprou a Fábrica Primor, que depois passou a se chamar Palmeiron e demonstrou interesse de instalar a fábrica em Pesqueira, mas o então prefeito do município na época, Manoel Tenório de Brito, não teria tido visão administrativa e tato político para negociar a proposta do grupo Paes Mendonça e a fábrica foi então instalada em Belo Jardim. A ida da Palmeiron para o Município de Belo Jardim agravou ainda mais a crise das indústrias pesqueirenses, pois a rede Paes Mendonça, que nessa época era forte na Bahia, comprava grande parte da produção da Fábrica Peixe para vender em seus supermercados, mas com a Palmeiron fabricando os mesmos produtos e pertencendo ao grupo, toda a venda de produtos alimentícios que eram fornecidos pela Peixe foi cancelada 165.
Durante as décadas de 1970 e 1980, algumas pequenas fábricas doceiras e as fábricas Peixe e Rosa continuavam, obstinadamente, suas atividades industriais, mas Pesqueira já não era mais a imponente e vigorosa cidade das chaminés. A década de 1990 foi a fase terminal do parque fabril da agroindústria pesqueirense, fechando um ciclo de cerca de um século de atividades, que tornou o município uma das mais influentes localidades do interior pernambucano.
Em 20 de novembro de 1998, os cheiros do doce e do tomate definitivamente esvaíam-se da cidade. Por decisão da Cyrio e da Bombril, detentoras da marca Peixe, era fechada a unidade fabril de Pesqueira. A Peixe, pioneira da industrialização do município, também foi a última a encerrar o ciclo industrial... O apito das fábricas silenciou.
________________________
164 No período de 1962 a 1985 foram perfurados mais de 300 poços públicos no Vale do São Francisco, contribuindo para o
fornecimento de água aos agricultores, para a irrigação e para a pecuária. SUDENE. Op. Cit., p. 24.
6. CONCLUSÃO
O objetivo primordial deste trabalho concerne na apuração histórico- econômica do surgimento, apogeu e declínio da industrialização do município de Pesqueira. Como relatado ao longo da Dissertação, o início da indústria alimentícia pesqueirense foi de forma quase aleatória, que se deu em virtude do esforço perseverante e dedicado dos fundadores e descendentes da Fábrica Peixe. O apogeu industrial trouxe desenvolvimento e renome para Pesqueira e o seu paulatino decaimento, por diversos fatores, provocou o pesar do silêncio lastimoso das fábricas.
O ilustre engenheiro-agrônomo, Dr. Moacyr, administrador das Indústrias Peixe por várias décadas, comentava, com muita propriedade, que Pesqueira viveu quase um século lutando contra a própria natureza, já que o município não possuía condições para o cultivo agrícola perene e de grande escala, nem para a implantação de indústrias dependentes de água em abundância, pois se situa numa área geográfica que, pela inconstância climatológica, resultante de uma baixa e irregular precipitação pluviométrica, nunca foi vocacionada para tais atividades.
A despeito de tudo, no final do século XIX e durante o século XX, a agroindústria pesqueirense tornou-se a principal atividade econômica dessa microrregião, não só dando condições de subsistência às populações locais, como também proporcionando um desenvolvimento significativo em relação ao sofrido interior nordestino, projetando seu nome além das fronteiras regionais, porque ali nasceu e cresceu, como já sobejamente narrado, um vigoroso parque industrial.
Sem dúvida, essa situação de prosperidade econômica que favorecia especialmente os grupos proprietários das indústrias alimentícias, também gerou importantes melhorias nas condições de vida dos citadinos, que eram beneficiados ou diretamente pela geração de empregos ou indiretamente pelos melhoramentos e progresso do município.
Hoje, sabe-se que esse desenvolvimento não podia ser medido apenas pelo volume de fumaça que subia aos céus, através das chaminés das indústrias, pois que, se bem analisado, constata-se que essa mesma fuligem era justamente o resultado final da devastação de suas já tênues florestas, assim como a insistência no plantio seguido da mesma cultura, sem permitir o descanso da terra, provocou a erosão dos solos pesqueirenses em diversas áreas.
Por certo, deverão ser encontrados muitos outros aspectos negativos, ecologicamente incorretos, mas no contexto de uma época, mesmo ainda bem próxima, era um desenvolvimento desejável e mensurado por significações sócio-econômicas.
Mesmo com o funesto encerramento da industrialização pesqueirense, as marcas dos tempos prósperos da cidade ainda permanecem e são o registro de sua história. Os prédios das antigas fábricas, parcialmente restaurados, hoje servem à comunidade de forma útil. Num deles, que abrigava a antiga Fábrica Rosa, acha-se instalado um centro comercial e cultural, inclusive com o funcionamento do Museu do Doce. O prédio que pertencia à Peixe, por sua vez, recentemente abrigou em seus pátios as tradicionais feiras da cidade, inclusive com um espaço para o artesanato local, reordenando completamente o trânsito e logradouros. A indústria alimentícia encerrou seu ciclo, mas a estrutura histórica das fábricas continua presente na comunidade.
A derrocada das indústrias alimentícias do município não se deveu a nenhuma causa isolada, muito pelo contrário, verifica-se que foi um conjunto de fatores que resultou em tal declínio: a pouca fertilidade do solo; a escassez de água do município, devido aos períodos irregulares de chuvas; o surgimento de pragas que assolavam os plantios de frutas e tomate, aumentando os custos com fertilizantes e defensivos agrícolas; os problemas administrativos das fábricas; as grandes disparidades regionais; a falta de investimentos públicos na região; o desenvolvimento agroindustrial do Vale do São Francisco são elementos que, reunidos, dificilmente seriam superados por uma comunidade interiorana.
Premidos por esses fatores político-econômicos decisivos e sem alternativas viáveis, os clãs proprietários das fábricas, em alguns casos com cisões familiares, viram-se obrigados a aceitar ofertas de venda a grupos econômicos estrangeiros, que não tinham a
menor vinculação com a região, ao contrário, interessava-lhes apenas adquirir uma empresa a mais e conquistar mercado. Num desses casos, constatou-se que a empresa adquirente tinha apenas interesse na tradicional marca da indústria, a marca Peixe, conhecida em todo o território nacional, para utilizá-la em seus produtos fabricados em outras regiões do país.
Quase cem anos de concentração de riqueza nas mãos dos proprietários das fábricas gerou uma economia apenas aparentemente próspera, quando na verdade não houve em Pesqueira, durante o período industrial, uma distribuição de renda capaz de melhorar as condições sócio-econômicas dos munícipes, pelo contrário, quando a industrialização sucumbiu a população ficou sem perspectivas de outras atividades econômicas que pudessem suprir a lacuna fabril.
Desmoronou, por completo, o complexo industrial de Pesqueira. A absorção dos efeitos ruinosos da base econômica municipal foi longa e dolorosa, mas cumprindo com todos os lutos, o município empenha-se em encontrar alternativas para se reerguer e recuperar o orgulho de seus habitantes.
Quando as indústrias começaram a dar sinais definitivos de enfraquecimento, iniciaram por se desfazer dos seus bens imóveis, então, muitos prédios e terrenos espalhados pelo município e adjacências foram sendo vendidos. Com isso, paradoxalmente, houve uma maior ampliação urbanística, inclusive as classes menos abastadas tiveram a oportunidade de adquirir bens para moradia e outras construções.
Os extensos muros altos das fábricas também foram desfeitos, o que possibilitou o surgimento de novas ruas e avenidas, tornando a cidade mais arejada. Onde era um grande depósito de lenha, surgiu um bairro inteiro; onde era um parreiral, apareceu um conjunto residencial e assim por diante.
Com o desemprego provocado pelo fim das atividades fabris, houve o ressurgimento do artesanato da renascença, que por um longo período era realizado apenas por uma pequena parcela da população, principalmente na zona rural, mas agora Pesqueira demonstra o fortalecimento dessa atividade econômica. Despertou-se também para a
exploração do turismo religioso, já que na bela Serra de Ororubá, num dos mais altos recantos do município, há um Santuário Mariano, em devoção ao aparecimento de Nossa Senhora das Graças, única revelação reconhecida da Virgem em todo o Brasil. O comércio, igualmente, diversificou-se e se expandiu, bem como o setor de serviços.
Entretanto, mesmo com todas as novas alternativas e ações para reaquecer a economia do município, não se pode esperar que Pesqueira volte a ter o intenso crescimento e sucesso de outrora. Hoje, sem a presença das suas famosas indústrias e com o desenvolvimento atingindo todas as demais localidades ao seu redor, o município passou a ser uma província comum, disputando com os outros em pé de igualdade o seu espaço econômico.
A cidade de Pesqueira, então, foi do zênite ao infortúnio. Viu nascer, desenvolver e perecer as suas indústrias de doce e tomate, o que nos leva a concluir que não houve, na verdade, um processo industrial sedimentado, visto que este gera mudanças profundas e contínuas, mas sim, uma atividade industrial cujo ciclo se esgotou e deixou economicamente órfão todo um município.
Por fim, faz-se necessário ressaltar que este trabalho, em nenhum momento, teve o pretensioso intuito de encerrar, com os argumentos apresentados, a análise e investigação da história-econômica da industrialização do município de Pesqueira. O que se pode com certeza afirmar, sem receio de contestação, é que Pesqueira foi por muito tempo um dos mais proeminentes e admiráveis municípios do Estado de Pernambuco e ainda conserva, em suas raízes, os valores e as tradições de seus habitantes.